Existe um risco real de que a palavra "Dammbruch" ["rebentamento de barragem"] seja já usada para descrever a AfD (Alternative für Deutschland) na Alemanha de Leste. A vitória - a 25 de junho, com 52,8% dos votos contra um candidato da CDU - de Robert Sesselmann na segunda volta das eleições para o cargo de governador (Landrat) do distrito de Sonneberg [na região da Turíngia] apenas vem confirmar o que tinha sido evitado à justa nos distritos de Oder/Spree [a 14 de maio] e nas eleições para presidente da câmara de Schwerin, capital do Land de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental [18 de junho]: que um político da AfD tenha acesso a, pelo menos, uma parte do poder executivo através das eleições. A questão das últimas semanas não era se, mas quando é que isso iria acontecer. Agora aconteceu. É a primeira vez que um partido de extrema-direita ocupa o cargo de Landrat na República Federal. Quais são as consequências?
Um Landrat não é um imperador nem um chanceler federal. Os seus poderes são limitados. Tem de aplicar o direito federal e regional. No entanto, a sua influência nas questões de política social num Landkreis (distrito) não é insignificante. Há, de facto, margem de manobra quando se trata de definir orientações políticas no tratamento dos refugiados, na política de igualdade de oportunidades, na promoção do conteúdo da cultura e do trabalho com jovens ou nas formas de representação pública do Landkreis. Em todos estes domínios, o recém-eleito Landrat da AfD, Robert Sesselmann, pode dar exemplos das posições de extrema-direita da AfD. Não deixou dúvidas de que o faria, tal como o líder do grupo parlamentar da AfD no Landtag (parlamento) da Turíngia, Björn Höcke.
Na sua estratégia de comunicação, a AfD vai agora fazer tudo o que estiver ao seu alcance para tornar o resultado de Sonneberg mais do que realmente é. O valor simbólico deste sucesso é, pelo menos, tão importante para o partido como o próprio resultado eleitoral. Do ponto de vista da AfD, Sonneberg representa a primeira pedra de um dominó azul [cor da AfD] que deve agora ser posto em marcha nas regiões onde ainda estão previstas eleições parciais com a participação da AfD este ano. Se as coisas correrem como o partido quer, isto será o prelúdio do que os outros partidos e a sociedade civil democrática terão de temer no próximo ano, nas eleições regionais de Brandeburgo, Saxónia e Turíngia.
A AfD é politicamente difícil de contrariar, rodeando-se de um sistema comunicacional de media alternativos e de ofertas de redes de comunicação que, através do Telegram e do Instagram, já não concorrem apenas com os noticiários televisivos e os jornais locais para alguns, mas substituíram-nos como principal fonte de informação para formar uma opinião. Além disso, a AfD trabalha com termos políticos que apelam à sensibilidade político-emocional de uma parte da população e à sua consciência da crise.
O facto de o sucesso da AfD não ser uma lei da natureza pode ser ilustrado pelo exemplo da crise da Covid. As expectativas da direção do partido e de alguns estrategas do seu entourage, na altura, de tirar partido das críticas à política oficial relativa à Covid, não se concretizaram. Até porque ao AfD atuou de forma incoerente do ponto de vista político. Da mesma forma, o chamado "outono quente da raiva" [mobilização em torno do aumento dos preços da energia e também da política em relação à Rússia] planeado politicamente pela AfD desvaneceu-se, sem que o partido tenha beneficiado de forma duradoura.
A razão do sucesso da AfD
No que diz respeito ao eleitorado da AfD, é indispensável um rigor analítico. Na Alemanha de Leste, o partido dispõe de um potencial de eleitores regulares mobilizáveis de forma fiável, que a AfD bombardeia com sucesso há anos com campanhas de raiva e indignação que remetem para os padrões habituais de orientação da direita e do autoritarismo. O meio muito heterogéneo dos abstencionistas, do qual a AfD conseguiu sacar alguns votos na segunda volta das eleições em Sonneberg, também se revela uma surpreendente aposta segura. Muitas vezes, estes eleitores não se enquadram num sistema de referência política. Mas seguem culturalmente os modelos de atitude difundidos pela direita. O facto de o AfD colorir com uma dimensão etnocultural a experiência de alienação social e económica é uma das razões pelas quais este partido consegue chegar aos abstencionistas. Não é apropriado absolver os eleitores da AfD da responsabilidade de votarem num partido de extrema-direita, ou denegrir em bloco o eleitorado de regiões inteiras, como foi feito nas redes sociais após as eleições no distrito de Sonneberg.
As preocupações políticas atuais com os eleitores da AfD e a sua origem não devem fazer-nos perder de vista aqueles que não votam na AfD por razões muito boas. Pessoas que pertencem a minorias, que são vítimas de racismo, discriminação e subtil exclusão social na Alemanha de Leste, porque não se enquadram nas ideias de homogeneidade difundidas pela direita, porque se desviam de alguma forma das categorias de pertença, mesmo que seja por serem habitualmente consideradas "Wessis" [termo que se refere aos "valores" e "comportamentos" dos alemães ocidentais]. Para todas estas pessoas, o avanço da AfD representa não só um problema, mas também um perigo potencial. As associações, as iniciativas e os indivíduos que, nas regiões, se opõem à viragem à direita e se recusam a resignar-se à discriminação e ao racismo, precisam de mais do que elogios pelo seu empenhamento, muitas vezes voluntário e, em muitos casos, infelizmente não isento de riscos. Precisam de apoio prático. Quanto mais forte a AfD se tornar, mais apoio precisarão.
Não será fácil encontrar um remédio mágico contra a AfD. O início de um confronto profícuo dar-se-ia pela constatação de que a AfD acaba por sair reforçada quando os partidos e a sociedade permitem permanentemente que a retórica de direita determine a sua agenda política. Durante a campanha eleitoral, Robert Sesselmann não quis claramente falar de piscinas, refeições escolares, proximidade das autoridades ou transportes públicos no distrito de Sonneberg. Em vez disso, dedicou a sua campanha a questões sobre cuja organização política não tem qualquer influência e que, por isso, são decididas em Erfurt, a capital do Estado, em Berlim ou em Bruxelas, mas que tiveram eco junto de muitos eleitores. A repolitização democrática da política local e regional contra a tendência para uma política de simplificação carregada de ressentimentos é uma tarefa difícil em regiões onde nada menos do que o nosso futuro democrático está em jogo nos próximos anos.
David Begrich é teólogo e membro do gabinete de extrema-direita da Miteinander ("Trabalhar juntos") em Magdeburgo. Artigo publicado no site da Der Freitag, 26 de junho de 2023; traduzido e republicado por A l'Encontre. Tradução de Luís Branco para o Esquerda.net.