Entrevista

Manuel Afonso: “A Esquerda deve ousar mudar a política e não apenas as políticas”

31 de maio 2026 - 12:04

O autor do livro “Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida” falou ao Esquerda.net sobre o momento político atual, as dificuldades e oportunidades que oferece à esquerda.

porDiogo Machado

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Manuel Afonso na apresentação do livro em Viseu.
Manuel Afonso na apresentação do livro em Viseu. Foto de Tiago Resende.

Entrevistamos Manuel Afonso, por ocasião da publicação do livro Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida (Zigurate, abril 2026). Manuel Afonso é militante e dirigente do Bloco de Esquerda, sendo membro da Mesa Nacional e da Comissão Política. Rebenta a Bolha! é o seu primeiro livro.

Nesta obra, descrita pelo próprio como um híbrido entre ensaio político e autoajuda, o autor parte de um diagnóstico dos erros da Esquerda em Portugal para propor como ela pode mudar, de forma a superar a “depressão” provocada pelo momento de refluxo, e vencer. Fá-lo de uma forma acessível e divertida, muitas vezes com humor autodepreciativo, e seguindo a estrutura tradicional dos livros de autoajuda, isto é, através de mandamentos, conselhos e “dicas infalíveis”.

Nos últimos tempos, tem-se aberto um debate público em Portugal sobre as dificuldades da Esquerda portuguesa, para o qual este livro contribui. Saímos um pouco do contexto estrito dos argumentos do livro para refletir sobre este fenómeno, sobre como chegamos até aqui, mas também sobre o momento político atual, as dificuldades e oportunidades que oferece à esquerda. Discutimos também algumas propostas de resposta que o autor oferece no livro.

Diogo Machado. Em primeiro lugar, que livro é este? Porque é que o escreveste neste momento e a quem é que ele se dirige?

Manuel Afonso. É um livro diferente do que existe e do que é habitual alguém dirigente ou militante de esquerda escrever. Tinha a sensação que depois desta sucessão de eleições se abriria um período de reflexão à esquerda, e queria contribuir para este debate. Mas não queria escrever um livro para intelectuais e académicos. Eu trabalhei numa livraria num centro comercial. Na área de restauração, acabei por criar relações com as pessoas que lá trabalhavam, sobretudo mulheres racializadas. Reparava que quando iam à livraria, dirigiam-se à secção de autoajuda. Quis escrever um livro que tivesse interesse para toda esta gama de leitores: desde o Comité Central até à secção de restauração do centro comercial.

D.M. Vamos dar um passo atrás. É certo que hoje há um sentimento generalizado de crise à esquerda, não só em Portugal. Mas a história do declínio da esquerda radical começa muito antes, com a contrarrevolução neoliberal nos anos 80, a queda do muro de Berlim, o colapso da URSS e a ideia do “Fim da História” – que o capitalismo venceu e que toda a alternativa é impossível. Nessa altura, vários partidos comunistas europeus históricos colapsaram e instalou-se uma espécie de consenso tecnocrático que parece ter engolido alguma parte da esquerda radical. Como é que estes fenómenos moldaram a esquerda? Eles são importantes para compreender as limitações da esquerda hoje?

M.A. São importantes, embora no séc. XXI outros acontecimentos acrescentaram novas camadas e merecem consideração. Lembro-me que quando comecei a militar – nós até brincávamos com isso – todos os documentos políticos começavam com “com a restauração do capitalismo na União Soviética…” (risos). De facto, é difícil sobrestimar o impacto disto. O modelo dessa época de partidos de massa, liberdades democráticas amplas e um Estado Social forte foram, na verdade, uma concessão do capitalismo nessa altura às massas trabalhadoras porque estava pressionado por uma economia não-capitalista que abrangia um terço da humanidade. Esse desmantelamento abriu as comportas a uma ofensiva brutal do capital, a uma mercantilização de todas as esferas da vida, e isso tem impacto na cabeça das pessoas. Mas hoje em dia o status quo neoliberal tem muito menos peso, e aqui a crise de 2008 quebrou um muro ideológico, que não trouxe grandes vitórias para a esquerda, mas que acabou com a ideia de que não há alternativa.

D.M. Vamos então à crise de 2008. Há quem diga que matou o consenso neoliberal e abriu uma nova janela de oportunidade. É certo que há um recrudescimento do conflito social, as manifestações contra a austeridade, o Occupy Wall Street, os Indignados em Espanha, enfim, os exemplos são variados, e um crescimento de muitos partidos de esquerda radical, e de extrema-direita já agora. Qual é a tua leitura sobre esta crise do capitalismo e o seu impacto?

M.A. Eu não acredito que tenha matado o neoliberalismo. Creio que não há automatismos na política. A ideia de que a proliferação selvagem do capital em todas as esferas da vida traria progresso e liberdades democráticas ficou fortemente abalada. Mas não havendo uma alternativa organizada, quer político-partidária, quer ideológica, essas ideias não morreram, permanecendo em estado zombie, até se reconfigurando em moldes neofascistas ou tecnofascistas – veja-se o manifesto da Palantir… A esquerda abordou esse momento ainda com feridas abertas do momento anterior (colapso da União Soviética e das utopias comunistas). Abriu-se uma janela de oportunidade, mas as nossas forças não estavam restabelecidas. Para a esquerda europeia, os acontecimentos do Syriza na Grécia criaram um trauma, um problema estratégico, que permanece até hoje. Até esse momento a visão da nossa família política era que, mantendo um horizonte revolucionário, na etapa presente, a existência de um governo de esquerda que aplicasse fortes reformas anti-neoliberais que contivessem a expansão do capitalismo, recuperassem os bens comuns e fizessem medidas radicais de redistribuição da riqueza permitiria uma mudança da correlação de forças e possibilidades de avanço. A estratégia era governos de esquerda que chegassem ao poder combinando mobilização nas ruas e processos eleitorais e institucionais. A derrota do Syriza abriu um vazio estratégico que ainda hoje estamos a reconstruir. Esta estratégia provou-se insuficiente, mas não ressurgiu ainda uma alternativa estratégica hoje além da mera resistência.

capa do livro
Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida. (Ed. Zigurate)

D.M. O período pós-crise e da recuperação até ao covid foi chamado por alguns como o momento populista. Cresceram partidos como o Podemos em Espanha, o Bloco em Portugal, o Syriza na Grécia, mas também Sanders nos EUA e Corbyn no Reino Unido. No entanto, parece ter sido de curta duração e a maioria destes movimentos é residual hoje, enquanto a extrema-direita parece ter vindo para ficar. O que pensas desta vaga do chamado “populismo de esquerda”?

M.A. É um balanço em curso – ainda estamos aqui – e alguns desses movimentos e protagonistas ainda são influentes. O que creio que temos de pensar é que o contexto do neoliberalismo, especialmente na sua expressão institucional mais acabada que é a União Europeia, não permite sequer um reformismo consequente. Durante o séc. XX, a divisão na esquerda era entre revolucionários e reformistas. No contexto atual, é entre gerencialismo e reformismo (mantendo-se a estratégia revolucionária). A dureza, a voracidade do capitalismo no Ocidente, causada pela sua própria crise, isto é, a incapacidade de recuperar taxas de lucro aceitáveis, implica que qualquer concessão, mesmo que reduzida para os padrões dos séc. XX, requeira um grau de confronto político de carácter praticamente anticapitalista. A mobilização de massas, a auto-organização das classes populares, a luta de baixo para cima, sem nunca esquecer as lutas eleitorais, claro, é essencial porque o grau de confronto necessário é enorme. O exemplo do Syriza mostra que a via eleitoral não chega. No dia em que houver outro governo de esquerda na Europa, vão fechar-se os torniquetes todos e há hoje um arsenal de ferramentas, que inclui a repressão e o neofascismo, que fará o que se fez ao Syriza parecer simpático. É preciso um programa atualizado e concreto, que ofereça perspetivas a todos os setores da população, mesmo os que estão afastados da política, mas ao mesmo tempo é preciso enraizamento e organização, voltar a uma ideia de organização de base e permanente, de construção de baixo para cima.

D.M. Neste período em Portugal, é difícil falar da história da esquerda radical sem falar da Geringonça. Muitos argumentam que o refluxo da esquerda radical se deve em grande parte em ter participado nesta experiência, tendo ficado associada ao desgaste dos governos PS e perdido as suas credenciais antissistema. Num artigo recente no The Guardian, Oliver Eagleton diz que a esquerda radical pôde escolher entre dois caminhos, ambos com armadilhas: o compromisso, ao tentar formar governo com partidos de centro-esquerda, como o Podemos e o Sumar em Espanha; ou o confronto, preservando a autonomia política, mas arriscando isolamento, como a França Insubmissa. É mesmo assim? Que avaliação fazes da Geringonça e do impacto na influência da esquerda?

M.A. Eu acho que essa visão dicotómica é problemática, a política é confronto e compromisso. A medida de cada um num dado momento depende das contradições e da correlação de forças, sempre com a perspetiva de a classe trabalhadora sair mais forte. Olhando para o caso específico da Geringonça, pode ser que as dificuldades atuais estejam relacionadas com isso, mas, noutros países, a esquerda até participou em governos e manteve-se forte, portanto a relação não é linear. Para perceber realmente o que foi a Geringonça e porque é que ela deixa um sabor amargo hoje nas pessoas comuns, é preciso olhar o que é que se passou no país nessa altura e, para isso, temos que fazer um balanço, que ainda não foi suficientemente feito, dos anos da troika. Ou seja, conhecemos bem o processo de austeridade fiscal da altura, mas também houve uma reengenharia social do país: a lei laboral, a “lei Cristas” e os vistos gold, que abriram a habitação a fluxos financeiros massivos, e no geral, todas as reformas que permitiram que o grande capital financeirizasse toda a vida portuguesa, em setores que antes não estavam expostos aos fluxos de capital internacionais como estão hoje – falo da agricultura, da habitação, da turistificação das cidades. Isto veio acompanhado da necessidade de uma mão de obra hiper-explorada que chegou ao país através da imigração muito acentuada nesse período. A vida tornou-se mais difícil, a maioria de nós passou a competir pela casa e afins com pensionistas suecos, milionários do Canadá e fundos imobiliários. Embora a maioria destas medidas tenham sido aplicadas no período da troika, só se começaram a sentir nos anos da Geringonça. Foi uma inevitabilidade? Não. Foi uma capitulação do Partido Socialista, que reverteu alguma parte da austeridade fiscal, mas ficou-se por aí, tendo capitulado às mudanças da economia. A verdade é que a vida piorou. Tínhamos de dar o apoio parlamentar naquele momento, mas hoje temos que fazer um balanço e apontar o dedo ao Partido Socialista.

D.M. No teu livro dizes que não devemos ter medo de fazer alianças. Em que ficamos? Como vês a política de unidade depois da Geringonça?

M.A. Há uma cultura de divisão e sectarismo na esquerda portuguesa que é pouco comum noutros países. Temos que criar uma nova cultura política em que cada passo é pensado não em torno do que é melhor para o meu partido, mas no que é que é melhor para a nossa classe, para o avanço do conjunto das forças da classe trabalhadora. A fragmentação, ainda que mascarada por discursos revolucionários, é derrotismo. Ninguém compreende que os partidos à esquerda do PS consigam cada um por si reverter a situação em que nos encontramos: ou temos uma política de alianças, ou aceitamos uma derrota por antecipação, mesmo que enchamos esta derrota de bandeiras vermelhas e proclamações revolucionárias. Devemos começar a pensar uma política de alianças a partir de programas e a partir da ideia de que a concentração da esquerda ao centro não só não é ideologicamente satisfatória, como não é pragmaticamente útil. Já não se vence eleições ao centro. Para arrancar do sofá os setores explorados e revoltados, uma aliança de esquerda têm que propor uma mudança profunda da economia e da política tal e qual ela existiu nos últimos 20 anos, em que a vida piorou e em que também se perdeu a perspetiva de que pudesse melhorar. Isso quer dizer que temos de ignorar o Partido Socialista? Aritmeticamente não faz sentido, mas há forças à esquerda com quem devemos ter um diálogo privilegiado e, a partir daí, lançar desafios ao Partido Socialista, para que deixe a sua política de capitulação permanente. Mas isto só vai surgir se nascer de um trabalho de baixo para cima.

D.M. A pandemia foi há poucos anos, mas parece que tudo mudou e se acelerou desde aí. Anton Jäger fala de hiperpolítica, uma repolitização da sociedade e da esfera pública, sem, contudo, se refletir em reforço dos partidos e da ação coletiva. Há um grande desgaste dos partidos tradicionais e das formas tradicionais de fazer política. O ritmo da política é frenético, de grande carga emocional, mas só a extrema-direita parece conseguir aproveitar este momento em que as pessoas parecem querer novas respostas políticas e mais radicais. Parece-te acertada esta leitura? Neste cenário de descontentamento, porque é que a direita avança e a esquerda não? É por isso que dizes no teu livro que a esquerda não deve ter medo de ser radical?

M.A. Sim, a esquerda não deve ter medo de ser radical, mas até há outro mandamento que gosto mais de citar: a esquerda deve ousar mudar a política, e não apenas as políticas. O momento em que vivemos é marcado nos países ocidentais por uma quebra do contrato social que sustentava as democracias liberais. Vivemos com a ideia desde o pós-guerra de que há uma participação eleitoral periódica, uma governação de rotatividade ao centro, liberdades formais garantidas e uma economia de mercado com algum grau de contenção para assegurar direitos sociais. Desde o momento em que essa economia de mercado deixa de ter contenção, em que tudo desde os serviços públicos aos bens comuns passou a ser mercantilizável, a vida das pessoas piorou, não só material, mas também emocionalmente – basta olhar para os números de saúde mental. Toda esta ordem institucional quebrou. Perante isto, todas as forças políticas são postas perante um dilema: dar isto como facto consumado e disputar o que vem a seguir, ou centrar a sua ação na manutenção dessa ordem, que o próprio capitalismo corroeu a partir de dentro. A maioria das direitas foi mais rápida a tomar a sua opção – disputar o que aí vem –, através de um endurecimento autoritário e de um ultraliberalismo na economia. A esquerda em grande medida ainda está neste dilema. É possível aceitar a quebra das democracias liberais, e disputar uma democracia mais democrática no sentido económico e político. É a tal ideia de voltar a uma tradição de esquerda que disputa a organização da política além das políticas concretas. A democracia liberal não é a democracia que realmente queríamos – apesar das liberdades que consagra, não é mais que outra face da ditadura do mercado. Queremos uma democracia da vida por completo: menos horas do trabalho, reforço dos bens comuns, controlo democrático do Estado e das decisões economias pelas populações, controlo sobre o nosso tempo de vida, sobre as decisões da nossa escola, do nosso bairro, da nossa empresa. Temos que repensar formas de democracia que digam algo às pessoas e não apenas uma democracia que frustrou e falhou em entregar uma vida melhor para todos nós.

D.M. Observamos também o regresso da guerra ao nosso quotidiano, sucessivas espirais inflacionistas e um grande agravamento do custo de vida. O futuro da esquerda é o “bread and butter”, isto é, focar-se nas condições de vida e nos assuntos do quotidiano como fazem Mamdani e Polanski, por exemplo? É esta a contradição chave para a esquerda explorar? Se não é por aí, é por onde?

M.A. Acho que é, mas não só. E não é só isso que esses exemplos fazem. Partem do custo de vida, mas apontam para uma clivagem entre um “nós”, que pagamos a fatura, e um “eles”, as grandes empresas petrolíferas, de energia, da grande distribuição, que têm que passar a pagar a fatura e, portanto, tem que haver controlo de preços, nacionalização destes setores, ou criação do Estado destes setores. Temos que partir dessa ideia de o salário chegar até ao fim do mês, mas evitar o economicismo. O Mamdani tem uma frase pouco citada: “a política vai deixar de ser uma coisa que vos acontece, e passa a ser uma coisa que vocês fazem acontecer”. Há aqui um elemento de questionamento de como funciona a política que acho que está presente em todas essas pessoas. Tem que estar presente na proposta, mas também na forma de fazer. É preciso quebrar os rituais da representação institucional e tecnocrática dos políticos, e perceber que a política deixou de ser um conjunto de propostas para melhorar aspetos da vida concreta de segmentos da população. É sobretudo a construção de valores e perspetivas de sociedade que mobilizem uma comunidade cada vez mais extensa das classes trabalhadores, e que mobilize as pessoas nesse processo.

D.M.  No teu livro dás muita importância à forma como a Esquerda comunica. Dizes, por exemplo, que não “devemos dar o tasco ao facho” e que devemos “falar como no café”. Pareces convergir com a tese da esquerda brâmane, como dizem Thomas Piketty e Julia Cagé, isto é, a ideia de que os partidos de esquerda deixaram de ser apelativos para a classe trabalhadora no sentido amplo, atraindo sobretudo os profissionais urbanos mais qualificados e mais bem remunerados. Porque é que a esquerda perdeu a capacidade de falar com as classes populares? Que importância tem a linguagem? E o perfil dos protagonistas da esquerda? Dizes aliás que a esquerda “deve ser diversidade em vez de só falar nela” …

M.A. Habituámo-nos a fazer política num contexto que acabou. Esse contexto era a estabilidade da democracia liberal que tinha os seus rituais, as suas formas de falar, o “politiquês”, a forma de vestir à político, todo este tipo de códigos. Olhe-se para a tomada de posse do novo governo da Hungria, em que o Ministro da Saúde começou a dançar techno no palco. É um padrão: comediantes que se tornam políticos, o Milei vestido de pikachu, enfim. Quando é só um, é um maluco; quando é muita gente, é uma tendência político-social. A mensagem é que aquela não é a política tradicional, a política que falhou às pessoas. A linguagem tradicional da política comunica às pessoas “isto não é para ti”, criando uma clivagem entre representantes e representados, entre os sujeitos da política (os políticos) e os objetos da política (os cidadãos). As pessoas toleravam isto quando os políticos entregavam resultados. Quando a melhoria na vida concreta das pessoas deixa de existir, a tolerância para políticos deslocados da vida concreta diminui. A extrema-direita, apesar de não frequentar o tasco (o Filipe Melo, por exemplo, era um alto quadro bancário), percebeu que a quebra dos códigos é em si uma mensagem política, porque diz: “eu não faço parte daqueles que te traíram, eu faço política nos termos em que tu próprio pensas a política”. Temos que fazer política fora dos códigos a que nos habituamos a fazer, olhando para a vida do nosso povo, perceber que a política já lá está, só sob formas a que não estamos habituados, e estabelecer diálogos. Sobre protagonistas das classes populares, é preciso ter atenção para não parecer fingimento ou teatralidade. Se soubermos fazer isso, vamos criar laços com as classes populares; e ao criar laços, vamos ter oportunidades de reconhecer novos protagonistas e de lhes dar espaço. Gente com calos nas mãos, com rugas, do interior, e dos subúrbios. O essencial é abrirmo-nos e não termos medo dessas novas caras e dessas novas formas de fazer política. Essas pessoas estão aí, nós é que temos de “mudar o chip”.

D.M. Por último, gostava que desenvolvesses um argumento, que me parece o mais polémico do teu livro. Dizes que a esquerda portuguesa é provavelmente “a mais institucional do mundo”, se bem compreendi, porque estamos apegados ao mito de abril e às instituições que daí resultaram, que vêm perdendo sucessivamente legitimidade popular. Numa entrevista à Novos Livros disseste: «o Estado falhou e esta democracia está a falhar […]. E a Esquerda continua a fazer política para um Portugal que já não existe, para expetativas e valores que estão a ser ultrapassados». Nesse caso, como é que sugeres que se faça a descolagem das instituições? Suponho que a conclusão do teu argumento seja que a esquerda deva ser mais “antissistema”, como se costuma dizer. O que é que isto quer dizer na prática e porque é que isso é importante?

M.A. Sim, eu faço essa pequena provocação no livro (risos). Quando falo de institucionalidade, falo de ideias, não do tempo que passamos em gabinetes ou no Parlamento. No Estado Espanhol, grande parte da esquerda das autonomias não concorda com a configuração do Estado, então tem automaticamente um choque com a arquitetura institucional. A maior parte da esquerda é republicana e quando vivem numa monarquia, passa-se o mesmo. Em França, a França Insubmissa considera a Constituição como herança do gaullismo, com traços autoritários. Bernie Sanders ganhou preponderância com a crítica do rotativismo ao centro e ao controlo dos grandes doadores. No Brasil, o Presidente esteve preso. A maior parte da esquerda não só tem políticas socioeconómicas diferentes, mas tem um choque com a arquitetura institucional, a forma como a política se organiza. Em Portugal, temos uma grande bênção, isto é, as liberdades democráticas expandiram-se muito depois da Revolução de 1974, embora a Constituição não surja exatamente da Revolução, mas do fim do processo revolucionário, do 25 de novembro, havendo também, claro, uma marca da derrota do fascismo. Então, naturalmente, nós apegamo-nos à Constituição, embora ela tenha sido deturpada entretanto. A minha geração foi a primeira que percebeu que a sua vida iria ser pior que a dos seus pais, que esta democracia lhes falhou e, portanto, a discussão se a Constituição foi ou não cumprida interessa pouco. Em vez de apenas nos apegarmos à democracia como ela existe, embora tenhamos que a defender dos retrocessos autoritários, devemos ter a coragem de a pensar e reinventar. Temos de voltar a olhar para a Revolução e perceber que houve aspetos em que fomos vitoriosos, mas também outros em que fomos derrotados. Isto é importante porque o ónus do estado a que o país chegou deixa de nos ser atribuído a partir do momento em que nós nos posicionamos como outsiders. É olhar para estes 50 anos e não dizer apenas “que bom que foi”, mas dizer também “que mal que estamos, e temos de mudar radicalmente”. Não devemos estar apaixonados pelo consenso. Numa sociedade fraturada, temos de traçar um “nós” e um “eles” – o confronto tem de ser estrutural no caminho da esquerda. E temos de ser nós a traçar esta divisão entre uma maioria explorada, que trabalha, e uma minoria parasitária e perigosa, os ultra-ricos. Senão alguém traçará outras divisões por nós, fraturando o nosso povo.

Diogo Machado
Sobre o/a autor(a)

Diogo Machado

Mestre em Relações Internacionais e trabalhador do setor financeiro