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Uma viagem pelo mundo em 2020 (3): a Europa do sul

A Europa meridional começou a recuperar da crise económica que a atingiu no início da década. Esta foi agravada, em alguns países, pelas desastrosas intervenções da “troika”, que lhes impôs uma austeridade draconiana. Por Jorge Martins
Em Espanha, PSOE e UP firmaram um acordo de governo progressista, Pedro Sánchez e Pablo Iglesias cumprimentaram-se no debate de investidura do governo espanhol, janeiro de 2020. Foto de Juan Carlos Hidalgo, Lusa/ Epa.
Em Espanha, PSOE e UP firmaram um acordo de governo progressista, Pedro Sánchez e Pablo Iglesias cumprimentaram-se no debate de investidura do governo espanhol, janeiro de 2020. Foto de Juan Carlos Hidalgo, Lusa/ Epa.

Alguma recuperação económica, mas crescimento do populismo

A Europa meridional começou a recuperar da crise económica que a atingiu no início da década. Esta foi agravada, em alguns países, pelas desastrosas intervenções da “troika”, que lhes impôs uma austeridade draconiana, com o consequente empobrecimento dos respetivos países e povos. Os Estados da região membros da UE experimentam alguma recuperação económica, mas a verdade é que se mantém algum mal-estar social, de que o crescimento das forças populistas e da extrema-direita é sintoma.

Portugal saiu razoavelmente bem do pesadelo austeritário, muito devido aos inéditos acordos entre o PS e a esquerda

Nesta região, Portugal saiu razoavelmente bem do pesadelo austeritário, muito devido aos inéditos acordos entre o PS e a esquerda (Bloco de Esquerda, PCP e PEV), numa solução popularmente conhecida por “geringonça”, que reverteu uma parte importante da austeridade e permitiu aos portugueses a recuperação de alguns rendimentos perdidos durante a crise. Contudo, a obsessão pela obediência às “regras” da UE condicionou a ação do governo, que se mostrou incapaz de satisfazer as legítimas expectativas de vários setores da população, originado um maior aumento da conflitualidade social na parte final do seu mandato.

Como se esperava, o PS venceu as eleições legislativas de outubro, mas longe da mirífica maioria absoluta que desejava, enquanto a direita (PSD e CDS), completamente à deriva, sofreu uma copiosa derrota. Por sua vez, a esquerda não viu reconhecidos nas urnas os seus contributos para a reversão de várias medidas austeritárias e para novos avanços no capítulo social: o Bloco de Esquerda, apesar de manter intacta a dimensão do seu grupo parlamentar, perdeu alguns votos, enquanto o PCP teve o seu pior resultado de sempre em eleições legislativas. Quem experimentou um reforço foi o ecologista e animalista PAN, beneficiando da crescente preocupação com as alterações climáticas, em especial entre os mais jovens, enquanto a expectativa da entrada de novas forças políticas na Assembleia da República se confirmou: Livre (esquerda moderada), IL (direita liberal) e Chega (extrema-direita populista) elegeram, cada qual, um deputado. Com a chegada deste último, o país deixou de ser um dos poucos na Europa onde a extrema-direita não tem representação no Parlamento. Entretanto, os socialistas, reforçados, descartaram a possibilidade de assinar novos acordos à esquerda, optando pelo regresso à política de apoios pontuais que caracterizou as suas governações anteriores. Contudo, já no início do ano, o orçamento foi aprovado, na generalidade, graças à abstenção da esquerda parlamentar.

Em Espanha, PSOE e UP firmaram um acordo de governo progressista. Trata-se do primeiro executivo de coligação no país na vigência da Constituição de 1978

De Espanha vêm, para já, “bons ventos”, mas a instabilidade política continua. Após o “chumbo” do orçamento pelos independentistas catalães e bascos, o socialista Pedro Sánchez foi obrigado a demitir-se, tendo sido convocadas eleições gerais para abril. Estas ficaram marcadas pelo triunfo dos socialistas do PSOE (mas com menos de 30% dos votos), por uma derrota história do conservador PP, pelo grande crescimento dos Cs (centro-direita), pela queda da Unidas Podemos (esquerda), pela emergência do Vox (extrema-direita), que ultrapassou os 10%, e pela subida das forças independentistas. Contudo, dadas as divergências entre PSOE e UP e a intransigência dos Cs em pactuar com os socialistas, não lograram produzir um governo, pelo que novas eleições foram marcadas para novembro. Entretanto, em outubro, deu-se a condenação a pesadas penas de prisão dos dirigentes independentistas catalães detidos, o que levou a uma escalada do conflito na Catalunha. Este acabou por ser o principal tema da campanha eleitoral, o que veio a refletir-se nos resultados eleitorais: o PSOE venceu, mas viu a sua maioria reduzir-se um pouco, o PP recuperou (mas continua pouco acima dos 20%), a UP continuou a descida, embora menos acentuada, e os Cs afundaram-se. Por seu turno, a maioria das forças independentistas e regionalistas voltou a crescer. Porém, o grande vencedor acabou por ser o Vox, que alcançou mais de 15% dos sufrágios.

Face ao crescimento da extrema-direita e aproveitando o facto de o conjunto da direita espanholista continuar em minoria no Congresso, PSOE e UP firmaram um acordo de governo progressista, que propõe medidas mais avançadas que as da “geringonça” portuguesa. Trata-se do primeiro executivo de coligação no país na vigência da Constituição de 1978. Para tornar possível a investidura do socialista Pedro Sánchez como primeiro-ministro, necessitaram de garantir a abstenção das principais formações da esquerda independentista catalã e basca (ERC e EH Bildu, respetivamente) e o apoio da galega (BNG). Em troca, reconheceram a natureza política do conflito na Catalunha e aceitaram criar uma mesa de diálogo com os dirigentes da ERC, que, para já, abdicaram da via unilateral para a independência. Para além disso, tiveram, igualmente, os apoios decisivos do PNV basco (nacionalista moderado, de centro-direita), da NCa (regionalista canária de centro-esquerda) e do pequeno movimento independente de Teruel. Mas, atenção, que a maioria parlamentar é escassa e heteróclita e, dadas as fortes resistências de uma direita espanholista cada vez mais reacionária e raivosa e a pressão dos setores mais radicais do independentismo, não será fácil encontrar uma solução satisfatória para o conflito catalão, que terá de passar, em princípio, por uma amnistia ou um indulto aos dirigentes independentistas presos e exilados. Por isso, não é de excluir nova crise política no curto prazo.

a Itália mantém-se como a “doente” da Europa. Com uma economia que pouco cresce após a adesão ao euro, uma grande dívida externa e níveis de corrupção ímpares

Por sua vez, a Itália mantém-se como a “doente” da Europa. Com uma economia que pouco cresce após a adesão ao euro, uma grande dívida externa e níveis de corrupção ímpares entre os países que entraram na UE antes do seu alargamento à Europa Central e de Leste, viu-se ainda a braços com a chegada de inúmeros refugiados, na sua maioria em trânsito para a Alemanha e outros países mais ricos do norte da Europa. Os populistas do Movimento 5 Estrelas (M5S), vencedores das eleições de 2018, coligaram-se com a Lega, formação da extrema-direita, e o líder “liguista”, Matteo Salvini, nomeado ministro do Interior, rapidamente se tornou o “homem forte” do governo. Adotando uma política de linha dura, caracterizada pela não aceitação do acolhimento de mais refugiados e criminalizando aqueles que os salvavam do afogamento no Mediterrâneo, tornou-se o “homem forte” do governo. Ganhou popularidade e, sem surpresa, o seu partido venceu as europeias. Esperando aproveitar o embalo, forçou a queda do governo, provocando uma crise política, que, pensou, levaria a eleições antecipadas. Porém, “saiu-lhe o tiro pela culatra” e o M5S entendeu-se com o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, para formar um novo governo, novamente dirigido pelo independente Giuseppe Conte, assente numa nova coligação, da qual fazem parte, além daquelas duas forças políticas, a Itália Viva (IV) do ex-primeiro-ministro Renzi e algumas formações que integraram a lista Livres e Iguais (LeU), da esquerda moderada. Contudo, Salvini continua a ser o político mais popular do país e a direita continua à frente nas sondagens.

Na Grécia, a desilusão popular com o Syriza, após a capitulação de Tsipras face à chantagem da UE, levou a uma esperada derrota do partido nas eleições de julho

Na Grécia, a desilusão popular com o Syriza, após a capitulação de Tsipras face à chantagem da UE, levou a uma esperada derrota do partido nas eleições de julho. Graças ao bónus maioritário do sistema eleitoral, os conservadores da Nova Democracia obtiveram uma maioria absoluta no Parlamento e regressaram ao poder. A boa notícia foi o facto de a nazi-fascista Aurora Dourada (XA) ter ficado fora do Parlamento. No entanto, embora com menos força, nele entrou a Solução Grega (EL), da extrema-direita populista, semelhante ao Chega. À esquerda, os socialistas do PASOK, apesar de uma tímida recuperação, continuam abaixo dos 10%, os comunistas ortodoxos do KKE desceram muito ligeiramente, mas mantém-se acima dos 5%, e a MERA 25, de Yanis Varoufakis, após ter ficado a uma centésima (!...) de entrar no Parlamento europeu, ultrapassou a cláusula-barreira de 3% e conseguiu o acesso ao Parlamento nacional. Já a esquerda radical ficou longe de obter representação parlamentar. Antes, Tsipras tinha conseguido obter uma difícil ratificação parlamentar do acordo com a Macedónia do Norte relativamente ao nome do país vizinho, o que levou ao abandono da então coligação governamental por parte do seu parceiro: o Anel (direita nacionalista). O país continua, igualmente, a braços com os refugiados em trânsito, que a Europa rica rejeita e que sobrevivem amontoados em campos onde as condições são muito precárias. Ao mesmo tempo, o novo governo, para além de desenvolver algumas políticas regressivas, tem endurecido a sua política face à imigração e aos refugiados. E, apesar de uma tímida recuperação económica, as marcas do profundo empobrecimento resultantes da crise e da intervenção da “troika” continuam a fazer-se sentir.

Chipre recuperou da crise, muito graças ao seu estatuto de “paraíso fiscal”, bem aproveitado para “lavagens” de dinheiro por parte de oligarcas russos

Entretanto, no Chipre, nada de novo. O país recuperou da crise, muito graças ao seu estatuto de “paraíso fiscal”, bem aproveitado para “lavagens” de dinheiro por parte de oligarcas russos. Um modelo que o partido comunista (Akel), o segundo maior do país, alimentou quando esteve no poder. Após a eclosão de uma grave crise bancária, em 2013, aquele sofreu uma significativa derrota, tendo o conservador Nikos Anastasiades sido eleito presidente nesse ano e reeleito em 2018, apesar do rumo austeritário da sua política no primeiro mandato. Simultaneamente, surgiram novos partidos com cariz populista e a extrema-direita entrou no Parlamento. Já a eterna questão da divisão da ilha, com a ocupação da sua parte setentrional pela Turquia, continua por resolver e nada indica que 2020 traga novos avanços na sua resolução.

Malta só escapou à crise económica que atingiu o sul do continente graças ao seu crescente papel como “lavandaria”

Por fim, Malta só escapou à crise económica que atingiu o sul do continente graças ao seu crescente papel como “lavandaria”. O governo trabalhista, liderado por Joseph Muscat, muito ligado ao mundo empresarial, foi acusado de ser corrupto e o assassinato da jornalista Daphne Caruana Galizia, que investigava os negócios de membros do executivo e também da oposição conservadora em “paraísos fiscais”, no âmbito dos Panama Papers, e as suas ligações ao crime organizado, provocou um choque para lá das fronteiras do pequeno país. Após a prisão do milionário Yorgen Fenech, em finais de novembro, suspeito de ser o mandante do crime, foi igualmente detido o chefe de gabinete do primeiro-ministro. Pouco depois, este prometeu indultar um intermediário do crime, o que levou a grandes manifestações de protesto nos dias seguintes, exigindo a sua demissão. Muscat anunciou que se demitiria, mas apenas após a eleição de um novo líder trabalhista, em 11 de janeiro. Nesse dia, Robert Abela, filho de um antigo presidente do país e visto como o candidato da continuidade, venceu as diretas do seu partido e, dois dias depois, tornou-se primeiro-ministro.

No próximo texto, falarei sobre as perspetivas para os membros da UE situados na Europa Ocidental e Setentrional.

Artigo de Jorge Martins

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