Faleceu esta segunda-feira o papa Francisco aos 88 anos. Na véspera, apesar da saúde debilitada, fez uma última aparição pública na Praça São Pedro para desejar boa Páscoa à multidão presente. Na sua mensagem Urbi et Orbi lida por Diego Ravelli, defendeu a paz e o desarmamento, apelou ao cessar-fogo em Gaza e à libertação dos reféns.
Nascido em 1936, Jorge Mario Bergoglio foi padre jesuíta, bispo auxiliar e arcebispo de Buenos Aires, cidade onde nasceu e cresceu, vindo a tornar-se o primeiro papa jesuíta, das Américas e do Hemisfério Sul. O pontificado do papa Francisco acabou por desmentir os prognósticos dos que o apontavam, quando foi escolhido para liderar a igreja católica em março de 2013, como um representante da ala conservadora do clero argentino com ligações à ditadura.
Pelo contrário, Francisco - nome que escolheu em referência a São Francisco, o amigo dos pobres e dos pássaros - tornou-se o papa mais popular de sempre pelas suas posições corajosas a favor dos pobres e oprimidos. A sua primeira viagem, em junho de 2013, foi ao porto de Lampedusa para denunciar a “globalização da indiferença” e as políticas que são insensíveis ao destino “dos imigrantes mortos no mar, nestes barcos que, em vez de serem um caminho da esperança, foram uma rota para a morte”, numa homilia que deixou o governo italiano incomodado. Três meses depois encontrou-se com Gustavo Gutierrez, fundador da Teologia da Libertação, com o jornal do Vaticano a publicar pela primeira vez um artigo favorável a este pensador. Na Bolívia, em 2015, homenageou o padre jesuíta Luis Espinal de Campos, envolvido nas lutas sociais e morto durante a ditadura naquele país. E recebeu das mãos do então Presidente Evo Morales uma escultura feita pelo mártir: uma cruz sobre uma foice e um martelo em madeira.
Ainda no primeiro ano do pontificado o papa Francisco fez questão de sublinhar o seu pensamento sobre o sistema económico vigente, associando o mandamento de “não matar” à necessidade de recusar uma economia da exclusão e da desigualdade social. “Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão”, afirmou na exortação apostólica Evangelii Gaudium.
Francisco “foi o Papa da ecologia integral”
Num artigo publicado em 2023, o sociólogo Michael Löwy destaca a influência na formação política intelectual e espiritual do papa Francisco da chamada “teologia do povo”, uma variante argentina não marxista da teoria da libertação, cujos principais inspiradores são Lucio Gera e o teólogo jesuíta Juan Carlos Scannone. Uma teologia que não reivindica a luta de classes mas reconhece o conflito entre o povo e o “anti-povo”, tomando partido pelos pobres. Löwy defende que Francisco foi além dos seus inspiradores com a autoria da Encíclica Laudato Si, em 2015, considerando-a “uma contribuição crucial para o desenvolvimento de uma consciência ecológica crítica” e uma crítica radical da irresponsabilidade da oligarquia financeira.
Francisco “foi o Papa da ecologia integral”, diz o dirigente bloquista e professor de Direito Internacional José Manuel Pureza, que vê nesta encíclica “um texto de diagnóstico fino dos mecanismos estruturais que conduzem ao desastre climático”, mas sobretudo ”uma convocação à articulação necessária entre resposta ecológica e justiça social, que ele expressou na necessidade de encarar o grito dos pobres e o grito da Terra como um só desafio”.
“O seu pontificado fica marcado pela centralidade conferida aos pobres, que não hesitou em qualificar como evangelizadores da Igreja”, acrescentou Pureza em declarações ao Esquerda.net, destacando ainda a clarificação “da crítica ao neoliberalismo, associando-o a uma ‘economia que mata’ e a uma cultura de descarte dos mais frágeis”. E sem esquecer “a tolerância zero com que abordou os abusos sexuais na Igreja, rompendo com a inércia cúmplice que marcara os pontificados anteriores”.
José Manuel Pureza é um dos promotores da DIALOP - Plataforma de Diálogo entre Cristãos e Marxistas -, uma iniciativa bem acolhida desde o início pelo papa Francisco, que “fez questão de nos receber no Vaticano” para um encontro no qual considerou a iniciativa como "um belo programa”.
Nas redes sociais, a coordenadora do Bloco de Esquerda também reagiu à notícia da morte do papa Francisco: "Pediu a Paz. Nos últimos dias, exigiu o cessar-fogo em Gaza e opôs-se à corrida ao armamento. Condenou o ódio contra imigrantes e a "economia que mata". Fez opção pelos pobres e pelo cuidado da Terra, casa comum. Crentes ou não crentes, a todos Francisco deu esperança", afirmou Mariana Mortágua.
Esse compromisso com os pobres seria sublinhado inúmeras vezes ao longo dos quase doze anos de pontificado, como na Encíclica Fratelli tutti e na posterior comunicação à conferência da Organização Internacional do Trabalho, alertando que direito à propriedade privada é "secundário" em relação ao "destino universal dos bens". No início da pandemia, Francisco elogiou os governos que puseram as pessoas em primeiro lugar e assim evitaram o “genocídio viral” que resultaria da escolha contrária.
Noutra das suas posições inéditas da história dos líderes do Vaticano, Francisco defendeu que “os homossexuais têm direito a fazer parte de uma família” e afirmou ter lutado enquanto arcebispo de Buenos Aires por uma lei de uniões civis para casais do mesmo sexo. Em relação aos escândalos de abusos sexuais por parte do clero católico, reconheceu em 2018 ter cometido “erros graves de avaliação e perceção da situação” no caso que envolveu a igreja católica chilena. Meses antes tinha aparecido ao lado do bispo Juan Barros, acusado de encobrimento pelas vítimas do padre Fernando Karadima, afirmando que aquele estava a ser alvo de “calúnias”. Francisco pediu perdão às vítimas e comprometeu-se a ter “tolerância zero” com os abusos.
Foi também no pontificado de Francisco que o Vaticano repudiou a colonialista “doutrina da descoberta” do século XV, nas bulas papais usadas na altura pelas potências coloniais para justificar a legitimidade das suas invasões e da escravatura. A igreja católica passou agora a afirmar que as bulas “não refletiam adequadamente a igual dignidade e direitos dos povos indígenas” e que “é justo reconhecer estes erros, admitir os efeitos terríveis das políticas de assimilação e a dor vivida pelos povos indígenas e pedir perdão”. Um perdão que foi pedido em várias visitas de Francisco à América latina e também à zona ártica do Canadá durante o escândalo de abusos sobre crianças das comunidades indígenas nas escolas católicas.
Uma voz em defesa dos migrantes e da paz na Palestina e na Ucrânia
O destino dos migrantes, que foi objeto da primeira visita papal em 2013 a Lampedusa, foi tema a que Francisco muitas vezes regressou, à medida que foram crescendo as forças apoiantes da xenofobia e do racismo na Europa. Numa das suas visitas à ilha grega de Lesbos, descreveu o Mediterrâneo como “um cemitério frio sem lápides” e voltou a apelar a “parar com este naufrágio da civilização”.
Também os conflitos em Gaza e na Ucrânia obrigaram o papa Francisco a posicionar-se, no primeiro caso recebendo familiares de reféns israelitas e de prisioneiros palestinianos nas primeiras semanas da invasão israelita da Faixa de Gaza, sobre a qual declarou que “aqui fomos além das guerras. Isto não é guerrear, isto é terrorismo.”
Ao longo dos três anos de guerra na Ucrânia, o papa Francisco foi sempre uma voz em defesa da paz e da via negocial para resolver o conflito, o que lhe valeu críticas por parte de embaixadas ocidentais. Em agosto passado, Francisco criticou abertamente a Ucrânia por ter aprovado uma lei a proibir a presença no país das comunidades ligadas ao Patriarcado Ortodoxo de Moscovo. “Deixemos que aqueles que querem rezar, rezem naquela que consideram ser a sua Igreja. Por favor, que nenhuma Igreja cristã seja abolida, direta ou indiretamente. Nas Igrejas não se toca”, pediu.