Está aqui

Edgardo Lander: rejeitar a intervenção dos EUA e evitar a guerra civil na Venezuela

Em entrevista à revista ROAR, o sociólogo Egardo Lander alerta para o risco de uma guerra civil e afirma: “o que necessitamos não é a solidariedade com Maduro, nem o apoio a uma intervenção imperialista, mas sim a solidariedade com o povo venezuelano”.
Edgardo Lander acusa o governo de Maduro de ser cada vez mais autoritário, governando há três anos em 'estado de emergência'
Edgardo Lander acusa o governo de Maduro de ser cada vez mais autoritário, governando há três anos em 'estado de emergência'

A revista ROAR está a publicar um conjunto de entrevistas com “ativistas e intelectuais venezuelanos” sobre a situação na Venezuela, as origens da crise, os riscos de agudização de um conflito e as saídas para as “forças democráticas radicais”. A primeira entrevista a ser publicada foi com o sociólogo Edgardo Lander, professor jubilado da Universidade Central da Venezuela e membro do Transnational Institute. A entrevista também pode ser lida em espanhol em aporrea.org.

Edgardo Lander traça um quadro da difícil situação social na Venezuela, denuncia o cerco económico que o país sofre e que agrava a crise humanitária e salienta o fluxo emigratório de quase dez por cento da população, nos últimos anos.

O sociólogo responsabiliza Maduro e o seu governo, por um lado, e a oposição de direita, por outro, de serem os responsáveis pelo agravamento da situação no país, avisa que a ameaça de intervenção dos EUA “é mais do que uma simples paranóia” e alerta para o risco de uma guerra civil.

Dirigindo-se à esquerda internacional, Lander sublinha que o mundo não pode ser analisado pelos conceitos da guerra fria e aponta: “a rejeição da intervenção imperialista não pode, de forma nenhuma, justificar um apoio incondicional ao governo de Maduro”.

Como saídas para a situação, Edgardo Lander, que participa na Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição (PCDC) e na Aliança para um Refrendo Constitucional (ARC), propõe um acordo entre governo e oposição para nomear um novo Conselho Nacional Eleitoral e a realização de um Referendo Consultivo perguntando se devem ser realizadas eleições “para todos os níveis de governo”, ou seja legislativas e presidenciais.

Inflação de um milhão por cento

Na entrevista, o sociólogo refere alguns dados importantes sobre a vida quotidiana na Venezuela.

“A vida quotidiana é cada vez mais difícil, mais e mais complicada”, afirma o sociólogo, apontando que a inflação em 2018 ultrapassou um milhão por cento e que no primeiro mês de 2019 ultrapassou os 200%. Refere também que os salários estão “absolutamente dissolvidos”, “a produção de petróleo, fonte de 96% do valor das exportações do país, é apenas um terço do que era há seis anos”, os serviços públicos deterioraram-se gravemente, atualmente o “PIB da Venezuela é apenas 50% do que era há cinco anos” e o PIB per capita é o mais baixo de há várias décadas.

A situação está a provocar também uma crescente corrente emigrante: segundo a ONU, nos últimos cinco anos 3,4 milhões de pessoas fugiram do país, o que representa mais de dez por cento da população total da Venezuela.

Sublinhando que não há qualquer possibilidade de as pessoas poderem comprar os produtos básicos necessários, o sociólogo acrescenta que “há uma profunda crise na saúde”, que a “desnutrição infantil grave terá impacto a longo prazo no futuro do país” e que esta situação no seu conjunto cria um “elevado descontentamento e desespero na população”, o que predispõe as paessoas a aceitar qualquer saída.

“Uma invasão militar dos Estados Unidos e / ou uma guerra civil são hoje possibilidades reais. Muita gente está tão farta e tão desesperada que está disposta a aceitar basicamente qualquer coisa”, realça Edgardo Lander.

Risco de mais violência”

“O governo parece decidido a tentar manter-se no poder por qualquer meio” diz Lander sobre a atual situação no país, salientando que o governo mantém o apoio dos militares, sem “sinais de fragmentação, divisões ou dúvidas” visíveis, e que também tem algum apoio popular, apesar de menor, inclusive inferior ao de há um ano.

Sobre a política dos EUA face à Venezuela, o sociólogo refere que as sanções económicas estão a provocar uma “situação ainda mais catastrófica” e denuncia que a política do governo dos EUA é de um “cinismo extremo”, lembrando que por um lado estrangulam a economia, piorando a situação no país, “com um custo de dezenas de milhares de milhões de dólares”, e oferecem uma pretensa “ajuda humanitária” de uns poucos milhões de dólares.

“Estas duas forças opostas, o governo de Maduro com o apoio das forças armadas e a Assembleia Nacional com o apoio dos Estados Unidos, incluindo a ameaça de intervenção armada, estão a levar lentamentamente o país para a beira da guerra civil”, realça Edgardo Lander, sublinhando o risco de aumento da violência.

O sociólogo explica que Maduro pensa que não precisa de negociar porque tem o apoio do exército e a oposição presente na AN acha que a queda de Maduro é apenas uma questão de tempo, estas duas perspetivas em conjunto agravam o risco de uma espiral crescente de violência. Lembra a propósito que Guaidó declarou a 8 de fevereiro que pediria uma intervenção militar dos EUA e anunciou que “organizaria 'voluntários' para abrir um 'corredor humanitário'”.

“Todo o processo foi uma fraude. Não se pode ter eleições democráticas livres se o governo decide quando se convocam e decide que partidos e que candidatos podem participar e quais não”

Lander explica ainda que “a ala de extrema direita da oposição”, o que “envolve o governo dos EUA”, quer destruir completamente a experiência bolivariana. “O objetivo é dar uma lição ao movimento popular chavista: não se pode enfrentar o capitalismo nem tentar imaginar uma alternativa”, acusa o sociólogo.

Lander sublinha também que a oposição representada na AN, no seu conjunto, não estava informada dos plano de Guaidó, antes de 23 janeiro – quando se autoproclamou presidente.

“Poucos minutos depois, literalmente menos de dez minutos, depois da autodeclaração de Guaidó, houve uma declaração pública oficial emitida pelo governo de Trump que reconhecia Guiadó como o presidente legítimo da Venezuela. Assim, fica claro que tudo isto foi um guião altamente coordenado, escrito em estreita colaboração com o governo dos Estados Unidos”, denuncia Lander.

Sobre a legitimidade de Maduro ou de Guaidó, Lander contesta a justificação de Guaidó para se considerar “presidente” alegando que haveria um 'vazio de poder', o que nunca aconteceu e contesta também a legitimidade das eleições ganhas por Maduro.

“Todo o processo foi uma fraude. Não se pode ter eleições democráticas livres se o governo decide quando se convocam, independentemente do que dite a Constituição e a lei eleitoral, e além disso decide que partidos e que candidatos podem participar e quais não”, acusa o sociólogo sobre as eleições presidenciais de maio de 2018.

Lander acentua ainda que, desde a sua derrota nas eleições de dezembro de 2015, o governo tomou um caminho “cada vez mais anticonstitucional” e que desde o início de 2016, Maduro governa “por meio de sucessivos decretos do Estado de exceção e emergência económica”. “Atualmente, o estado de emergência encontra-se no seu terceiro ano”, acrescenta.

Crise socioambiental mais grave de toda a América Latina”

Edgardo Lander acusa também o governo de Maduro de ter usado o estado de emergência para decidir medidas com “graves consequências”, citando a propósito o decreto de criação do Arco Mineiro do Orinoco, “que abre mais de 120.000 quilómetros quadrados, 12% do território nacional, aproximadamente do tamanho de Cuba, a transnacionais e empresas mineiras”.

Salientando que a área do arco mineiro “inclui territórios de vários povos indígenas”, que “é a parte com maior biodiversidade do país, a fonte mais importante de água e hidroeletricidade”, o sociólogo afirma que em consequência deste decreto “agora há dezenas de milhares de mineiros que estão a provocar um processo acelerado de devastação socioambiental em grande escala”. “É provavelmente a crise socioambiental mais grave de toda a América Latina na atualidade”, frisa.

Termos relacionados Crise na Venezuela, Internacional
(...)