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Uma viagem pelo mundo em 2020 (1): o panorama global

Tal como no ano anterior, também em 2020 o perigo espreita em todas as “esquinas”, ou seja, nenhum país está a salvo das ameaças crescentes, nos planos político, económico, social e ambiental, que surgem a diferentes escalas espaciais.
"Perigo!"
Manifestação contra a visita de Trump a Londres em 2018. Foto Alisdare Hickson/Flickr

A nível internacional, o ano começa sob o signo da incerteza.

O assassinato do general iraniano Qassem Suleimani, comandante da Al-Quds, a força de elite dos Guardas da Revolução, por parte dos EUA, no aeroporto de Bagdad, ao arrepio do Direito Internacional, tem o potencial para desestabilizar todo o Médio Oriente. Uma região rica em grandes recursos petrolíferos e, desde a sua descoberta, sempre cobiçada pelas grandes potências. É também uma área de enorme complexidade política, onde, frequentemente, “o inimigo do meu inimigo também é meu inimigo”. No caso, o agora assassinado foi um dos grandes obreiros da luta contra o Daesh no Iraque e na Síria. Esta ação marca uma escalada no conflito que opõe os maiores aliados dos EUA na região (Arábia Saudita e Israel) ao Irão, que conta com o apoio da Rússia, até agora através de interpostos atores. 

O ano será marcado pelas presidenciais estadunidenses, onde a possibilidade de reeleição de Trump é real. Os republicanos mantêm-se firmes atrás do atual presidente, enquanto os democratas se encontram divididos entre vários candidatos. Caso ela se concretize, a política externa estadunidense tenderá para o isolacionismo e para a recusa ou desvalorização de alianças formais (como a NATO) e das instituições multilaterais (como a ONU e suas agências especializadas) e manter-se-á algo errática e imprevisível.

Na Europa, o Brexit deverá concretizar-se no final deste mês, o que acarreta forte incerteza sobre o futuro do Reino Unido. Resta, depois, pouco tempo para o país e a UE negociarem um acordo sobre a sua futura relação. Mas, após a sua efetivação, a UE volta a ser confrontada com os seus problemas existenciais, que estão muito longe de estar resolvidos. A evolução da política na Alemanha (onde Merkel está de saída e os seus parceiros social-democratas parecem querer virar à esquerda) e em França (onde Macron enfrenta cada vez mais dificuldades em levar a cabo as suas reformas regressivas) serão determinantes para o futuro da União e da zona euro. Por outro lado, a pretexto do distanciamento dos EUA, crescerão as pressões para a criação de um “braço armado” da UE, que conduza à sua progressiva militarização. Entretanto, milhares de pessoas continuam a morrer às suas portas, perante a indiferença hipócrita dos responsáveis europeus e dos governantes nacionais. 

O afluxo de refugiados à Europa resulta de guerras alimentadas pelas principais potências imperialistas, sedentas de “deitar a mão” aos recursos dos países periféricos ou de ganhar posições nas suas estratégias de domínio. Assim, prosseguem os horrores das guerras na Síria, no Iémen e na Líbia, perante a indiferença do chamado Ocidente, agora que o enfraquecimento do Daesh levou a uma redução dos atentados terroristas no continente europeu. Ao mesmo tempo, continuam a morrer milhares de pessoas em conflitos esquecidos ou negligenciados, em especial em África e na Ásia.

O crescimento eleitoral das forças nacionalistas, populistas e autoritárias um pouco por todo o mundo parece continuar, algo a que não será estranho, para além do que referimos no parágrafo anterior, o crescimento das desigualdades nos diferentes países, em resultado das políticas neoliberais e austeritárias ou o aumento da corrupção, tanto a nível local como global, que gera o descrédito dos regimes democráticos e alimenta a demagogia populista, entre outras causas. É, também, em algumas sociedades, uma resposta reacionária face aos avanços em matéria de direitos das mulheres, das pessoas LGBTQI+ e das minorias étnicas.

Apesar de algumas dificuldades, traduzidas num menor crescimento económico e na revolta de Hong Kong, a China prossegue a sua progressiva política de afirmação como grande potência mundial. Para já, vai privilegiando o “soft power” das relações comerciais, mas tende, paulatinamente, a reforçar as suas capacidades militares, o que assusta outras potências da zona, como a Índia e o Japão, seus potenciais rivais. Ao mesmo tempo, a Coreia do Norte vai “jogando ao gato e ao rato” com os EUA a propósito do nuclear. Tudo aponta, assim, para um aumento das tensões na Ásia Oriental e do Sul, com o consequente aumento da sua militarização.

Já a Rússia procura recuperar a influência perdida, quer na área da ex-URSS (que designa por “estrangeiro próximo”), quer no Médio Oriente. A Ucrânia, no primeiro caso, e a Síria, no segundo, são exemplos dessa estratégia. Porém, o seu poder militar continua a contrastar com a fragilidade da sua economia, assente na extração de recursos energéticos. 

Entretanto, na América Latina, assiste-se, em geral, a uma preocupante viragem à direita, em alguns casos na sua versão mais reacionária, como no Brasil. Os muitos erros cometidos pelas esquerdas locais também têm a sua quota parte nesta evolução regressiva que se verifica na maioria dos países da região.

Por seu turno, em África, coexistem alguns bons exemplos de países com crescimentos económicos interessantes com situações de instabilidade política crónica. As debilidades estruturais da maioria dos Estados africanos, ainda muito marcados pelos efeitos perniciosos de séculos de colonização, com reflexos a nível político, económico e infraestrutural, dificultam os seus processos de desenvolvimento. 

A situação dos Direitos Humanos tende, em geral, a piorar na maior parte do mundo. Nos regimes ditatoriais e autoritários, a repressão dos oposicionistas, frequentemente presos, torturados e, até, assassinados, é cada vez mais frequente. Mas, mesmo nas democracias liberais, a sua regressão é preocupante: a prisão dos dirigentes independentistas catalães em Espanha, a perpetuação do estado de emergência em França, a criminalização de responsáveis pelo salvamento de imigrantes em Itália ou o tratamento desumano dados aos imigrantes latino-americanos que tentam entrar nos EUA são alguns desses tristes exemplos. A isso acresce a degradação crescente das relações laborais, com o aumento dos níveis de exploração dos trabalhadores, que atinge níveis de desumanidade inenarráveis em alguns países asiáticos, africanos e latino-americanos. E, ainda, a desigualdade de género, em prejuízo das mulheres: se, em muitos países, sofrem de discriminação legal e são alvo dos chamados “crimes de honra” e de práticas como a mutilação genital feminina, a verdade é que a discriminação salarial, a violência doméstica (que conduz, frequentemente, ao femicídio) e as violações são universais. O mesmo podemos dizer relativamente à discriminação legal que sofrem as pessoas LGBTQI+ em grande parte do mundo e do ódio homofóbico e transfóbico, que leva, todos os anos, à morte de muitas delas. E não esquecemos o racismo e a discriminação racial, que continuam a marcar a maioria das sociedades, com o crescimento da extrema-direita a provocar um aumento dos crimes motivados pelo racismo e pela xenofobia.

Contudo, há sinais de esperança, expressos nas revoltas populares que se sucederam em diferentes latitudes. Desde lutas por mais democracia à revogação de medidas antipopulares tomadas pelos respetivos governos e a protestos contra a corrupção, tivemos de tudo um pouco. Hong Kong (China), Chile, Equador, Haiti, Argélia, Sudão, Líbano e Iraque foram as principais, mas também ocorreram protestos significativos em França (os “coletes amarelos”), Reino Unido (pró e contra o “Brexit”), Espanha (em especial, na Catalunha, após a condenação dos dirigentes independentistas), Bolívia (antes e depois do golpe que derrubou Evo Morales), Rússia, Colômbia, Egito, Irão e Índia. E há, ainda, o original protesto antifascista das “sardinhas” italianas.

Ao mesmo tempo, agrava-se a situação climática do Globo. Para além do aumento da temperatura média do planeta, que vamos, cada vez mais, percebendo, sucedem-se fenómenos climáticos extremos com uma intensidade e uma frequência cada vez maiores. À exceção de alguns que são, na sua maioria, pagos pelas grandes empresas petrolíferas e outras ligadas aos combustíveis fósseis, a maioria dos cientistas não tem dúvidas acerca da sua existência. Contudo, se o tema passou a constituir, no ano que passou, uma das maiores preocupações da cidadania em diferentes latitudes (expressa no mediatismo da figura da adolescente sueca Greta Thunberg e nas sucessivas greves climáticas, com tradução política no crescimento eleitoral de partidos ecologistas em vários países), não encontrou, ainda, resposta cabal por parte da maioria dos dirigentes políticos, em especial das grandes potências. Aliás, alguns destes, com triste destaque para o presidente dos EUA, são assumidos negacionistas das alterações climáticas.

Por fim, mas na base de tudo, está a evolução da economia capitalista global. A Grande Recessão de 2008 teve como principal causa a crescente financeirização do capitalismo e as desastrosas operações dos gestores bancários deixados em “rédea solta”, desde políticas de crédito irresponsáveis (que conduziram à crise do “subprime”) à criação de produtos financeiros de carácter especulativo, sem qualquer ligação com a economia real, que transformaram as bolsas de valores em casinos. Em consequência, algumas instituições financeiras sofreram perdas gigantescas, que os Estados foram obrigados a assumir para evitar a sua falência. Se é certo que a maior parte do mundo foi atingido pela crise, foi na Europa que as suas repercussões mais se fizeram sentir, pois a arquitetura disfuncional do euro levou a que esta atingisse com especial violência os países periféricos da UE, na sua maioria no Sul do continente, no início da década. Sensivelmente a partir de 2015, assistiu-se a uma lenta recuperação económica, mas as causas que geraram a crise continuam presentes e a maioria das economias continua vulnerável. E os recentes acontecimentos no Médio Oriente, com repercussões ao nível do preço do petróleo, podem levar a uma nova recessão.

 Tal como referimos no início do ano anterior, também em 2020, o perigo espreita em todas as “esquinas”, ou seja, nenhum país está a salvo das ameaças crescentes, nos planos político, económico, social e ambiental, que surgem a diferentes escalas espaciais.

Nos próximos artigos, passarei à análise da situação nos diferentes Estados e regiões do mundo. Com o objetivo de chegar a um maior número de leitores, a dimensão dos textos será mais reduzida. Em contrapartida, a análise será mais prolongada no tempo, havendo um maior número de artigos. 

Como habitualmente, começarei a minha análise pela Europa, seguindo depois para as restantes regiões do mundo.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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