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“Muita gente se politizou pela primeira vez graças ao Bernie”

Molly Armstrong é uma das organizadoras dos Democratic Socialists of America na região de East Bay, na Califórnia, onde Bernie Sanders venceu as primárias. E contou ao esquerda.net como a sua organização tem acolhido e mobilizado os novos ativistas. Entrevista de Miguel Heleno, em Oakland.
Molly Armstrong junto a uma figura em tamanho real de Bernie Sanders durante a campanha das primárias.

O que é a DSA?

Democratic Socialists of America (DSA) é uma organização a nível nacional nos Estados Unidos que tem cerca de 60 mil membros. É uma organização com adesão voluntária mas em que todos os membros pagam quotas. Somos uma organização socialista - como o nome indica, Socialistas Democratas da América -, o nosso núcleo conta com cerca de 1.200 pessoas e agora estamos a apoiar a candidatura de Bernie Sanders à presidência em 2020.

Como tem corrido a campanha? Como é que a organizaram e que relação têm com a campanha central de Bernie Sanders?

A nível nacional, fizemos um apelo para que Bernie se candidatasse à presidência ainda antes dele anunciar a decisão, estávamos então em 2018. Isto porque sabíamos que ele apoiava os temas em que acreditamos: aumentar o poder da classe trabalhadora e trazer temas como o “Medicare para todos” para a linha da frente destes combates. Então, apelámos a que ele se candidatasse em 2018, ele anunciou a sua candidatura em 2019. A seguir apoiámos oficialmente a candidatura e começámos a nossa campanha local no verão de 2019.

 
Fazemos uma campanha independente, ou seja, não nos coordenamos com a campanha oficial. Escolhemos essa forma porque em primeiro lugar queríamos manter a nossa independência na forma como passamos a mensagem. Sabemos que o Bernie se candidata pelo Partido Democrata e que isso acarreta muitas contradições na forma como o socialismo pode ser apresentado. Queríamos ter a certeza de que nosso apoio não põe em causa a nossa autonomia para apresentar e defende coisas que os socialistas querem e não necessariamente as que os Democratas querem. Isso deu-nos muita flexibilidade.

A segunda razão para termos uma campanha independente é que todas as organizações locais fizeram campanha no terreno antes a campanha oficial aparecer. Na Califórnia as primárias foram a 3 de março, mas começámos a campanha no fim do verão passado. Tivemos muitos meses para construir a infraestrutura aqui que não conseguiríamos fazer através da campanha central. O que dizemos às pessoas é que temos uma campanha independente porque lutamos pelas mesmas coisas que Bernie luta, mas já estávamos aqui antes da campanha chegar e continuaremos aqui depois da campanha acabar.


Algumas das ações de campanha estão a replicar ações que vocês já tinham feito junto dos movimentos sociais. Que tipo de pessoas têm conseguido juntar?

A DSA existe há várias décadas mas só conseguiu crescer bastante desde a última campanha de Sanders e a eleição de Trump. Cresceu de 6.000 membros a nível nacional para 60.000. Quase toda a gente que se juntou é nova na esquerda, na organização e na política. Tal como eu, que não estava envolvida na política antes disto. Muitos de nós têm agora três ou quatro anos de experiência nestas coisas. O que começámos a fazer aqui desde 2016 foi começarmos a organizar em torno do “Medicare para todos”, um dos temas de debate na Califórnia. Fizemo-lo em grande medida para consciencializar as pessoas sobre esta questão de mudar o sistema de saúde virado para o lucro para um que não ponha o lucro acima das pessoas. Mas também para construir a nossa organização e ensinar às pessoas como se podem organizar e construir a capacidade organizativa que temos hoje, pois boa parte das pessoas nunca tinha feito nada disso antes.

Aproveitámos isso também para outros projetos que temos feito. Um dos principais, e que me entusiasmou muito, foi no ano passado, quando o núcleo sindical de professores de Oakland fez uma greve pela primeira vez desde 1996. Demos o nosso apoio na preparação, eles fizeram a sua própria recolha de apoios, ajudámo-los nos piquetes de greve. Uma das coisas em que mais me envolvi foi a campanha “Bread for Ed”, que angariou quase 200 mil dólares para apoio alimentar aos estudantes e professores em greve. A maioria dos estudantes e das suas famílias vive em insegurança alimentar. E vão à escola tomar o pequeno almoço e o almoço. Nós não queríamos que a comida fosse uma das razões para que as pessoas furassem o piquete de greve. Juntámos muito dinheiro e arranjámos a comida para evitar que as pessoas entrassem nas escolas. Acabámos por cirar uma excelente relação com os professores.

Este apoio que lhes demos foi uma primeira experiência de lutas para muita gente. Muitos dos nossos membros não se consideram como fazendo parte da classe trabalhadora e esta foi uma boa oportunidade para sentirem o que é fazer parte da luta. E aproveitámos isso também para a campanha do Bernie. Há outros projetos em andamento, mas esses para mim são os mais importantes.


Quais são os próximos passos? Agora as primárias na Califórnia acabaram e vocês ainda apoiam as campanhas noutros estados. Independentemente do que aconteça nestas primárias, quais as perspetivas para o DSA?

Para os que têm organizado o DSA há alguns anos, chegámos a um ponto em que percebemos que estamos a receber imensas pessoas que graças ao Bernie se politizaram pela primeira vez, tal como me aconteceu a mim. A questão é como fazer a transição desta ação de voluntariado para a consciência do que é ser socialista e ter uma análise socialista do que se passa à nossa volta. Por isso começamos todas as reuniões com um ponto de formação política, com uma discussão coletiva à volta de um texto, antes de passarmos ao ponto de organização de campanhas e eventos.

Creio que isso tem funcionado, porque construímos uma capacidade organizativa em que as pessoas já sabem como fazer o trabalho de convencimento e de falar com as outras pessoas sobre os assuntos realmente importantes, o que é muito difícil para muita gente conseguir. Têm mais confiança em si próprias, politicamente e na sua capacidade de fazer coisas.

Temos discutido o futuro e vejo duas prioridades: os professores ainda estão em luta por causa dos encerramentos de escolas, sobretudo em bairros de maioria latina e negra. Há uma luta para impedir que a situação piore. O segundo aspeto tem a ver com o sistema de saúde público em Oakland e toda a East Bay, que está muito subfinanciado e numa situação quase caótica. Os sindicatos estão a negociar e o contrato coletivo está quase a expirar nas próximas semanas. Começámos agora a discutir como os vamos apoiar, dado que estão a preparar uma greve. São essas as duas prioridades.

Entrevista a Molly Armstrong (DSA - East Bay/Califórnia) | ESQUERDA.NET

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