Em mais um exemplo da diluição da agenda verde europeia, o Pacote Automóvel apresentado esta terça-feira pela Comissão concretizou o que muitos já esperavam: uma cedência aos apelos da indústria automóvel alemã, que detém grande influência no seio do conservadores alemães que dirigem o Partido Popular Europeu, abandonando o objetivo de acabar com a venda de veículos novos com motor de combustão em 2035. Essa redução passa a ser de 90%, justificada para dar à indústria “mais flexibilidade para atingir as metas de CO2”. Em contrapartida, a Comissão irá obrigar estes fabricantes que usam a quota dos restantes 10% a usar aço fabricado na UE com baixo teor de carbono, num esforço para apoiar a indústria siderúrgica a braços com a concorrência da sobreprodução chinesa.
Na realidade, este recuo permite às marcas dominantes na indústria automóvel europeia continuarem a aposta no fabrico dos veículos híbridos plug-in, vendidos como alternativa “verde” apesar dos estudos demonstrarem que no uso real em estrada têm emissões apenas 20% abaixo dos veículos a gasolina ou gasóleo.
Manfred Weber, o político da Baviera que lidera o PPE, aplaudiu a aprovação do pacote com o fim da meta de acabar com os veículos a combustão, dizendo que era uma proposta do seu grupo desde que a legislação foi anunciada há três anos.
União Europeia
Indústria automóvel quer despedir enquanto aumenta lucros
porLuís Branco
Mas nem todos na Alemanha estão de acordo. O diretor da Greenpeace alemã diz que este plano “é uma prenda de Natal antecipada para os fabricantes chineses de carros elétricos, que coloca em risco milhões de vidas e empregos europeus”. Para Martin Kaiser, a medida até pode trazer lucros a curto prazo para a indústria automóvel europeia, “mas não tem futuro a longo prazo” pois estas empresas irão “continuar a desperdiçar dinheiro e tecnologia a apostar numa tecnologia obsoleta como é o motor de combustão, enquanto o resto do mundo continua a avançar”.
Além da medida que prolonga a venda de veículos a combustão, a Comissão reduz também a meta de corte nas emissões nos veículos comerciais de 50% para 40% em 2030, promete ajudas aos fabricantes de baterias com uma linha de crédito sem juros de 1.500 milhões de euros e a criação de “supercréditos” para apoiar a comercialização de carros elétricos pequenos, além de abrir a porta aos incentivos de cada país à aquisição de viaturas elétricas até 4,2m de comprimento. Estas duas últimas medidas vêm ao encontro das exigências da França, que produz sobretudo carros pequenos, e da Alemanha, que não produz automóveis destes segmentos e por isso prefere que os apoios fiquem a cargo de cada país, ao mesmo tempo que vê os grandes SUV fabricados pela Mercedes e BMW - que pelo seu elevado peso consomem demasiado em 100% elétrico - abrangidos pelo prolongamento da venda dos híbridos plug-in para além de 2035.