Serviços secretos alemães consideram juventude da AfD ameaça à democracia

28 de abril 2023 - 23:01

A juventude da Alternativa para a Alemanha, partido parceiro do Chega naquele país, é acusada de disseminar o ódio contra imigrantes e refugiados, de defender um Estado etnonacional e de estar a radicalizar pondo em causa a democracia.

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Cartaz anti-AfD. Foto de Rasande Tyskar/Flickr.
Cartaz anti-AfD. Foto de Rasande Tyskar/Flickr.

A juventude da Alternativa para a Alemanha, AfD, foi considerada esta quarta-feira como uma entidade extremista que ameaça a democracia pelo Gabinete Federal para a Proteção da Constituição, a entidade responsável pelos serviços secretos domésticos alemães.

Ao mesmo tempo, outras duas entidades, o Instituto para uma Política de Estado e o “Um por cento” também foram classificadas da mesma forma.

Numa declaração oficial, a ministra do Interior, Nancy Faeser justificou que a medida, que se segue a uma monitorização próxima de quatro anos, pelo facto de os “atores da chamada “nova direita” apenas espalharem ódio e discriminação contra aqueles que pensam de forma diferente, os refugiados e as pessoas provenientes de migrações”. Acrescentou ainda que “estamos a fazer tudo para secar o solo fértil para a violência da extrema-direita”.

Os “Jovens Alternativos” são acusados de promover ódio contra refugiados e migrantes, uma visão etno-nacionalista que exclui as pessoas não-brancas alemãs e que tem como alvo principal os muçulmanos que tentam associar à criminalidade, de promover ideias como a que “os alemães estão agora no fundo da hierarquia das vítimas da nossa sociedade” como escreviam no Facebook em março do ano passado e de que os migrantes não europeus não se poderiam integrar na sociedade alemã. As autoridades alemãs notam sinais de um aumento da radicalização e acreditam que a organização não “só” espalha racismo nas redes como ativamente tenta pôr em causa a democracia.

A AfD

O próprio partido AfD, que tem tido sondagens na ordem dos 15-17%, não será afetado por esta classificação. Isto apesar de também estar classificado pelo Departamento Federal para a Proteção da Constituição como “caso de suspeita de extremismo de direita”, um nível inferior de vigilância, e de uma sua ala, o Der Flügel, também já ter recebido desde 2020 a mesma classificação agora dada à juventude da AfD.

Fundado em 2013, como um partido liberal que explorava a chamada crise das dívidas soberanas na zona euro para promover a ideia do fim da moeda única e de que a Alemanha não deveria participar nos “resgates” das economias periféricas europeias, acabou por se tornar porto de abrigo de vários grupos de extrema-direita.

A partir de 2015, mantém o seu ultra-liberalismo económico mas o seu discurso anti-imigração sobe de tom contra o acolhimento de refugiados, nomeadamente os que fugiam da guerra na Síria, acusando Merkel de abrir as portas do país. Depois disso, manteve um discurso negacionista da crise climática, teve ligações com movimentos negacionistas da pandemia de Covid-19 e opôs-se aos confinamentos.

O partido tem-se dividido, como boa parte da extrema-direita, sobre o apoio ao regime de Putin. Apesar de uma posição oficial anti-invasão da Ucrânia, vários dirigentes falam em sentido contrário. E para além de ser contra sanções, a AfD também exige que sejam feitas “propostas credíveis ao parceiros russos que fortaleçam de novo a confiança mútua”.

As viagens de dirigentes seus à Rússia também não passam desapercebidas. Em 2017, a então líder Frauke Petry visitou o país para fomentar laços com a extrema-direita russa e depois disso parlamentares da AfD foram à Rússia em defesa da “normalização” das relações entre Rússia e Alemanha, depois das sanções impostas na sequência do envenenamento do opositor russo Navalny. Em setembro do ano passado, uma delegação de dirigentes do partido visitou a zona leste da Ucrânia ocupada pela Rússia.

No mesmo mês, a sua sede nacional foi alvo de buscas numa investigação lançada pelo Ministério Público de Berlim. Entre 2016 e 2018, o partido terá enviado falsas declarações financeiras ao Parlamento. Já em 2018 fora obrigado a devolver mais de cem mil euros em donativos ilegais.

Atualmente terá cerca de 80 mil membros, mais de 80% do sexo masculino, contando com 83 deputados (em 736) no parlamento federal alemão.

A AfD e Portugal

A AfD mantém ligações com o partido de extrema-direita português “Chega”. O presidente daquela organização, Tino Chrupalla, é um dos participantes da conferência internacional de movimentos de extrema-direita recentemente anunciada pelo Chega e onde estarão também o ex-presidente brasileiro Bolsonaro e a primeira-ministra italiana do partido neofascista “Irmãos de Itália”.

Para além disso, os dois partidos pertencem ao mesmo grupo político europeu, o “Identidade e Democracia” que junta ainda organizações como a italiana Liga de Salvini, a francesa União Nacional, tradicionalmente liderada pela família Le Pen ou o flamengo Vlaams Belang.

A AfD foi uma das forças políticas de extrema-direita convidadas para o último congresso do Chega e antes disso, em novembro passado, o líder do Chega fez-se fotografar com o eurodeputado da AfD Gunnar Beck, juntando à publicação que “estamos a lutar por uma Europa diferente!”