Se leu as autópsias da campanha Bernie 2020 no New York Times, no Huffington Post, no Wall Street Journal, no Politico, no Buzzfeed ou na CNN, provavelmente já leu a versão de uma história mais ou menos assim: o analista de sondagens Ben Tulchin, a co-presidente Nina Turner e eu somos monstros cuspidores de fogo que pressionavam Bernie para “atacar” Joe Biden. Bernie recusou-se a fazê-lo e por isso perdeu.
Há aqui alguma ponta de verdade, mas também há ficção. Portanto, vale a pena separar os factos da fantasia para entendermos um problema enorme, mas pouco discutido, que assola o Partido Democrata, ao qual eu chamo a “tirania do decoro”.
Conheço Bernie Sanders há 21 anos. Ele tem sido um herói para mim. Respeito profundamente o trabalho da sua vida, e ele continua a ser uma inspiração para mim – e por mais bisbilhotice, comentários ou calúnias pós-eleitorais que existam, jamais isso mudará. Trabalhar na sua campanha foi uma grande honra, e eu agradeci-lhe, como a muitos outros, por essa experiência.
O que se segue são algumas ilações francas da campanha. Não fizemos uma campanha perfeita – e, tendo eu trabalhado em campanhas vencedoras e perdedoras, aceito a minha quota-parte de responsabilidade. Deus sabe que não fui perfeito, tendo desde o começo até ao final recebido a uma parte das críticas. Mas acredito que temos a obrigação de olhar para trás, para o passado doloroso, e aprender lições para o futuro.
Uma coisa verdadeira: pressionámos, com algum sucesso, mas não o suficiente
Sim, é verdade: um pequeno grupo de nós, com muitos anos de experiência em campanhas, pressionou Bernie a contrastar de forma veemente o seu próprio percurso progressista com o de Biden que chegou a trabalhar com Republicanos contra a agenda Democrata. Estive em sete campanhas na minha vida, que partiam em desvantagem, e venci algumas delas.
Esta é a base de qualquer campanha: contrastas ou perdes. E com Biden, o contraste era particularmente evidente.
Enquanto Bernie lutava para impedir a Guerra do Iraque, Biden ajudava o Partido Republicano a aprovar a resolução da guerra e a votar contra emendas do Partido Democrata a essa resolução. Enquanto Bernie lutava para interromper a lei das falências de 2005, Biden ajudou o Partido Republicano a aprovar legislação que agora poderá esmagar centenas de milhar de americanos durante a recessão do coronavírus.
Enquanto Bernie e o senador do Minnesota, Paul Wellstone, pressionavam por uma lei para reduzir o preço dos medicamentos e impedir o lucro da venda de vacinas desenvolvidas à custa dos contribuintes, Biden ajudava os Republicanos a matar a iniciativa. E como eu disse à MSNBC, enquanto Bernie lutava para proteger e expandir a Segurança Social, Biden ajudava a disseminar o argumento republicano sobre cortes na Segurança Social.
Embora por vezes Biden tenha mentido patologicamente sobre alguns destes factos (a certa altura, até insistiu que não teria ajudado a escrever a sua própria lei de falências!), esse historial é verificável. Não está em disputa. Alguns de nós acreditámos que era importante que esse historial fosse destacado – porque era uma boa estratégia e era positivo para a democracia.
Nós não pressionámos Bernie a “atacar” Biden de maneira cruel. Nós incentivámo-lo, de uma forma simples e muito explícita, a definir as primárias como uma escolha entre uma visão de mudança progressista e a promessa de Biden aos doadores da sua campanha de que “nada de significativo mudará”.
Para seu benefício, Bernie por vezes trabalhou connosco e adotou esta estratégia. Quando ele o fez, foi bem-sucedido – vejam este seu contraponto sobre a Segurança Social com Biden no Iowa, e o seu contraste com Pete Buttigieg no New Hampshire.
Noutros momentos, porém, a campanha recuou e não aproveitou oportunidades para contrastar explícita e continuamente grandes diferenças entre os candidatos.
Por fim, Biden conseguiu evitar ter de explicar continuamente o seu historial ofensivo. Em vez disso, foi-lhe permitido apresentar-se como um candidato seguro e elegível, de “unidade”.
Foi divertido ser sempre uma das pessoas que pressionavam para que a campanha fosse mais agressiva e também comer merda no Twitter por supostamente ser “tóxico” e por simplesmente twittar alguns vídeos de Biden a apoiar políticas grotescamente retrógradas? Não, não foi divertido. Tenho mais cabelos grisalhos e menos estômago porque pressionei. Não sou herói ou mártir, mas posso dizer que foi horrível, doloroso e desolador.
Mas foi necessário.
Uma coisa que poderia ser ou não verdadeira: vencer
Teríamos ganho se tivéssemos contrastado consistentemente as nossas posições com as de Biden? Se vamos jogar aos “ses”, eu adoraria dizer que sim. No entanto, não posso dizer isso com plena confiança, porque existem inúmeras variáveis e porque Biden era um candidato extremamente poderoso, mesmo que não o parecesse para o espectador comum.
Lembremo-nos: nos últimos 65 anos, nenhum vice-presidente atual ou de um passado próximo, tendo feito uma campanha séria para presidente, falhou a nomeação do seu partido. Esta estatística obscura evidencia uma verdade central: se a opção estiver disponível, os eleitores de ambos os partidos optam quase sempre por nomear alguém que esteve muito próximo da presidência. (Por incrível que pareça, com toda a conversa sobre “elegibilidade”, foi isso mesmo que aconteceu, mesmo apesar de os vice-presidentes não terem um grande registo de vitórias nas eleições presidenciais.)
Como ex-vice-presidente que outrora se gabou de ser um dos legisladores mais conservadores do Senado, Biden teve o apoio de grande parte do establishment partidário alinhado com as grandes corporações, bem como o da classe bilionária que via corretamente Bernie como uma ameaça existencial sem precedentes aos seus interesses económicos.
Esse establishment pode estar mais fraco do que nunca, mas ainda é extremamente poderoso, principalmente porque grande parte dos média reproduzem frequentemente os seus objetivos.
Alguns exemplos: a CNN comparou Bernie ao coronavírus. O MSNBC fez uma campanha totalmente contra nós. Os auto-declarados “verificadores de factos” obscureceram insidiosamente os factos e desviaram as críticas do percurso de Biden. E como reportou o Politico, “Biden beneficiou de quase 72 milhões de dólares de média praticamente sempre positiva” nos dias cruciais que antecederam a Super Terça-feira.
Talvez um contraste mais marcado pudesse ter superado isto, talvez não. Não tenho a certeza.
No entanto, estou seguro de que um contraste mais forte nos teria pelo menos colocado numa posição melhor para sobreviver quando Beto, Klobuchar e Pete Buttigieg se puseram todos do lado de Biden para ajudá-lo a ganhar a Super Terça-feira.
Na ausência de uma crítica dura desde o início, e sem o foco diário no seu percurso, Biden conseguiu solidificar uma posição de “elegibilidade” que não mereceu ou ganhou.
Segundo as sondagens, Biden conseguiu ganhar os votos da maior parte dos eleitores democratas dos quinze estados que afirmaram que os cuidados de saúde eram a sua grande prioridade, apesar da maioria dos eleitores democratas desses estados afirmarem apoiar a substituição de seguros privados por um plano governamental de saúde – uma posição a que Biden se opõe.
Biden venceu os estados do Midwest que foram devastados pelos acordos comerciais que ele próprio apoiou.
Biden chegou mesmo a ganhar a maioria dos votos de eleitores democratas dos onze estados que afirmaram que o clima era a sua prioridade, apesar de o plano climático de Biden ser muito mais fraco.
Quando a nossa campanha estava por fim à vontade a construir uma opção viável e consistente contra Biden, era já a Super Terça-feira – e era tarde demais.
Uma coisa perigosamente falsa: os contrastes são maus
Se o leitor leu até este ponto, deve estar a perguntar-se: o que explica então a resistência de Bernie em contrastar as suas posições de uma forma mais clara com as de Biden?
Na minha opinião, três coisas, sendo que a terceira é a mais problemática para o futuro:
1 – Bernie é um legislador cuja ação está profundamente assente em princípios, não é um político de terra queimada, nunca o foi. Desde que foi pela primeira vez eleito para um cargo público, a sua abordagem parece ser definida por uma convicção de que para se fazer mudanças reais a partir do exterior, deve ser-se muito combativo, mas sempre mantendo um pé dentro da estrutura de poder, evitando queimar tudo pelo caminho. O raciocínio assenta na ideia de que se formos muito antagónicos ao establishment, seremos imediatamente marginalizados, retratados como irrelevantes e sem poder. (Nota: como os resultados das primárias demonstram, o problema desta teoria é que, mesmo sendo simpáticos e não enveredando por uma política de terra queimada, a estrutura de poder tem outras formas de derrotar os progressistas.)
2 – Como ele mesmo o disse, Bernie respeita e gosta de Biden. Pessoalmente, não acredito que a afinidade seja justificada, considerando o histórico legislativo de Biden, mas não vou argumentar sobre este ponto. É o que é.
3 - O Partido Democrata desenvolveu uma cultura que construiu o senso comum e a perceção de que qualquer tentativa de contrastar os percursos dos oponentes da esquerda, em primárias, é “negativo” e, portanto, destrutivo.
Essa cultura, claramente, é o fator estrutural que permanecerá para além da campanha de Bernie, e é um enorme problema. É uma nova tirania do decoro que visa convencer os eleitores a valorizar e a colocar a etiqueta, a gentileza e a unidade partidária acima de tudo o resto – até mesmo acima dos seus próprios interesses económicos.
Lembremo-nos: acabámos de assistir às primeiras primárias presidenciais democratas da história moderna na qual os candidatos se recusaram a criticar uns aos outros, de forma séria e sustentada.
Houve certamente momentos esporádicos, mas em comparação com primárias do passado, este foi um assunto tabu. Se o leitor por alguma razão acha que estas primárias foram particularmente “negativas” porque Bernie lembrou gentilmente e de vez em quando o voto favorável de Joe Biden à Guerra do Iraque, o leitor é deve ser Rip van Winkle a acordar de um sono de cinquenta anos.
Talvez o leitor nunca tenha visto anúncios democratas contra Howard Dean em 2004; talvez nunca tenha visto anúncios de Hillary Clinton a descrever Barack Obama como corrupto; e nunca tenha ouvido anúncios e discursos de Obama a retratar Hillary Clinton como um fantoche de lobistas corporativos.
A dinâmica oposta definiu as primárias de 2020. Enquanto o setor da saúde lançava anúncios a difamar o plano Medicare for All de Bernie, e ao mesmo tempo que um super PAC exibia anúncios afirmando que Bernie não poderia ganhar a eleição presidencial, a tirania do decoro dominava o discurso dos candidatos.
Sempre que Bernie fazia uma menção passageira a um dos votos errados de Biden, havia acusações exageradas de que Bernie estava “a tornar-se negativo” e avisos manuscritos sobre os “perigos de se tornar negativo”, com a equipa de Biden a derramar lágrimas de crocodilo por “ataques negativos”.
Esta treta óbvia transformou-se rapidamente em ataques a membros da campanha de Bernie que ousaram apontar falhas no percurso de Biden. Turner e a secretária de imprensa Briahna Gray foram constantemente demonizados nas redes sociais, e eu próprio fui rotulado de “cão de ataque” tóxico pelo alto crime de twittar esporadicamente ligações para discursos de Biden do Arquivo do Congresso.
Esta tentativa de transformar em escândalos a críticas política supostamente refletia preocupações crescentes sobre “elegibilidade”, a ideia promovida por políticos e especialistas democratas de que contrastes acentuados poderiam enfraquecer o eventual candidato democrata contra a ameaça existencial de Trump.
No entanto, a história demonstra exatamente o oposto: primárias duras e brutais resultam, frequentemente, em nomeações de candidatos testados e fortalecidos por batalhas (ver: Presidente Barack Obama). Da mesma forma que as ligas secundárias podem preparar os jogadores para a primeira divisão, disputas brutais dentro do mesmo partido submetem a teste os eventuais porta-estandartes, detendo possíveis pontos fracos numa fase inicial quando um partido ainda pode optar por uma nomeação diferente.
Por outro lado, primárias dominadas por apelos ao “decoro”, à “unidade” e à “decência” criam glorificação – e a glorificação corre o risco de criar candidatos que não foram submetidos adequadamente ao teste da estrada, e que são apenas examinados publicamente durante as eleições presidenciais, bem depois de o partido poder optar por uma escolha diferente.
E é aqui que chegamos: a uma tirania do decoro que nos deu um presumível candidato, cujo percurso não foi adequadamente examinado ou contestado.
Uma última coisa verdadeira: primárias contestadas são positivas
De facto, é verdade: os lamentos democratas à volta do “estão a ser muito negativos!” – e todos os truques excessivamente dramáticos sobre tweets com vídeos do C-SPAN – funcionaram nas primárias. As táticas escandalizaram com êxito qualquer escrutínio legítimo do percurso de Biden, a ponto de pequenas críticas a votos específicos de Biden serem imediatamente retratadas como uma “controvérsia”, livre de substância, sobre o tom.
Mas estas mesmas táticas baratas – os lamentos sobre a negatividade, as lamúrias e os truques dramáticos – não vão funcionar quando Donald Trump gastar um bilião de dólares em anúncios negativos a bater nos votos de Biden a favor do NAFTA e da lei de falências, votos cuja defesa Biden poderia ter mais bem preparada se os votos tivessem sido debatidos nas primárias. Biden pode ainda conseguir derrotar Trump (e eu já disse que espero que o consiga), mas estas primárias relativamente suaves não o fortalecem para a eleição presidencial.
Olhando para lá de 2020, não podemos permitir que este culto sufocante ao decoro defina a cultura política do Partido Democrata. Devemos reter que a disputa intra-partidária é boa nas primárias.
Hillary a bater-se com Obama foi bom. Obama a bater-se com Hillary foi bom.
O mesmo é válido para as eleições secundárias: Ned Lamont a disputar uma campanha difícil contra Joe Lieberman, foi bom. Alexandria Ocasio-Cortez, a acabar com a carreira política de Joe Crowley, foi bom.
As primárias de 2020 foram agradáveis, civilizadas e educadas – e isso é mau.
Estamos no meio de emergências desagradáveis, indelicadas e grosseiras que ameaçam o nosso país e o nosso planeta. Uma pandemia global não será parada por subtilezas. As grandes empresas que lucram com a crise da saúde não serão vencidas com boas maneiras. Os gigantes dos combustíveis fósseis que agravam o cataclismo climático não serão dissuadidos pela gentileza. E as eleições não serão vencidas colocando o bom decoro acima de tudo.
Em resumo: impedir contrastes e conflitos reais de ideias beneficia apenas o establishment e os seus políticos, que sabem que o escrutínio enfraquecerá o seu poder para decidir disputas de nomeações e o controlo do futuro.
Mas vencer disputas sem avaliação real não apenas serve o poder corporativo, como também põe em risco a qualidade muito elogiada pela qual os partidos afirmam importar-se tanto: a “elegibilidade” na eleição presidencial.
David Sirota é comentador político e foi conselheiro principal na campanha eleitoral de Bernie Sanders em 2020.
Texto publicado na revista Jacobin.
Tradução de João Garcia Rodrigues para o Esquerda.net.