Evacuação forçada em Gaza pode ser crime de guerra, avisa a ONU

17 de outubro 2023 - 13:40

Mais de 600 mil palestinianos terão saído do norte para o sul de Gaza após o ultimato israelita. Porta-voz da ONU para os direitos humanos lembra que a transferência forçada de civis viola o direito internacional.

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Bombardeamento israelita no norte de Gaza.
Bombardeamento israelita no norte de Gaza. Foto Matin Divisek/EPA

Segundo os cálculos do exército israelita, pelo menos 600 mil palestinianos deslocaram-se do norte para o sul de Gaza na sequência da ordem de evacuação dada pelo primeiro-ministro Netanyahu. Apesar do ultimato israelita, cerca de cem mil pessoas recusaram-se até agora a abandonar as suas casas, temendo nunca mais poder regressar.

Para as Nações Unidas, esta evacuação pode acabar nos tribunais internacionais que julgam crimes de guerra. "Estamos preocupados com o facto de esta ordem, combinada com a imposição de um cerco total a Gaza, poder não ser considerada uma evacuação temporária legal e, por conseguinte, equivaler a uma transferência forçada de civis, em violação do direito internacional", afirmou Ravina Shamdasani, porta-voz do gabinete dos direitos humanos da ONU, citado pela Reuters.

Também esta terça-feira, a Organização Mundial de Saúde  alertou para a catástrofe humanitária em curso na Faixa de Gaza, exigindo a reabertura do território para o fornecimento de comida, água, combustível e medicamentos. A passagem de Rafah, na fronteira com o Egito, continua encerrada por este país desde os bombardeamentos israelitas naquela zona. No lado egípcio da fronteira concentram-se dezenas de camiões que transportam ajuda humanitária à espera de poder entrar em Gaza. Do lado palestiniano estão milhares de estrangeiros e cidadãos palestinianos com dupla nacionalidade à espera de sair, depois de o Egito ter afirmado que não permitirá a entrada de palestinianos.

Richard Peeperkorn, representante da OMS nos territórios palestinianos ocupados, confirmou os números do Ministério da Saúde de Gaza que davam conta de mais de 2.800 mortos e de 11 mil feridos desde o início dos bombardeamentos de Israel. A OMS confirma ainda que foram atingidas 115 instalações onde são prestados cuidados de saúde numa altura em que a maioria dos hospitais deixou de funcionar por falta de água, eletricidade e material médico.

Jordânia e Egito recusam criação de "factos consumados" com saída de refugiados de Gaza

O risco de o conflito assumir uma escala regional, com a entrada do Hezbollah libanês e do Irão, levou o chanceler alemão Olaf Scholz à Jordânia para um encontro com o monarca deste país. Após o encontro, Abdulah II afirmou que rejeitará as pressões para o envio de refugiados para o seu país e o Egito. "Isto é uma linha vermelha, porque parece que o plano de alguns suspeitos do costume é o de tentar criar factos consumados no terreno. Nem refugiados na Jordânia, nem refugiados no Egito", afirmou o rei jordano, defendendo que a situação humanitária deve resolver-se dentro de Gaza e da Cisjordânia.

O rei da Jordânia também irá encontrar-se esta semana com o presidente dos EUA, durante o périplo de Biden pela região, que incluirá encontros com os governos de Israel, Autoridade Palestiniana e Egito. O responsável pela diplomacia da Casa Branca, Anthony Blinken, está há vários dias em Israel e terá negociado a abertura de corredores humanitários em Gaza, ainda por anunciar. Ao mesmo tempo, os EUA deslocaram dois porta-aviões para a região e colocaram dois mil soldados em estado de alerta.

Israel mandou evacuar 28 localidades junto à fronteira com o Líbano, criando uma zona de segurança de dois quilómetros ao longo da fronteira, com Netanyahu a dizer ao parlamento israelita que o Irão e a milícia libanesa do Hezbollah "pagarão um preço muito pesado" caso decidam lançar ataques contra Israel. Por seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Hossein Amir-Abdollahian, colocou o cenário de "ações preventivas"  para as próximas horas caso Israel avance com a invasão terrestre de Gaza. "Os líderes da resistência não permitirão que o regime sionista faça o que lhe apetecer em Gaza e depois vá atrás de outros grupos da resistência", avisou o chefe da diplomacia iraniana em declarações à televisão estatal.