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Coronavírus: lembrando Ricardo Jorge e a peste bubónica

Oxalá que neste tempo de “Covid – 19” as autoridades sanitárias e os decisores políticos sejam tão perseverantes e competentes como o foi Ricardo Jorge com a Peste Bubónica. Por José Silva.
Ricardo Jorge – foto de insa.min-saude.pt/
Ricardo Jorge – foto de insa.min-saude.pt

O clínico higienista Ricardo Jorge, nascido em 1858, na atual rua Mártires da Liberdade, no Porto, foi, em 1891, nomeado médico municipal da cidade do Porto.

Quando no dia 4 de julho de 1899, Ricardo Jorge é alertado para um estranho falecimento ocorrido na rua Fonte Taurina, à Ribeira, e após uma visita pessoal ao local, fica-lhe a convicção de estar perante um “caso epidérmico de moléstia singular nova”.

Naquele tempo, as condições sanitárias e de salubridade da cidade do Porto, eram, como ele próprio diz num dos seus relatórios, as de uma “cidade cemiterial”.

A enorme quantidade de “ilhas” que proliferavam por toda a cidade: casinhotos, a um lado e a outro, escuros e húmidos e ao fundo uma retrete para todos; as casas da “malta” onde as pessoas, migrantes do interior para a cidade em busca de trabalho, dormiam aos montes numa mesma sala; o Barredo, a Sé, Miragaia infectas e tortuosas ruelas onde, em alguns lugares, nem sequer o sol lá entrava; as verdadeiras “colmeias humanas” naquelas casas grandes onde morava a burguesia que, entretanto mais rica com a revolução industrial, mudava para lugares mais chiques e logo essas casas se enchiam a rebentar pelas costuras de uma população empobrecida; a inexistência de esgotos, de saneamento, de água canalizada, de casas de banho…

Naturalmente, tudo isto contribuía de forma aflitiva para o contágio de todas as doenças.

Neste contexto, Ricardo Jorge, apesar de aparentemente aquela morte ter sido causada por “moléstias banais”, não tinha dúvidas, face ao espaço imundo onde o falecido dormia e face também aos sintomas já apresentados por outros carrejões que igualmente ali dormiam, que se tratava de uma epidemia que urgia, a todo o custo, isolar.

Desencadeia então acesa luta pela identificação da moléstia e contra a sua propagação disseminada já por vários pontos da cidade; igualmente, impunha-se, de imediato e a todo o custo, não deixar alastrar a pestilência para fora da cidade, para se não mergulhar o país numa catástrofe sanitária de gravidade incalculável.

Toma então uma decisão drástica: estabelece um cordão sanitário para a cidade.

Soldados em terra, navios no mar e ninguém entrava ou saía da cidade sem ser devidamente examinado e feita a desinfeção da respetiva bagagem. Mobiliza a comunidade médica, enfermeiros, funcionários municipais, bombeiros, e cria piquetes de trabalho de desinfeção, de extinção de ratos, de auxiliares de paramédicos, de funerária, para abrir as sepulturas e fazer os enterramentos, de piquetes de inumação, de higiene.

Sabia Ricardo Jorge que o foco, o primeiro caso aconteceu no nº 84 da rua Fonte Taurina. Impunha-se, pois, seguir-lhe incessantemente o rasto, reduzir-lhe a propagação, vencer o andaço.

No Hospital de Santo António foi criada uma “ala” de quarentena obrigatória para os infetados. E, assim, a pouco e pouco, num trabalho laborioso, cuidado, criterioso, passado algum tempo, a pandemia estava debelada.

Entretanto, o sequestro da cidade trouxe fatalmente consigo nefastas consequências. O cordão criou, quase de repente, uma crise económica e social que generalizou sentimentos de medo, de perda, de insatisfação, e o que era um cordão de prevenção sanitária da cidade, passou rapidamente a ser uma prisão ou coisa pior.

E pronto!

Em outubro de 1899, uma “multidão enfurecida, dementada”, instigada por grupos políticos, dirige-se para casa de Ricardo Jorge que, avisado a tempo, foge da cidade. Em Lisboa, Ricardo Jorge, fazendo-se jus aos seus altíssimos méritos, foi, em dezembro de 1899, nomeado Diretor Geral dos serviços sanitários do Reino.

A Directora-Geral da Saúde, é óbvio, não terá que fugir da cidade do Porto nem de lado nenhum; oxalá que neste tempo de “Covid – 19” as autoridades sanitárias e os decisores políticos sejam tão perseverantes e competentes como o foi Ricardo Jorge com a Peste Bubónica.

Artigo de José Silva, músico

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