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Putin, o czar da extrema direita russa e europeia

Os principais aliados políticos de Vladimir Putin na Europa são partidos da extrema-direita. Por entre acordos de cooperação com o partido Rússia Unida e denúncias de financiamento ilegal a partir de Moscovo, as formações lideradas por Salvini, Marine Le Pen e Viktor Orbán integram a órbita europeia do chefe do Kremlin.
Marine Le Pen e outros dirigentes da extrema-direita europeia, incluindo André Ventura, num encontro em Bruxelas.

No fim de janeiro, o líder da extrema-direita espanhola foi o anfitrião de um encontro de partidos europeus deste campo político. O propósito anunciado era prosseguir a "reflexão sobre o futuro da Europa", mas o objetivo concreto passa por criar um novo grupo no Parlamento Europeu que aumente o seu poder em Bruxelas, dado que os 14 partidos presentes se dividem hoje por três grupos parlamentares em Estrasburgo. Um objetivo para já frustrado, com a crise na Ucrânia em fundo a sublinhar as divisões no seio da extrema-direita europeia.

Relações com o Kremlin são obstáculo a um grupo comum da extrema-direita em Estrasburgo

Poucos dias depois, dois dos participantes neste encontro em Madrid foram recebidos em capitais diferentes: o primeiro-ministro polaco Mateusz Morawiecki em Kiev para sublinhar o seu apoio incondicional ao governo da Ucrânia, enquanto o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán se encontrava com Putin no Kremlin para reforçar laços de cooperação entre os dois países.

Conhecida a divisão profunda entre os principais protagonistas, o comunicado final do encontro dos partidos da extrema-direita europeia continha um parágrafo a responsabilizar as ações militares russas por "nos terem conduzido à beira da guerra", mas a líder da antiga Frente Nacional francesa, Marine Le Pen, demarcou-se desta referência, alegando não querer interferir com as negociações diretas entre Macron e Putin para evitar o conflito armado com a Ucrânia. Após o início dos bombardeamentos, a candidata presidencial afirmou que a ação militar russa deve ser condenada "sem ambiguidades". As ligações do Kremlin ao partido de Le Pen são antigas e incluem o financiamento de um banco russo que o ajudou a salvar-se da bancarrota em 2014.

Quanto ao anfitrião, Santiago Abascal, o silêncio e a ambiguidade sobre a Ucrânia tem sido a imagem de marca, o que lhe valeu críticas do agora líder cessante do PP num debate parlamentar nas vésperas desta cimeira da extrema-direita. "Até agora não se ouviu o Vox a opinar sobre este assunto", disparou Casado no debate parlamentar em que declarou apoio à posição do governo espanhol, alinhada com a Nato.

Salvini não esconde a admiração por Putin (até nas t-shirts)

Ausente destes encontros, que incluem também os seus rivais dos Irmãos de Itália, esteve um dos apoiantes mais notórios de Vladimir Putin na cena política europeia: Matteo Salvini, o líder da Liga, que até já se fez fotografar na Praça Vermelha envergando uma t-shirt com uma imagem de Putin fardado e voltou a fazê-lo com uma t-shirt semelhante, desta vez no Parlamento Europeu em 2015, para ilustrar a sua oposição as sanções então impostas pela UE a Moscovo.

 Matteo Salvini, líder da Liga italiana, fez-se fotografar na Praça Vermelha vestindo uma t-shirt com a foto do seu ídolo.

Além de um acordo de cooperação assinado em 2017 entre a Liga e a Rússia Unida de Putin, as ligações da Liga a Moscovo terão passado também pelo financiamento ao partido de Salvini. Segundo uma investigação publicada no "Livro Negro da Liga", um antigo porta-voz do partido, Gianluca Savoini, participou em reuniões com representantes das petrolíferas Eni e Rosneft em outubro de 2018 para discutir um negócio em que a empresa italiana compraria três milhões de toneladas de gasóleo à congénere russa, mas com um desconto de 4%, com a diferença — estimada em quase 3 milhões de euros — a ser depositada em contas da Liga em prestações de 220 mil euros por mês para financiar a próxima campanha das eleições europeias. Esta quinta-feira, em reação ao ataque da Rússia, Salvini afirmou condenar "qualquer agressão militar" e esperar "o fim imediato da violência", sem nunca referir a Rússia ou o seu líder.

Na Alemanha, dirigentes da AfD são passageiros frequentes para Moscovo

Na Alemanha, é bem conhecida a simpatia do principal partido da extrema-direita, a AfD, pelo regime russo. Em 2017, antes de o partido ter assento no parlamento federal, a líder do partido, Frauke Petry, foi a Moscovo a convite de autoridades locais para encontros com políticos como o ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky ou o presidente da câmara baixa da Duma Vyacheslav Volodin. O objetivo era discutir formas de cooperação entre os partidos e as suas organizações de juventude, com um porta-voz da AfD a negar que o apoio financeiro tenha estado em cima da mesa. No ano passado, parlamentares da AfD voltaram a Moscovo para defender a “normalização” das relações entre França e Alemanha, depois das sanções impostas na sequência do envenenamento do opositor russo Navalny. O apoio mais ou menos explícito ao partido alemão por parte da imprensa estatal russa, a par das campanhas nas redes sociais a partir de contas na Rússia, dão mais credibilidade a um documento atribuído aos serviços de contra-espionagem de Moscovo que afirmava que em caso da eleição do deputado Markus Frohnmaier, “teremos o nosso deputado absolutamente sob controlo no Bundestag”.

Na reação aos bombardeamentos esta quinta-feira, a condenação do ataque militar por parte da AfD foi acompanhada da exigência ao Governo alemão que nas negociações “passem a ser feitas propostas credíveis aos parceiros russos que fortaleçam de novo a confiança mútua”.

Negócios da extrema-direita com o Kremlin já fizeram cair um governo na Áustria

A influência de Putin sobre a extrema-direita europeia passa também pela Áustria e culminou na queda do governo em 2019. O líder do FPO, pouco antes das eleições de 2017 em que se viria a tornar vice-chanceler, foi apanhado em Ibiza a oferecer ajuda para uma suposta sobrinha de um oligarca russo obter contratos públicos e a discutir formas de o milionário vir a adquirir o tablóide líder de audiências no país e assim garantir uma cobertura mais favorável ao seu partido. Mas a "sobrinha" era afinal uma jornalista e as gravações vieram a público no escândalo que ficou conhecido como "Ibizagate". A investigação que se seguiu levou à condenação de Heinz-Christian Strache por corrupção no ano passado. As ligações do FPO ao partido de Putin eram públicas e passaram em 2016 pela assinatura de um acordo de cooperação a dez anos com o partido Rússia Unida. O partido apoiou a anexação da Crimeia - o nº 2 de Strache, Johan Gudenus, que aparece a traduzir do russo no vídeo de Ibiza, tinha sido enviado como "observador" ao referendo de 2014 que validou a anexação - e a campanha militar na Geórgia em 2008. E a ministra dos Negócios Estrangeiros do governo que caiu em 2019, Karin Kneissl, teve a oportunidade de dançar com Vladimir Putin enquanto convidado do seu casamento em 2018. Com a queda do governo, tornou-se blogger do Russia Today e no ano passado foi nomeada para o conselho de supervisão da petrolífera estatal russa Rosneft.

Em reação ao ataque russo à Ucrânia, o FPO insistiu na sua oposição às sanções à Rússia e acusou o governo de estar a violar o dever constitucional de neutralidade da Áustria ao tomar posição contra uma das partes do conflito.

"Observadores internacionais" na Crimeia a convite de Putin

O elenco de "observadores internacionais" no referendo organizado por Moscovo na Crimeia em 2014 é um bom exemplo da lista de aliados de Putin na extrema-direita da Europa. Além do FPO austríaco, marcaram presença enviados da Frente nacional francesa, a Liga Norte e a Fiamma Tricolore italianas, o Jobbik húngaro, o Vlaams Belang e o Partido Comunitário Nacional-Europeu belgas, a Autodefesa da República da Polónia ou a Plataforma Per Catalunya, que entretanto se juntou ao Vox espanhol.

No ano seguinte, em São Petersburgo, realizou-se o "Fórum Internacional Conservador Russo", organizado pelo partido Rodina, uma das organizações na órbita do Kremlin. Entre os oradores estiveram Nick Griffin, o antigo líder do BNP britânico, e Udo Voigt do NPD alemão. A Aurora Dourada grega, a Ataka búlgara e outros partidos da extrema-direita da Sérvia, Itália e Suécia também marcaram presença.

política: 
Ucrânia
(...)

Neste dossier:

Guerra na Ucrânia

A agressão militar desencadeada por Putin foi o passo mais recente de um conflito antigo. Reunimos aqui artigos de análise da situação e a perspetiva da esquerda russa e ucraniana. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Steve Bannon, uma das figuras mais influentes da extrema-direita norte-americana. Foto de Gage Skidmore/Flickr.

Ucrânia: a extrema-direita americana escolheu Putin

Na Europa, a extrema-direita dividia-se tradicionalmente entre o apoio aos seus congéneres ucranianos e o apoio ao regime de Putin. A força do dinheiro desempatava no caso de grandes partidos como os de Le Pen e de Salvini. Nos EUA, depois da invasão a balança passou a pender mais claramente para a admiração pelo presidente russo.

Manifestantes do grupo de esquerda "Movimento Social" manifestam-se contra a guerra. Foto do Facebook desta organização.

Uma carta à esquerda ocidental a partir de Kiev

Com a capital ucraniana a ser bombardeada, o historiador de esquerda Taras Bilous decidiu escrever uma carta à esquerda que “exagera a influência da extrema-direita na Ucrânia mas não presta atenção à extrema-direita nas “Repúblicas Populares” e evitar criticar as políticas conservadoras, nacionalistas e autoritárias de Putin”.

Manifestação de apoiantes do Azov em 2019 em Kiev. Foto de Goo3/Wikimedia Commons.

Os dois rostos da extrema-direita ucraniana

A propaganda de Putin mostra a Ucrânia como um estado fascista. A ocidente a extrema-direita ucraniana costuma ser negligenciada. Adrien Nonjon faz aqui o retrato realista de um fenómeno que apesar de continuar a ser “marginal”, tenta ser “o novo ponto de convergência e de partida para uma revolução nacional pan-europeia”.

Putin foto de Antonio Marín Segovia/Flickr.

A guerra de Putin na Ucrânia: nas pegadas de Saddam Hussein

Há um paralelo impressionante entre o comportamento de Vladimir Putin na Ucrânia e o comportamento de Saddam Hussein no passado. Os dois homens recorreram à força, acompanhados de reivindicações notavelmente semelhantes, para alcançar ambições expansionistas. Por Gilbert Achcar.

Barricada dos independentistas em Luhanksem 2014. Foto de Qypchak/Wikimedia Commons.

“Há sentimentos muito contraditórios na população de Donbass”

O investigador Gerard Toal tem feito inquéritos às populações do sudeste da Ucrânia e em Donbass em particular. Defende que a identidade desta região não é etno-nacionalista mas marcada sobretudo pelo orgulho na sua potência industrial da era soviética. E fala ainda das raízes do conflito e da agenda do governo de Putin.

Putin, o czar da extrema direita russa e europeia

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Bloco condena "agressão imperialista da Rússia" e defende "Ucrânia integral e neutral"

A Comissão Política do Bloco de Esquerda defende que Portugal deve "condenar a aventura militar de Putin e demarcar-se dos posicionamentos de apoio aos EUA e à expansão da NATO". Leia aqui o comunicado.

Banco Nacional da Ucrânia. Foto de Max/Wikimedia Commons.

A Ucrânia e o Império do Capital

A transição voraz do país para uma economia de mercado dirigida pelo bloco cleptocrático dominante tornou a Ucrânia numa vítima do implacável crescimento do império do capital vulnerável à colisão entre os imperialismos capitalistas russo e ocidental. Por Yuliya Yurchenko.

Manifestantes do Movimento Socialista Russo em 12 de fevereiro. Foto do Facebook do grupo.

Movimento Socialista Russo toma posição contra “imperialismo russo”

Putin culpou Lenine pela existência da Ucrânia e ameaçou mostrar a Kiev “o que significa descomunização”. O MSR apela à retirada imediata de tropas russas e ao direito dos cidadãos ucranianos a decidir o destino do seu país "sem os imperialistas do ocidente ou do oriente".

Jardim de infância bombardeado esta quinta-feira. Foto de EPA/JOINT FORCES OPERATION PRESS SERVICE/Lusa.

Perguntas e respostas sobre a guerra que estava esquecida em Donbass

A atenção mediática mundial virou-se para o bombardeamento de um jardim de infância no leste da Ucrânia. Mas a região está em guerra há oito anos. Alberto Sicilia esclarece o que está em disputa neste conflito.

Manifestantes na praça Maidan a atirar cocktails molotov. Foto de Mstyslav Chernov/Wikimedia Commons.

Como uma insurreição de extrema-direita apoiada pelos EUA nos trouxe à beira da guerra

Em 2014, as disputas dos poderosos, a ira justa contra um status quo corrupto e oportunistas de extrema-direita derrubaram o governo ucraniano. A crise de hoje não pode ser compreendida sem entender as revoltas de Maidan – e o apoio de Washington. Por Branko Marcetic.

Praça Maidan em Kiev que se tornou o centro da revolta de 2014.

“Alemanha é o alvo principal da campanha mediática da invasão iminente”

Nesta entrevista, o sociólogo ucraniano Volodymyr Ishchenko explica as origens da atual crise e as ficções que se construíram acerca dela.

Biden passa revista a militares recém-formados. Foto de West Point/Flickr.

Chomsky: Abordagem dos EUA à Ucrânia e Rússia “deixou de ser racional”

Nesta entrevista ao Truthout, o intelectual norte-americano analisa as contradições dos EUA sobre “esferas de influência” e sobre “respeito à soberania” dos países, ao mesmo tempo que recorda a história do alargamento da Nato a Leste.

Destruição causada pela guerra em Sloviansk. Foto de Wojciech Zmudzinski/Flickr.

A “segurança coletiva” e o conflito na Ucrânia

O princípio da soberania absoluta de segurança e militar da Ucrânia tornou-se numa desculpa para manter a funcionalidade da NATO e colocá-la no seu contexto regional europeu sob a hegemonia dos EUA, após o seu fracasso no Afeganistão. Artigo de Gustavo Buster.

Restos de material de guerra do conflito em Debaltseve. Foto Unicef Ucrânia.

A Ucrânia, segundo o Kremlin

Ainda que seja inegável que há um confronto geo-estratégico entre NATO e Rússia, quem olhe para este conflito a partir da esquerda não deve fazer um duplo mortal com pirueta e acabar a apoiar o reacionário e contra-revolucionário Putin, cujas políticas fariam as delícias dos militantes do VOX. Por Miguel Vázquez Liñán.

Tanque T-90-S russo. Foto de Dmitry Terekhov/Flickr.

Ucrânia: Crise entre a Rússia e o ocidente tem estado na incubadora há 30 anos

Por um lado, a Rússia pretende opor-se à expansão da NATO para leste. Por outro, esta teme que a acumulação de meios militares na Bielorrússia e na fronteira com a Ucrânia possa ser o prenúncio de uma invasão deste país. Tensões que vêm desde a dissolução da União Soviética. Por Liana Semchuk.