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Um quotidiano inventado para resistir: como vivi um tempo feita prisioneira

[Enquanto estive em isolamento] a comunicação, com sinais sonoros batidos nas paredes, com as camaradas das celas vizinhas (…) fez-me sentir acompanhada e experimentar a solidariedade entre pessoas numa situação particularmente violenta. Por Maria da Conceição Moita.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Um quotidiano inventado para resistir: como vivi um tempo feita prisioneira

Os meses que passei na cadeia de Caxias como presa política e depois dos dias que fui sujeita a tortura no reduto sul, não os vivi como tempos mortos. Bem sei que imediatamente a seguir a essa fase da tortura foi preciso recompor-me e devo ter estado dias a dormir (não sei quantos) porque só me lembro de ser acordada pela guarda prisional que me levava a comida às horas certas. Dormi desalmadamente.

Depois, em isolamento, foi viver um quotidiano tentando resistir, inventando modos de ocupar os dias, combatendo o mais pequeno sinal de depressão ou desanimo. Foi o tempo de reforçar convicções e tirar partido da situação criativamente, com muita atenção áquilo que todos os meus sentidos me iam assinalando.

Não houve um dia que passasse de roupão e chinelos e aos domingos vestia um vestido. De manhã limpava a cela vagarosamente, tentando tirar dos cantos todo o cotão que os cobertores castanhos fabricavam de noite e que a luz da manhã revelava quando se olhava o chão. Depois, que fazia? Sem rotina fixada, como é óbvio, lembro-me que passava muito tempo à janela, que virada a nascente em dias de sol me enchia a cela durante toda a manhã, pensava à janela, cantava à janela, e mantinha toda a atenção a tudo aquilo que para lá das grades me era dado ver e ouvir. Aquela janela era sem dúvida o lugar onde, estando presa, me sentia livre.  Mas também fazia ginástica, jogava o solitário (feito com um fósforo e uma folha de papel) e sobretudo “convivia” com um amigo, todos os dias diferente, e em quem centrava a minha memória, lembrando o que tínhamos vivido e dito e rido e chorado juntos. Jogo imaginário que me ocupou a memória e que foi “zona de conforto” naquele tempo tão duro.

Mas posso dizer que o que ocupou mais tempo naqueles dias foi a comunicação, com sinais sonoros batidos nas paredes, com as camaradas das celas vizinhas. Isso fez-me sentir acompanhada e experimentar a solidariedade entre pessoas numa situação particularmente violenta. As duas camaradas com quem comunicava só venho a conhecê-las verdadeiramente muitos anos depois. Muita emoção e cumplicidade.

Quando terminou a fase do isolamento (determinada arbitrariamente) passei a estar numa cela acompanhada e muita coisa mudou. Passamos a ser quatro. Conhecia muito bem duas camaradas que sabia que também estavam presas. Reencontrá-las foi uma imensa alegria. A terceira não a conhecia, mas rapidamente fiz uma amizade com ela que ainda hoje perdura e que é muito forte. Nos primeiros dias só me lembro das longas horas de conversa e do reconhecimento umas das outras, naquela circunstância. Mas rapidamente estabelecemos algumas regras de convivência que fizessem o tempo mais previsível e respeitador do modo de ser de cada uma. Ao mesmo tempo conversamos como queríamos viver ali, enquanto presas, movidas por causa comum. A criação de um ambiente que resistisse o mais possível àquelas condições agressivas era fundamental. Pusemos em comum as camisolas que arrumamos por cores na prateleira aberta do armário e colamos poesia nas paredes. Um livro de arte era aberto todos os dias em página diferente. Perto da hora do jantar cantávamos a vozes, o que era muito mal visto pelas guardas. Havia tempo de silêncio para ler e escrever. O choro nunca seria mal visto. O jornal era lido em comum. O tempo de conversa girava muito em torno da situação política e das formas de luta para a combater. E entre nós o respeito e a cumplicidade foram-se cimentando.

O facto de estamos juntas também possibilitou concertar acções contra as normas da cadeia. Para domingo de Páscoa à hora das visitas, combinamos que, a um sinal que eu faria na minha cadeira, todas nos levantamos e empurrávamos uma portinhola que nos separava das duas camaradas que estavam a cumprir pena, para irmos abraçá-las. Assim aconteceu. Isto presenciado por todas as nossas visitas e perante a perplexidade das camaradas e obviamente das guardas prisionais que não se atreveram a intervir de imediato. Claro que tivemos o castigo de não ir ao “recreio” uma série de dias. (Diga-se que o “recreio” era a possibilidade de passar meia hora ao ar livre num espaço reduzido entre altos muros).

De outra vez, depois de ter havido uma vaga de prisões que levou para Caxias numerosas mulheres, uma camarada e eu, quando vínhamos do dito “recreio”, fomos deixadas sozinhas no corredor das celas em que estavam as novas presas, porque a guarda que nos acompanhava decidiu ir fazer outra tarefa qualquer. Olhamos uma para a outra e de repente, cada uma do seu lado do corredor, começamos a abrir as janelinhas que se abriam do lado de fora de cada cela e a dizer palavras de incitamento e coragem às novas camaradas. Como era de esperar ouvimos um grande ralhete da guarda e mais uma vez ficamos sem apanhar ar puro vários dias.

Acções de pouca monta, mas que para nós eram, naquele contexto, sinal de indignação e desobediência perante o sistema prisional do regime fascista.

Poucos dias depois alguma coisa de novo nos esperava para lá daquela porta grande do reduto norte da prisão de Caxias. Um grupo de militares tinham tido uma boa ideia. Aconteceu “o 25 de Abril”. E outra luta começou e começou também um quotidiano em que o sono não tinha hora certa.

Maria da Conceição Moita
Maio de 2020

 

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