Macron, o “presidente dos ricos” caído em desgraça

O ex-banqueiro de investimento surgiu na cena política francesa como o grande reformador que ia salvar a Europa. Ano e meio de presidência tornaram-no no chefe de Estado mais impopular de sempre em França.

22 de dezembro 2018 - 18:57
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Os sinais foram dados logo na apresentação do primeiro Orçamento do Estado do seu mandato: cortes nas prestações sociais, borlas fiscais para os ricos. Mas seria o ano que marca o cinquentenário do Maio de 68 a fazer regressar as barricadas ao centro de Paris, acompanhadas de bloqueios de estradas por toda a França. 

O primeiro aniversário da eleição de Macron foi assinalado com manifestações em várias cidades, com mais de 160 mil pessoas na de Paris. Já nessa altura era apelidado de “Presidente dos ricos” por, entre outras medidas, ter abolido o imposto sobre as fortunas enquanto aumentava a carga fiscal para a restante população. A agenda neoliberal de Emmanuel Macron passou pela aprovação relâmpago de medidas que aumentaram a desregulação nas leis laborais e pela proposta de abrir os caminhos de ferro à iniciativa privada. 

No palco europeu, as declarações grandiloquentes da campanha presidencial em que prometia promover convenções democráticas em todos os países para refundar a UE deram lugar à inação completa ante o crescimento do peso político dos ultraconservadores do Leste europeu, agora apoiados pela extrema-direita no poder em Itália.

No plano nacional, a decomposição do governo começou com a demissão do seu ministro para a Transição Ecológica, Nicolas Hulot e o escândalo à volta do  segurança pessoal do Presidente, apanhado a espancar manifestantes no 1º de Maio. E foi justamente uma medida justificada com a transição energética que despoletou a revolta por todo o país.

O anúncio da subida dos impostos sobre os combustíveis, com o argumento de reduzir as emissões de carbono, provocou uma reação massiva a partir das redes sociais, que rapidamente alastrou a toda a França e com reivindicações centradas no combate às desigualdades.

A partir de novembro e durante várias semanas, milhares de pessoas envergando coletes amarelos bloquearam estradas e manifestaram-se no centro da capital para exigir a demissão do “presidente dos ricos” e o aumento de salários e pensões para enfrentar o aumento do custo de vida.

Acossado pela a dimensão dos protestos em França e a violência dos protestos em Paris, o governo anunciou uma moratória à subida das taxas sobre os combustíveis. “Migalhas”, responderam os coletes amarelos, que prosseguiram com mais força os protestos.

O recuo de Macron aconteceu dias depois, com o anúncio de uma subida de 100 euros no salário mínimo (que na verdade é um financiamento do Estado às empresas naquele valor) e a suspensão da planeada taxa acrescida sobre os combustíveis, para além de outras medidas fiscais. Derrotado nas ruas de França e com um derrota eleitoral à vista nas eleições europeias, o mandato de Emmanuel Macron irá passar por mais dificuldades em 2019.

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