Vicente Ferreira

Vicente Ferreira

Economista

Além de funcionarem como entrave ao investimento público verde, as novas regras orçamentais europeias também podem acentuar a tendência de divergência entre os países mais desenvolvidos da UE e os restantes.

A maioria dos jovens ganha pouco ou nada com descidas do IRS e do IMT, mas tem muito a perder com cortes nos serviços públicos, com a aposta cada vez maior em serviços privados em áreas como a saúde, com as políticas que promovem a especulação imobiliária.

O BCE continua a resistir à descida das taxas de juro e o principal motivo referido para essa resistência é o "mercado de trabalho forte" - leia-se, o facto da política monetária ainda não ter provocado o aumento do desemprego pretendido.

Todos estamos desiludidos com o desfecho das eleições e a perspetiva de um governo de direita apoiado pela extrema-direita é angustiante. No entanto, face a um resultado tão negativo para o conjunto da esquerda, vale a pena tirar algum tempo para refletir sobre o que se passou.

O próximo governo terá um desafio fundamental: conseguir que a economia portuguesa abandone o modelo de baixos salários. Parece haver consenso à esquerda sobre a importância das políticas públicas, mas também há diferenças significativas nas propostas para aumentar salários, reforçar direitos no trabalho e responder à crise da habitação.

A direita promete descidas de impostos para todos, mas não fala sobre o reverso da medalha: o regresso às políticas de austeridade e às privatizações. Quer privatizar os serviços públicos e a promessa de redução de impostos beneficia as grandes empresas e os cidadãos com maiores rendimentos.

A AD pede-nos para “acreditar na mudança”. Mas o programa que apresenta é um misto de medidas de eficácia muito duvidosa com outras que representam essencialmente a continuidade do modelo de crescimento da última década, assente na monocultura do turismo e na bolha imobiliária.

Quando culpa os impostos pela emigração, a direita não está a falar para todos os jovens, mas para os ricos. Há décadas que nos vendem o sonho liberal, mas a vida da maioria está hoje pior. Os jovens emigram por causa dos baixos salários, da precariedade, da crise da habitação e do desinvestimento público.

O governo do PS foi incapaz de tomar medidas sérias para combater a subida dos preços da habitação e a crise habitacional é o resultado do modelo de crescimento adotado ao longo dos últimos anos: a monocultura do turismo e do imobiliário.

Em dez anos, a qualidade do serviço piorou, os preços aumentaram e o Estado perdeu mais um ativo, tudo em benefício de um grupo de acionistas privados. Recuperar o controlo público é o mínimo.