Vicente Ferreira

Vicente Ferreira

Economista

O choque de preços provocado pela guerra não afeta todos da mesma forma. Dos combustíveis à eletricidade, passando pelos juros, as opções de política determinam a distribuição dos custos.

O cenário atual envolve riscos relevantes. Se os preços do petróleo se mantiverem elevados e se os danos provocados pelas tempestades se traduzirem numa subida do preço dos alimentos durante os próximos meses, Portugal pode enfrentar novas pressões sobre o custo de vida.

Há uma parte importante do custo de vida que está a ser subestimada pelos indicadores. Neste aspeto, a economia portuguesa destaca-se pela negativa. Portugal foi o país da UE em que o fosso entre os rendimentos e os preços da habitação mais aumentou na última década.

Como Ficar Rico em 2025?”, questionou a revista The Economist. No entanto, a resposta da revista é menos animadora: a melhor estratégia parece passar, cada vez mais, por nascer na família certa. A revista chamou a este fenómeno a “nova herançocracia”.

A pobreza não é apenas consequência de salários ou pensões baixas; é, cada vez mais, um reflexo do custo de vida. Atualmente, a pobreza esconde-se atrás de rendas incomportáveis e da inflação de bens essenciais, de uma forma que escapa aos indicadores que usamos para a medir.

É difícil discutir o futuro da economia sem que surja o tema da inteligência artificial. Para saber o que nos espera, é preciso perceber o que explica o crescimento impressionante da IA, de que forma está a mudar a economia e como se distribuem os ganhos (e os custos) da tecnologia.

Há uma componente especulativa associada ao investimento estrangeiro e à natureza da habitação, que se tornou um ativo financeiro seguro e apetecível para os investidores. Portugal é, de resto, apontado como o país da UE onde a acessibilidade mais se deteriorou.

Nos últimos meses, os preços dos alimentos têm sido o principal motor da inflação em Portugal. O custo de vida não está a ser devidamente avaliado com base no indicador da inflação, que é o referencial usado nas negociações salariais e na atualização das pensões e de outros apoios sociais.

A reforma laboral apresentada por cá não ajuda a combater os problemas do modelo de crescimento português e, pelo contrário, contribui para os acentuar: a flexibilização que tem como principal objetivo reduzir os custos laborais beneficia sobretudo as empresas em setores intensivos em trabalho.

As limitações do indicador da inflação não são apenas detalhes técnicos. Se o indicador subestima o aumento do custo de vida, traduz-se em aumentos de salários ou pensões que acabam por ser mais baixos do que os que seriam necessários para travar a perda de poder de compra.