Vicente Ferreira

Vicente Ferreira

Economista

Portugal continua a ser um dos países onde maior percentagem das pessoas é incapaz de comportar uma semana de férias por ano. Os preços do alojamento e de serviços como a restauração excluem boa parte das pessoas que vivem e trabalham em Portugal.

As primárias para eleger o candidato do Partido Democrata à câmara de Nova Iorque tiveram um vencedor surpresa: Zohran Mamdani. Ele ganhou com um conjunto de propostas centrado no combate à crise do custo de vida, do controlo de rendas à gratuitidade de transportes públicos e creches.

Ao definir um alvo demasiado baixo para a inflação considerada aceitável, os bancos centrais são mandatados para aplicar uma política de subida dos juros que não afeta todos da mesma maneira. No caso da Zona Euro, as decisões do BCE não só afetam de forma diferente grupos sociais diferentes, como têm impactos diferentes nos diferentes países.

Este texto discute três aspetos que ajudam a explicar porque é que o crescimento da economia não se reflete necessariamente na qualidade de vida de muitas pessoas: o modelo de crescimento que temos, o aumento (subestimado) do custo de vida e o desinvestimento público.

Embora, no ano passado, o primeiro-ministro tenha afirmado que “o equilíbrio das contas não é o fim da nossa política” e que “há vida para além do excedente orçamental”, a política seguida não tem correspondido ao discurso.

As propostas de revisão constitucional na área da economia têm sido apresentadas como "ideologicamente neutras", mas estão longe de o ser e têm impactos profundos na nossa vida.

A inflação não mede a evolução do custo de vida da maior parte das pessoas. Portugal foi o país da OCDE onde o fosso entre os salários e os preços das casas mais aumentou na última década.

É um erro olhar para a descida de impostos como a resposta para os problemas de fundo da economia portuguesa. O que sabemos é que as principais beneficiadas desta medida serão as empresas que menos precisam.

O outro lado da moeda das reduções de impostos são a quebra da receita com que se financiam os serviços públicos disponíveis para todos. Só as alterações ao IRS Jovem têm um impacto estimado de mais de €500 milhões para o Estado.

O tipo de inflação que tivemos nos últimos anos tende a penalizar mais quem ganha menos. Ao aumentar as taxas de juro, os bancos centrais operaram uma transferência de rendimento das famílias e do setor produtivo para o setor financeiro.