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Mulheres de Abril: Testemunho de Maria da Conceição Moita

A minha radicalização política foi acontecendo, não se deu de um momento para o outro. Era uma exigência política e uma exigência cristã. E foi uma dinâmica que aconteceu no meio dos cristãos. Não foi um processo isolado. Por Maria da Conceição Moita.
Momento da libertação de Maria Conceição Moita da prisão de Caxias, na noite de 26 para 27 de Abril de 1974.

 

Este testemunho foi recolhido no âmbito do projeto Mulheres de Abril, iniciado em 2018, e que compila relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura. Coordenação de Mariana Carneiro.


O 25 de Abril representou uma dupla libertação

[Testemunho oral de Maria da Conceição Moita]

Nasci numa família da média/alta burguesia. O meu pai era industrial numa terra ribatejana, em Alcanena. Éramos cinco irmãos. A minha mãe muito cristã. Era, de facto, uma mulher muito convicta, e nada beata, tinha uma cabeça muito aberta, muito disponível para toda a gente. Tanto eu como os meus irmãos tivemos toda uma educação cristã. Assumi-a pessoalmente de uma maneira natural, nunca me senti pressionada, era como uma respiração. O meu pai era descendente de uma família extremamente republicana e naquela terra havia uma tradição anticlerical muito intensa. Mas, politicamente, era um homem da “situação”.

Foi através das Noelistas que entrei na grande onda progressista católica

Por volta dos meus dez anos, vim viver para Lisboa com a minha avó materna e com o meu irmão mais velho, que vinha para a universidade. E os outros irmãos acabaram por vir também por arrastamento.

Fui estudar para um colégio de freiras que ficava perto da nossa casa. Ainda adolescente, tive a oportunidade de integrar um movimento católico chamado “A União Noelista”. Era um movimento feminino com raízes em França, onde não era muito significativo, mas que, em Portugal, teve um impacto importante. Por cá, o movimento foi recrutando mulheres com muita qualidade humana, e que vieram a ter algum protagonismo nos planos social, cultural e eclesial. A maior parte, era gente que se situava politicamente à direita, mas algumas delas começaram a aproximar-se dos movimentos progressistas. Foi por essa via que entrei na grande onda progressista católica. E foi também neste contexto que tive os primeiros contactos com as grandes bolsas de miséria que existiam em Lisboa.

Não se 'entrava' nos católicos progressistas, dado que não éramos um grupo estruturado

Não éramos muitos no país todo. Era gente muito convicta e determinada. A questão que se colocava era sobretudo de que lado estávamos numa sociedade dominada pela opressão e pela injustiça social. Houve todo um caminho começado no interior da Igreja, onde os apelos do Evangelho eram contraditórios com o que se vivia na comunidade e no país. E a tomada de consciência foi sendo cada vez mais profunda, com duas vertentes: queríamos uma Igreja mais aberta e mais atenta aos problemas do tempo, ao serviço das pessoas e do mundo, não uma Igreja fechada e aliada do regime político; fomos percebendo que não chegava que cada um mudasse o seu próprio estilo de vida para haver mudança e que era fundamental uma implicação clara da parte dos cristãos na luta política.


Maria da Conceição Moita e Nuno Teotónio Pereira em Marvão.

Na própria Igreja universal registaram-se acontecimentos muito importantes, que funcionaram como empurrão neste nosso caminho: houve o Concílio Vaticano II, no princípio dos anos 60/61 a 65, que foi um grande clarão na Igreja naquela altura, e foram publicadas duas grandes encíclicas ou cartas papais que foram geradoras de nova consciência no mundo crente - Pacem in Terris e Populorum progressio. Uma, evidentemente, tratando mais dos problemas da paz e da injustiça provocada pela guerra, e outra abordando mais as dinâmicas do desenvolvimento. Esses dois documentos abriram caminho para que as igrejas locais dos vários países desenvolvessem todo um percurso de abertura a partir da leitura aprofundada destas encíclicas. Mas nem tudo partiu de Roma. Estou a pensar em tudo o que nos foi chegando do envolvimento e da luta dos cristãos na América Latina. Um dia destes, subi a um escadote para procurar um livro nos “andares” de cima das minhas estantes e verifiquei a presença de alguns livros da década de 60 que ainda guardo. E lá estão os que já apontam para uma teologia da libertação e os que narram as opções feitas por padres e leigos a favor dos mais pobres, e que enveredaram por formas de luta mais radicais, incluindo a luta armada.

É evidente que também todos os movimentos desencadeados na Europa pelo Maio de 68 nos iam chegando. Era a libertação do pensamento e a possibilidade da construção das grandes utopias.

Mas é claro que as diversíssimas iniciativas que os católicos ditos progressistas foram tendo no país e todo o pensamento que se foi desenvolvendo construíram um caminho que era impossível travar.

Como disse, estes católicos não existiam em grupo enquanto tal. Não havia nenhum tipo de formalidade, não tínhamos encontros regulares, nem hierarquias. Havia sim líderes naturais que se impunham pela sua militância exemplar, pela sua coerência, pela sua perseverança. As pessoas juntavam-se informalmente e essa informalidade esteve a nosso favor, porque nos dava uma grande margem de manobra. Entre o clandestino, o semiclandestino e a luta aberta, cada um escolhia o que lhe parecia mais oportuno e urgente. Mas é evidente que havia ações concertadas e nalguns anos encontrávamo-nos nos terceiros sábados de cada mês, numa casa de freiras franciscanas no Campo Pequeno. E vinha gente de todo o país.

Os católicos assumiram de uma maneira muito clara a luta contra a guerra colonial

A primeira ação de rua em que participei foi em Fátima, num 13 de Maio. Alguém fez um panfleto que afirmava que a mensagem de Fátima só podia fazer apelo à paz e que os católicos deviam assumir de uma maneira muito clara e muito firme a luta contra a guerra em África. Era um panfleto muito simples, com uma linguagem que toda a gente entenderia, com letras grandes, muito bem feito do ponto de vista gráfico. Fizemos por cima de um mapa do santuário uma quadrícula e cada um de nós ficou responsável por um setor. Fomos para lá em autocarros e carros, separados para não levantar suspeitas, e, à hora determinada, todos distribuíram, no mais curto espaço de tempo, os panfletos que transportavam num pequeno saco. De um momento para o outro, Fátima ficou completamente coberta. Éramos homens e mulheres de todas as idades. Foi uma ação muito eficaz, porque atingiu milhares de pessoas de todo o país e com uma mensagem exata, muito compreensível.

A vigília da Capela do Rato

A Capela do Rato vem na sequência de uma outra vigília que se realizou em 71, na igreja de S. Domingos. O meu irmão Luís, que nessa altura já era um ativista anticolonial muito empenhado, pensou que, em 73, estavam criadas as condições para se organizar uma ação com mais impacto. Juntou a si cinco pessoas que davam a cara pela iniciativa: duas mulheres - a Isabel Pimentel e eu, o Galamba de Oliveira, o João Cordovil e o António Matos Ferreira. Fizemos uma divulgação boca a boca nos diferentes sectores eclesiais e políticos em que nos movíamos.

A iniciativa foi marcada para uma data muito significativa. O Papa tinha feito uma mensagem para esse dia da Paz, que é o dia 1 de janeiro, e, nesse ano, o tema da mensagem era: A Paz é possível. Organizámos uma ação muito preparada ao pormenor, que se desenvolveria num sábado, num domingo e numa segunda-feira, dia 1 de janeiro. Eram três dias em que se celebravam várias missas na capela, o que permitia anunciar a muitas pessoas que costumavam participar, que estávamos ali em grupo, para refletir sobre o problema da guerra colonial - que era um problema que afetava o país, a todos nós, para além dos povos das colónias - e a quem convidávamos para ficarem connosco na capela em reflexão e oração. Nós ficaríamos em jejum permanentemente em solidariedade com as vítimas da guerra. Fui eu que fiz essa declaração no fim da missa da tarde de sábado, dia 30 de dezembro. Muitas pessoas foram jantar a casa e voltaram, outras vieram porque souberam o que se estava a passar, e, à noite, juntou-se, de facto, mesmo muita gente. Houve lugar a debates, à preparação de cartazes, e à elaboração de moções escritas em papel de cenário, coladas com fita-cola nas paredes. Cantou-se. Fez-se silêncio. Leram-se muitos relatos do que se passava nos campos de guerra.


Maria da Conceição Moita num encontro internacional de cristãos, em 1974.

Os padres que estavam presentes nessa altura e que nos conheciam ficaram perplexos e disseram que iriam dar conta da situação ao padre Alberto Neto, que era o responsável da capela, e que estava com uma pneumonia. Não o tínhamos avisado previamente para o proteger, porque era bom que assim fosse. Ele próprio declarou isso mesmo posteriormente.

A mesma declaração foi feita nas missas de domingo de manhã, enquanto as B.R. fizeram rebentar petardos em zonas estratégicas de Lisboa e da outra banda, espalhando panfletos a convidar os trabalhadores a juntarem-se a esta iniciativa contra a guerra. Também à porta de várias igrejas de Lisboa foram distribuídos panfletos a informar os cristãos do que se estava a passar na capela do Rato. Mas, à tarde, a polícia fechou a rua da capela de um lado e do outro, e colocou à porta uma carrinha para transportar pessoas. Entrou na capela e ordenou com grande agressividade que saíssemos. Recusámo-nos a sair, e perguntámos-lhes se tinham licença da autoridade eclesiástica. Algumas pessoas fizeram mesmo resistência, no sentido de ficarem sentadas nas cadeiras. Mas a polícia respondeu arrastando as pessoas juntamente com as cadeiras para a rua. Foi um gesto extremamente violento. Nessa altura cantávamos e rezávamos ostensivamente, e foi depois de um tempo longo que entrámos nas carrinhas. Levaram-nos para identificação na esquadra do Rato. Entretanto, uma empregada da capela, uma senhora que era respeitadíssima por todos, ficou por lá e fez desaparecer todos os papéis.

Fomos todos identificados e alguns foram presos, entre eles o Francisco Louçã, o Jorge Wemans, o meu irmão Luís, o professor Pereira de Moura. No dia seguinte, o Marcelo Caetano fez uma declaração na televisão e na rádio, condenando a ação. O debate chegou à Assembleia Nacional, onde os deputados da ala liberal defenderam os cristãos que tinham promovido este acontecimento. Foi um debate a que vale a pena ter acesso. O Casal Ribeiro foi o grande porta-voz da ala mais à direita, e o Miller Guerra, que era um deputado liberal, com um sentido de humor e uma grande seriedade intelectual, defendeu a ação na Capela do Rato de uma forma absolutamente corajosa. Podemos dizer que esta iniciativa teve um imenso impacto tanto no interior do país como no exterior. A imprensa estrangeira deu-lhe muito relevo e foram numerosos os intelectuais que se manifestaram junto do Governo, solidarizando-se com os presos.

Por outro lado, esta ação teve consequências muito graves, porque os funcionários públicos que tinham sido identificados na esquadra do Rato foram despedidos, só sendo reintegrados em 1974. Solidariamente, fizemos uma coleta para que eles não ficassem desguarnecidos em termos de ordenado.

A radicalização era uma exigência política e uma exigência cristã

A minha radicalização política foi acontecendo, não se deu de um momento para o outro. Era uma exigência política e uma exigência cristã. E foi uma dinâmica que aconteceu no meio dos cristãos. Não foi um processo isolado. Os anos 60 foram decisivos como já referi. A minha fé passou a não ser incompatível com as lutas mais radicais. Antes pelo contrário. Foi para mim uma mola que me levou a aceitar desafios grandes.

A Igreja comete erros sem explicação e eu sou completamente crítica em relação a muitas das suas posições e das suas práticas, mas não a ponto de a abandonar. Reconheço que esta minha postura é pouco comum. Já tive muitas crises, zangas profundas, mas a Igreja é um pouco a minha casa e é o lugar onde posso, com outros, viver um caminho de procura de maior fidelidade ao Evangelho de Jesus. Mas a convivência profunda com não-crentes é para mim um dado que não posso dispensar.

Em determinada altura do meu percurso, em 72, fui contactada por Carlos Antunes, dirigente do PRP, e militante das Brigadas Revolucionárias (BR), que me perguntou se queria apoiar a luta que tinham iniciado. Pensei, ponderei, e perguntei-me porque não. Do que conhecia, a prática das BR não passava pela violência contra pessoas, incidia sim sobre materiais, edifícios, essencialmente materiais de guerra, e o dirigente das BR garantiu-me que não estava nos objetivos políticos das BR entrarem nessa linha, o que para mim foi um dado essencial. A minha colaboração passou por ter uma casa arrendada em meu nome para apoio aos clandestinos e dar variadíssimas boleias. Foi sobretudo essa a minha função – de dar apoio logístico.

Quando fui presa 'caiu o Carmo e a Trindade'

Nos últimos meses de 73 (não me lembro da data exata) fui a França participar num encontro que tinha como temática – Os cristãos na revolução para o futuro do mundo. Muita gente. Um encontro interessantíssimo.


Maria da Conceição Moita, Congresso dos GDUP's.

Fui presa a 6 de dezembro de 1973. Estavam a ser presas muitas pessoas ligadas a mim e eu achei que fazia sentido sair do país. Fui à TAP, comprei um bilhete de avião e a PIDE seguiu-me. Uma ou duas horas antes de partir, estavam na minha casa para me prender. Já tinha a mala feita, tinha pedido aos meus irmãos para irem lá a casa, por forma a despedir-me deles. A minha mãe, que já tinha uma certa idade, reagiu com uma tremenda dignidade. O meu pai já tinha morrido, pelo que, felizmente, não assistiu à minha prisão. Ele foi sempre de direita.

Mobilizaram um contingente inacreditável de polícias e PIDES armados para me prender. Levaram-me para a António Maria Cardoso e depois fomos, vertiginosamente, para Caxias. Fui logo para o Reduto Sul e submetida a tortura. Despiram-me toda, viram se não tinha objetos escondidos. Era de noite, hora de jantar. Fiquei logo na sala onde fui amplamente torturada durante muito tempo. Tive treze dias sem dormir. Obrigaram-me a ficar em pé nos últimos tempos. Foi muito violenta a tortura, sobretudo a do sono. Um dia deram-me uma grande bofetada, caí no chão e tive uma reação esquisitíssima, tremores dos pés à cabeça, como se estivesse a ter uma convulsão. Devem ter tido medo que fosse epilética e mandaram vir o médico. Noutra ocasião tive vómitos incontroláveis e alucinações. Era espantoso: chamavam os médicos e as enfermeiras para nos tratarem para poderem continuar a torturar-nos! As mulheres da PIDE que estavam comigo revezavam-se de 3 em 3 ou de 4 em 4 horas, sendo que os PIDES/ homens apareciam só para a tortura física e psicológica. Faziam ameaças terríveis, diziam-me que tinha acontecido 'isto e aquilo' aos meus irmãos que estavam a ser torturados ao mesmo tempo, assim como outros amigos. Jogaram com isso. Era uma pressão imensa. Houve um dia em que comecei a ver tudo azul. Nesse dia, acabaram com a tortura e mandaram-me para a cadeia. Fui ao médico. Estava extremamente magra e com uma sensação na cabeça de vazio, de incapacidade de dizer “eu”. Receitou-me umas vitaminas e qualquer coisa para dormir.

Depois, na cadeia, estive sempre convicta politicamente e muito segura. Simplesmente, de facto, falei durante a tortura. Como é que encaro isso? Houve muitas pessoas que se culpabilizaram toda a vida. Comigo isso não se passou. Devo dizer que considerei que todas as pessoas têm limites, e eu atingi o meu. Senti que não traí nada nem ninguém, não foi por traição que falei. Aceitei os meus limites. Mas foi muito doloroso. Mantenho um respeito imenso pelos que não falaram.

O quotidiano na cadeia na solidão ou a partilhar o quotidiano

Na cadeia aprendi a comunicar com as camaradas das celas do lado. Do meu lado direito, uma camarada fazia uns batimentos na parede que eram sempre os mesmos. Pus a hipótese mais lógica de cada pancada ser uma letra. Recorrendo ao papel higiénico e a um bâton que tinha dentro do bolso do casaco, fiz um abecedário para me orientar. Ela dizia-me sempre “olá”. Quando respondi “olá”, ficou contentíssima. Passámos a comunicar durante todo o tempo.

No dia de Natal vesti a camisola mais bonita, cantei cantigas de Natal, fiz uma estrela com papel prateado que vinha a embrulhar uma flor que a minha mãe me mandou. Manter as convicções foi para mim fundamental. Mas era terrível ouvir de noite os gritos de uma mulher americana, doente mental, que foi apanhada à saída de um avião proveniente dos E.U.

Vivi na cadeia a solidariedade com os e as camaradas que estavam presos, quer quando estava isolada, quer quando já estávamos em grupo. Mantive ânimo e serenidade. Estive um mês e meio isolada. O facto de estar na cela sozinha não me perturbou muito. Todos os dias escolhia uma pessoa amiga, que me fazia “companhia” nesse dia... Uma estratégia quase infantil. Foi uma das formas que encontrei de “povoar” a solidão. Além disso comunicava o máximo com as camaradas que estavam nas celas ao lado da minha.

A camarada que me ensinou a dizer “olá” era uma rapariga nova, universitária, que saiu da cadeia pouquíssimo tempo depois. Disse-me que, se eu quisesse, iria ver a minha mãe para lhe dizer que eu estava bem. Assim fez. A camarada do outro lado, que esteve sempre muito chorosa e aflita, tinha o marido na clandestinidade e no exterior duas filhas pequeninas. Muitos anos mais tarde conheci-a pessoalmente, enquanto tomávamos banho de mar no Algarve. Uma mulher fantástica.

Quando me mudaram para uma cela onde passaria a estar com outras três presas foi uma alegria. Conhecia bem duas delas. Foram uns tempos muito retemperadores aqueles que vivemos todo o quotidiano em comum. Fizemos uma imensa amizade. A duríssima situação que partilhávamos fez vir ao de cima o melhor que existia em cada uma.

No 25 de Abril estava em Caxias

No dia 25 de Abril, um carro na autoestrada buzinou com insistência, ao fim da tarde. Estávamos a jantar, a conversar, pelo que não demos importância ao facto, até que as camaradas da cela ao lado nos comunicaram pela parede que o carro em frente comunicou em código morse uma mensagem da qual só tinham percebido duas palavras: derrubado e coragem.


Maria da Conceição Moita, 2007.

Quando já era noite fechada, ouviu-se em toda a cadeia a voz potentíssima de um camarada preso que gritou à janela: “Camaradas de todas as celas, temos a notícia de que houve um golpe. Não sabemos qual a sua origem. Recomendamos a maior prudência”. Alguns deles barricaram-se, colocando as mesas contra as portas, porque a PIDE podia retaliar contra nós.

Combinámos que uma de nós ficava sempre à janela, enquanto as outras dormiam durante a noite. Mas, às sete da manhã de dia 26, já estávamos as três à janela. Ostentei uma bandeirinha vermelha que tinha feito em tricot para uma manifestação atrás das grades que faríamos no 1º de Maio. Esse dia foi muito difícil e cheio de emoções. Primeiro, levaram-nos a todos – homens e mulheres – para o pátio da cadeia. Foi um momento repleto de abraços, beijos, inexplicável. Nessa altura, veio um militar que, de cima de uma carrinha, nos disse que estávamos perante um golpe que pretendia libertar os presos. Deu-nos conta, porém, de que que existia uma discussão ao nível dos militares sobre se seriam todos libertados ou se aqueles que tinham no seu processo envolvimentos com armas deviam continuar presos. Os nossos advogados ficaram em pé de guerra para fazer sair todos os presos. Entretanto, o militar pediu-nos para voltarmos para a cadeia. Obedecemos que nem “cordeiros”, já que não queríamos perturbar os “acontecimentos”. Deixaram que as mulheres ficassem todas juntas numa cela grande, e fizeram o mesmo com os homens. Houve, entre as mulheres, um debate interessantíssimo e revelador, em que todas declararam, sem hesitação, que dali ou saíam todas ou não saía nenhuma. E mandámos esse recado para o lado dos homens. Soubemos, posteriormente, que isso teve uma grande importância na decisão deles.

Só à noite saímos da cadeia. Fui levada em ombros, não percebo como, nem porquê. Há, inclusive, uma fotografia que retrata essa situação. O meu irmão mais novo veio “resgatar-me” e levou-me para casa, para ir ver a minha mãe. A casa encheu-se de amigos. Dia de uma dupla libertação.

 


* Maria da Conceição Moita - Nasci a 5 de Abril de 1937, em Alcanena. A minha formação inicial é de educadora de infância. Fui professora de Religião e Moral em Liceus de Lisboa e no Barreiro. Trabalhei no movimento “O Ninho” com raparigas pobres que se entregavam à prostituição. Fui diretora de uma secção da Casa Pia de Lisboa. Fiz o Mestrado em Ciências da Educação. Nos últimos vinte anos de vida profissional fui professora na Escola Superior de Educação de Lisboa. Estou reformada e ainda muito ativa em iniciativas cidadãs.

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