Memória

Maio de 68: A Revolta sem Revolução

23 de maio 2026 - 11:32

Maio de 68 não foi apenas uma revolta de estudantes, nem apenas uma explosão geracional, nem apenas uma revolução dos costumes. O seu núcleo histórico decisivo foi a entrada em cena da classe trabalhadora francesa.

porDinis Ramos

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Trabalhadores à porta de fábrica ocupada no sul de França
Trabalhadores à porta de fábrica ocupada no sul de França. Foto de George Garrigues./Wikimedia Commons

Numa revolução, tudo acontece com uma rapidez incrível, tal como nos sonhos, em que as pessoas parecem estar livres da gravidade…

— Gustav Landauer, Revolution (1907)

A frase de Gustav Landauer capta com enorme precisão a atmosfera do Maio francês. Durante algumas semanas, a sociedade francesa pareceu suspender as suas leis habituais. A hierarquia perdeu a sua naturalidade. O trabalho parou. A universidade transformou-se em assembleia. A rua converteu-se em tribuna. A fábrica deixou de ser apenas lugar de produção e tornou-se espaço político. O impossível, durante alguns dias, deixou de parecer uma categoria metafísica para se tornar palavra de ordem: “Sejam realistas, exijam o impossível.”

Muro grafitado por estudantes, Paris, 1968.
Muro grafitado por estudantes, Paris, 1968.

Mas a força poética de Maio não deve obscurecer a sua materialidade. Maio de 68 não foi apenas uma revolta de estudantes, nem apenas uma explosão geracional, nem apenas uma revolução dos costumes. O seu núcleo histórico decisivo foi a entrada em cena da classe trabalhadora francesa, através de uma greve geral que envolveu milhões de trabalhadores e paralisou o país. Ernest Mandel tinha razão ao sublinhar que o facto determinante de Maio foi a participação massiva do proletariado, não como simples força de apoio, mas como sujeito capaz de interromper o funcionamento normal da sociedade capitalista. A burguesia francesa e europeia não pôde ignorar esse acontecimento: a classe que muitos teóricos julgavam integrada, domesticada ou sociologicamente dissolvida reapareceu como potência histórica.

Maio de 1968 permanece como um dos acontecimentos mais enigmáticos do século XX europeu. Um momento em que a possibilidade revolucionária apareceu com uma intensidade quase palpável. Não tendo chegado a cristalizar-se numa transformação socialista do Estado, da propriedade e do poder, demonstrou, no entanto, que uma grande explosão anticapitalista sempre é possível.

É precisamente aí que reside o paradoxo. A revolta não irrompeu num país atrasado, rural, economicamente devastado ou politicamente arcaico. Pelo contrário, ocorreu na França gaullista, frequentemente apresentada como modelo de modernização capitalista, planificação económica, expansão industrial e estabilidade social. A crise não se deu à margem do capitalismo avançado, mas no seu centro; não explodiu apesar da modernização, mas por dentro dela. O Maio francês foi a revelação de que o capitalismo do pós-guerra, mesmo no seu momento de prosperidade, continuava assombrado pelas suas contradições fundamentais: exploração, alienação, dominação burocrática, divisão entre dirigentes e executantes, separação entre vida privada e vida pública, entre saber e poder, entre trabalho e liberdade.

Assim, Maio de 68 deve ser pensado como uma condensação histórica. Nele se cruzaram a crise da universidade burguesa, a insatisfação operária, a revolta contra o imperialismo norte-americano no Vietname, o questionamento do estalinismo e da burocracia soviética, a crítica da moral conservadora, a emergência de novas formas de subjetividade política, a luta contra o racismo, o sexismo e a autoridade patriarcal. Foi um acontecimento francês, mas nunca apenas francês. A sua singularidade consistiu em condensar, num espaço nacional concreto, uma crise mais vasta da ordem mundial do pós-guerra.

Dissemos «não», na realidade a muitas coisas. A cronologia, porém, da deflagração de um acontecimento como Maio de 68 constitui uma questão um tanto quanto enigmática. Pode-se falar no 22 de março, mas, de certa maneira, o processo começou antes, durante todo o ano que precedeu o início do movimento, a explosão de 22 de março, o 10 de maio, as barricadas, o 17 de maio, a greve geral, etc. Vê-se, ao longo de 1967, o surgimento de diferentes elementos que vão se reunir em 68.

— Daniel Bensaïd

As contradições do capitalismo ocidental em aparente "boom" económico

Para compreender Maio de 68, é necessário começar pelo seu cenário histórico. O crescimento económico do pós-guerra, consagrado pelo economista liberal Jean Fourastié, sob a designação de “Les Trente Glorieuses” (Os Trinta Gloriosos), não eliminara a contradição fundamental entre capital e trabalho; apenas a deslocou, a dissimulou e a revestiu com a aparência ideológica da prosperidade. Entre 1945 e meados da década de 70, o capitalismo ocidental apresentou-se como uma ordem reconciliada consigo mesma: crescimento contínuo, relativa estabilidade social, expansão do consumo de massas e promessa de integração das classes trabalhadoras no horizonte burguês do bem-estar. Contudo, essa aparente harmonia não significava a superação dos antagonismos sociais, mas antes a sua suspensão provisória sob a forma de uma paz administrada.

Proclamava-se, com a segurança própria das classes dominantes, o fim das grandes convulsões. As guerras mundiais pareciam pertencer ao passado, as crises económicas pareciam administráveis, a luta de classes era frequentemente tratada como resíduo arcaico do século XIX. O capitalismo do pós-guerra afirmava ter resolvido os seus dilemas históricos: crescimento contínuo, pleno emprego relativo, consumo de massas, integração sindical e planificação estatal. A sociedade burguesa via-se a si mesma como uma totalidade pacificada, onde o conflito teria sido absorvido pela técnica, pela gestão e pela abundância material.

Contudo, essa aparente harmonia não significava a superação dos antagonismos sociais. O crescimento económico não aboliu a exploração; apenas a tornou compatível com o aumento relativo do consumo. A planificação estatal não dissolveu o poder do capital; antes o racionalizou. A expansão universitária não libertou o saber; integrou-o progressivamente nas necessidades da produção, da gestão e da reprodução ideológica da sociedade burguesa. O consumo de massas não aboliu a alienação; apenas a revestiu com novas mercadorias.

Na França dos anos 60, esta contradição tornava-se particularmente evidente. O governo gaullista proclamava a grandeza nacional, a modernização económica e a autonomia estratégica da França. Mas, sob essa retórica de soberania e progresso, desenvolvia-se uma reorganização profunda das instituições sociais. A universidade, antes reservada a uma minoria, começava a massificar-se. Nos anos 60, apenas uma pequena fração de cada geração concluía o ensino secundário e acedia ao ensino superior, mas essa fração crescia rapidamente. A universidade deixava de ser apenas espaço de formação das elites tradicionais para se tornar aparelho de produção de quadros técnicos, administrativos e científicos necessários ao capitalismo avançado.

Essa transformação produziu um desfasamento explosivo. A juventude estudantil era chamada a participar num mundo moderno, técnico e supostamente racional, mas encontrava instituições autoritárias, pedagogias hierárquicas, moral sexual conservadora e perspetivas profissionais marcadas pela submissão burocrática. A promessa de liberdade individual chocava com a experiência concreta de uma vida previamente organizada pelo capital, pela família, pela universidade e pelo Estado. A modernização, longe de significar emancipação, aparecia como uma forma superior de disciplina.

A crise de Maio nasceu desse desfasamento entre a promessa de liberdade e a experiência real da alienação. Não foi uma revolta da miséria absoluta. Foi, mais profundamente, uma revolta contra a pobreza de sentido no interior da abundância. A sociedade capitalista prometia integração, consumo e carreira; uma parte da juventude respondeu exigindo vida, autonomia e transformação. Como escreveram os situacionistas, a crítica não se dirigia apenas à pobreza material, mas à “sobrevivência” como forma empobrecida de existência. O problema não era apenas ter pouco, mas viver sob uma ordem que reduzia o desejo, o tempo e a inteligência à lógica da mercadoria e da obediência.

Neste sentido, o Maio francês rasgou o véu ideológico dos “Trinta Gloriosos”. Revelou que, por detrás do boom económico, persistia a velha estrutura da dominação: o capital continuava a organizar o trabalho, o saber, o desejo e o tempo vivido. A revolta não nasceu fora da modernização capitalista, mas no seu coração. Foi precisamente no centro da abundância que se tornou visível uma pobreza mais profunda: a pobreza de autonomia, de participação e de existência verdadeiramente livre.

A universidade como laboratório da crise

O testemunho de Bensaïd mostra nos também que os protagonistas não tinham plena consciência do alcance histórico do que estavam a viver. Muitos acontecimentos surgem no seu relato como improvisações, desvios, acidentes, respostas imediatas a uma prisão, a uma provocação, a uma notícia vinda de Berlim ou a uma intervenção policial. Só a posteriori é que esses momentos aparecem como sinais de uma mudança mais profunda. O movimento estudantil de Maio de 68 foi, nesse sentido, uma construção imprevisível: nasceu da combinação entre preparação militante e acaso, entre teoria e espontaneidade, entre disciplina revolucionária e anarquia criativa.

O movimento estudantil francês não foi o sujeito único de Maio de 68, mas foi a sua faísca inicial e uma das suas formas mais inventivas.

Como nos indica Francisco Louçã, o primeiro pressagio do tumulto que viria ser Maio de 68, foi o aprisionamento no dia 20 de março, do estudante Xavier Langlade, e dirigente de um pequeno grupo de discordantes do Partido Comunista Francês (PCF). Em seguida, no dia 22 de março, antes greve geral, antes da crise aberta do regime, não no coração de Paris, mas na sua periferia. A Universidade de Nanterre, nos arredores da capital, foi o palco improvável onde estudantes ocuparam as instalações em protesto. As queixas eram múltiplas: o ensino superior era arcaico, os métodos pedagógicos continham um enorme cariz autoritário, era uma formação que os alienava da realidade ao invés de aproximar. Havia também reivindicações que hoje parecem menores, mas que simbolizavam o conservadorismo sufocante da época, os dormitórios separados por sexo, por exemplo, eram vistos como um anacronismo intolerável em pleno século XX.

Estas críticas pontuais, porém, eram apenas a superfície das tensões. Por baixo delas fermentava algo maior: uma recusa generalizada da ordem estabelecida que viria a despoletar no dia 5 de Maio. De Nanterre, a contestação estudantil saltou para a Sorbonne. E foi aí que o conflitou se agudizou. Quando o reitor, num gesto sem precedentes, chamou a polícia parisiense para dentro da universidade resultando num enorme violento confronto entre dez mil estudantes e as forças policiais no Quartier Latin. No dia 6 de maio de 1968, ocorreram os primeiros confrontos do Maio de 68 nas ruas de Paris. A começar por protestos de anarquistas e estudantes da esquerda radical, a revolta culminou numa greve geral de cerca de 11 milhões de trabalhadores e em ocupações de fábricas e universidades.

Confrontos entre as forças policiais e estudantes, Paris, 1968.
Confrontos entre as forças policiais e estudantes, Paris, 1968.

A noite de 10 para 11 de Maio, conhecida como a “noite das barricadas”, marcou o salto simbólico do movimento. O Quartier Latin foi tomado por barricadas, carros virados, pedras arrancadas da calçada, gás lacrimogéneo, cargas policiais e confrontos prolongados. A barricada, desde 1848, pertence ao imaginário revolucionário europeu. Como observa Enzo Traverso viria a observar, «Desde 1848, a barricada tem sido indissociável da bandeira vermelha» (Revolution: An Intellectual History, p.197). A barricada torna-se assim inseparável da revolução socialista enquanto imagem histórica da insurreição moderna. A barricada dizia: a rua já não pertence inteiramente ao Estado; a cidade pode ser reorganizada; a obediência pode ser interrompida. A violência durante o Maio francês foi, em grande medida, político-ideológica. Não visava aniquilar militarmente o inimigo, mas desnaturalizar a ordem. Nesse sentido, a insurreição estudantil funcionou como revelação. Mostrou que a autoridade não é um destino, mas uma relação social; e, como toda a relação social, pode ser contestada.

Barricadas estudantis, Paris, 1968.
Barricadas estudantis, Paris, 1968.

Intelectualidade orgânica e disputa pelo senso comum

A importância do movimento estudantil reside precisamente na sua capacidade de condensar várias recusas. Recusa da guerra imperialista. Recusa da universidade autoritária. Recusa da moral conservadora. Recusa do social-chauvinismo. Recusa das burocracias políticas. Recusa da separação entre vida privada e vida pública. Recusa da passividade. A juventude estudantil não criou sozinha a crise revolucionária, mas produziu uma linguagem, uma sensibilidade e um repertório de ação que abriram brechas no senso comum dominante.

Aqui, a categoria gramsciana de intelectual orgânico torna-se particularmente fecunda. Para Antonio Gramsci, a luta política não se reduz à tomada do Estado; ela envolve a disputa pela hegemonia, isto é, pela direção moral, intelectual e cultural da sociedade. Uma classe dominante governa não apenas pela coerção, mas pela capacidade de fazer com que a sua visão do mundo pareça natural, evidente, inevitável. A luta revolucionária, por isso, implica uma disputa pelo senso comum: transformar o que parece natural em problema, o que parece eterno em histórico, o que parece privado em político.

O movimento estudantil de Maio funcionou como uma intelectualidade orgânica difusa, ainda que paradoxal em algumas instâncias. Não se tratava de uma vanguarda homogénea ou disciplinada no sentido clássico, mas de uma multiplicidade de grupos, assembleias, jornais, cartazes, palavras de ordem e intervenções que atacavam o núcleo simbólico da sociedade capitalista avançada. O estudante deixava de ser apenas aprendiz de uma profissão futura para tornar-se crítico da função social que lhe era atribuída. A universidade deixava de ser templo neutro do saber para aparecer como aparelho ideológico e técnico da reprodução social.

Os muros de Paris tornaram-se uma filosofia pública. “É proibido proibir.” “Debaixo da calçada, a praia.” “A imaginação ao poder.” “O patrão precisa de ti; tu não precisas dele.” Estas frases não eram simples ornamentos poéticos. Eram condensações teóricas. A sua força estava na capacidade de transformar formulações abstratas em evidências sensíveis. A crítica da alienação, da mercadoria, da autoridade e da burocracia deixava de circular apenas em livros ou círculos militantes; passava a inscrever-se na cidade.

Muros da Sorbonne, Paris, 1968.
Muros da Sorbonne, Paris, 1968.

Esta dimensão cultural não deve ser desvalorizada como se fosse secundária face à “verdadeira” luta económica. Pelo contrário: Maio mostrou que a reprodução do capitalismo moderno depende também da organização dos desejos, da linguagem, do corpo, do tempo livre, da sexualidade e da imaginação. A crítica à universidade, à família, ao patriarcado e à vida quotidiana não era exterior à luta de classes; era uma das suas formas no capitalismo avançado.

Contudo, a força do movimento estudantil era também o seu limite. A sua criatividade não substituía a necessidade de uma estratégia de poder. A sua crítica da autoridade podia transformar-se em incapacidade de construir direção. A sua recusa das burocracias podia dificultar a organização de uma alternativa política duradoura. Maio oscilou permanentemente entre espontaneidade e organização, entre festa e estratégia, entre assembleia e decisão, entre negatividade radical e programa de transição.

A entrada da classe trabalhadora

Se Maio tivesse permanecido uma revolta estudantil, provavelmente teria entrado na história como mais uma crise universitária de grande intensidade. O que o transformou num acontecimento histórico mundial foi a entrada massiva da classe trabalhadora. A partir de meados de Maio, greves e ocupações de fábricas espalharam-se por todo o país. A França foi progressivamente paralisada: transportes, correios, energia, comunicações, indústria automóvel, metalurgia, portos, escolas, serviços públicos. Estima-se que entre sete e dez milhões de trabalhadores tenham aderido à greve, tornando-a a maior greve geral da história francesa e uma das maiores da Europa ocidental do século XX.

Aqui se revela a diferença entre contestação e crise revolucionária. Uma manifestação pode desafiar a legitimidade do poder; uma greve geral desafia a sua materialidade. Quando os trabalhadores param, a sociedade descobre que a sua normalidade depende de uma atividade invisibilizada. Nenhuma roda gira, nenhuma mercadoria circula, nenhuma fábrica produz, nenhum transporte funciona sem o trabalho daqueles que habitualmente são apresentados como subordinados. A greve geral torna visível a verdade escondida da sociedade capitalista: a riqueza social é produzida coletivamente, mas apropriada privadamente.

Por isso, a ocupação das fábricas teve uma importância que ultrapassou a reivindicação salarial. Ocupar uma fábrica é interromper a soberania quotidiana do capital no espaço da produção. É dizer que o patrão não é uma necessidade natural, mas uma função social historicamente determinada. Mesmo quando a ocupação não avança para a autogestão plena, ela suspende o poder patronal e coloca uma pergunta fundamental: quem deve controlar a produção, a riqueza e o Estado?

É neste ponto que a afirmação de Lukács conserva toda a sua força: “a revolução proletária constitui o cerne vivo do marxismo.” (Lenin: A Study in the Unity of His Thought, p.12). O Maio francês mostrou que, mesmo numa sociedade capitalista avançada, tecnicamente moderna e ideologicamente estabilizada, a classe trabalhadora permanecia capaz de paralisar a reprodução social. Os estudantes podiam abrir a crise, radicalizar a linguagem, inventar formas de ação direta; mas só a classe trabalhadora podia transformar a crise cultural e política numa crise material do poder.

Todavia, a relação entre estudantes e trabalhadores foi complexa. Houve solidariedade, encontros, manifestações comuns, tentativas de diálogo e aproximação. Mas houve também desconfiança. Muitos trabalhadores viam os estudantes como filhos da pequena burguesia, portadores de radicalismo verbal, mas afastados da vida fabril. Muitos estudantes, por sua vez, idealizavam a classe operária sem compreender plenamente as suas organizações, tradições e ritmos próprios. A unidade não era dada; precisava de ser construída.

As grandes organizações operárias, sobretudo o Partido Comunista Francês e a CGT, desempenharam um papel ambíguo e decisivo. Por um lado, possuíam implantação real na classe trabalhadora e capacidade de mobilização. Por outro, procuraram conter a crise dentro de limites reivindicativos e eleitorais. A direção comunista desconfiava profundamente dos grupos de extrema-esquerda e da espontaneidade estudantil. A sua estratégia não era a tomada revolucionária do poder, mas a negociação de conquistas sociais e a preservação da sua autoridade sobre o movimento operário.

Os Acordos de Grenelle, negociados no final de Maio entre governo, patronato e sindicatos, propuseram aumentos salariais, redução da jornada em certos sectores e melhorias laborais. Mas em várias fábricas os trabalhadores rejeitaram inicialmente os acordos, demonstrando que a base social estava por vezes mais avançada do que as suas direções. Ainda assim, a ausência de uma alternativa política capaz de unificar a energia das ocupações, dos estudantes e dos sectores radicalizados abriu espaço para a recomposição do poder gaullista.

1968 – 50 anos depois

16 de dezembro 2018

A ausência de revolução na conjuntura revolucionária

Maio de 68 colocou na ordem do dia uma questão clássica da teoria revolucionária: quando é que uma crise social se transforma efetivamente numa revolução? A resposta não pode ser puramente económica. A paralisia da produção, a greve geral e a crise de legitimidade são condições fundamentais, mas não bastam. É necessário que se forme uma alternativa de poder, uma direção política reconhecida, uma estratégia capaz de ligar as reivindicações imediatas à transformação do Estado e das relações de propriedade.

Lenin escreveu que sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário. Mas Maio acrescenta uma dificuldade: sem organização revolucionária enraizada nas massas, a teoria pode permanecer exterior ao acontecimento. A energia espontânea é indispensável, mas não resolve por si só o problema do poder. Uma greve geral pode paralisar o Estado; não o substitui automaticamente. Uma universidade ocupada pode reinventar a palavra; não reorganiza a produção social. Uma fábrica ocupada pode suspender a autoridade patronal; mas, isolada, não constitui ainda uma nova forma de poder nacional.

Daí a formulação recorrente entre muitos marxistas revolucionários: se Maio não triunfou, foi porque faltou uma vanguarda capaz de propor uma linha de transição, de articular controlo operário, assembleias populares, coordenação nacional das ocupações e disputa direta pelo poder político. Esta tese tem força, mas também precisa de ser pensada criticamente. A ausência de vanguarda não era um acidente exterior; era parte da própria configuração histórica do pós-guerra. O movimento operário francês estava hegemonizado por organizações reformistas ou burocráticas; a extrema-esquerda era combativa, mas minoritária; os estudantes eram criativos, mas socialmente insuficientes para dirigir o conjunto da crise.

Além disso, a própria ideia de vanguarda estava em disputa. Para uns, significava partido revolucionário disciplinado, capaz de intervir no momento decisivo. Para outros, representava o perigo da substituição burocrática das massas por uma direção autoproclamada. Maio foi também uma revolta contra o “partido dos chefes”, contra o dogmatismo, o doutrinarismo e a ossificação das organizações políticas. A crítica libertária da autoridade não era simples ingenuidade; respondia a experiências reais de burocratização, tanto no movimento comunista oficial como nas sociedades do chamado “socialismo real”.

A dificuldade estava em encontrar uma forma de organização que não esmagasse a espontaneidade, mas também não se dissolvesse nela; que permitisse decisão coletiva sem reproduzir hierarquias opacas; que articulasse democracia direta e eficácia estratégica; que transformasse a recusa em poder constituinte. Maio colocou este problema com enorme intensidade, mas não o resolveu.

É por isso que se pode falar de revolta sem revolução. Houve uma situação revolucionária no sentido amplo: crise do regime, mobilização de massas, greve geral, ocupações, deslegitimação da autoridade, emergência de novas formas de poder social. Mas não houve revolução no sentido estrito: não houve derrube do Estado, expropriação da burguesia, constituição de um novo poder proletário ou transição socialista. A revolta que impulsionava uma revolução apareceu como possibilidade histórica, mas permaneceu suspensa.

A contraofensiva gaullista

A recomposição do regime começou no final de Maio. A 29 de Maio, De Gaulle desapareceu temporariamente da cena pública e viajou para Baden-Baden, na Alemanha Ocidental, onde se encontrou com o general Massu. O gesto revelou a gravidade da crise: o chefe de Estado procurava assegurar-se da lealdade militar num momento em que a autoridade política vacilava. No dia seguinte, regressou com uma resposta ofensiva. Dissolveu a Assembleia Nacional, convocou eleições legislativas e apelou à mobilização da “maioria silenciosa”.

A manifestação gaullista de 30 de Maio, nos Campos Elísios, mostrou que a crise não evoluía automaticamente para a revolução. Sectores importantes da pequena burguesia, das classes médias conservadoras e da população assustada com a paralisia do país reagruparam-se em torno da ordem. A revolução possível começou a ser apresentada como ameaça de caos. A linguagem da autoridade recuperou terreno: era preciso restabelecer a circulação, o trabalho, a normalidade, a França.

As eleições legislativas de junho deram uma vitória esmagadora aos gaullistas. A forma eleitoral funcionou como mecanismo de restauração da legitimidade burguesa. O regime conseguiu deslocar a crise das ruas e das fábricas para o terreno institucional, onde a relação de forças lhe era mais favorável. As greves foram sendo progressivamente encerradas, muitas ocupações terminaram, a Sorbonne foi retomada pela polícia em meados de junho, e a ordem estatal recompôs-se.

Mas seria um erro concluir que Maio terminou simplesmente em derrota. Politicamente, no plano imediato, a revolução não ocorreu e a direita venceu as eleições. Contudo, o regime gaullista saiu ferido. Em 1969, De Gaulle convocou um referendo sobre a reforma do Senado e a regionalização; derrotado, demitiu-se. A sua autoridade histórica, que parecia quase monárquica, fora abalada por Maio. O acontecimento não tomou o poder, mas desorganizou profundamente a legitimidade do poder existente.

E a herança de Maio de 68?

A sua atualidade reside nessa pergunta. Num mundo novamente marcado pela precarização do trabalho, pela mercantilização da educação, pela crise ecológica, pela ascensão de novas formas autoritárias, pelo racismo estrutural, pelo sexismo persistente e pela captura neoliberal da subjetividade, Maio de 68 regressa não como nostalgia, mas como advertência. A estabilidade social pode ser apenas a forma visível de uma crise ainda não declarada. A apatia pode esconder raiva. A integração pode esconder ressentimento. A normalidade pode ser interrompida por uma faísca aparentemente menor, desde que exista combustível social acumulado.

Como foi dito por Lenin, “não são as mesmas classes que se encontram de um lado e do outro da barricada”. O capitalismo transformou-se; a composição da classe trabalhadora mudou; a universidade massificou-se ainda mais; as formas de comunicação alteraram-se profundamente; o neoliberalismo reorganizou o tempo, o desejo e a subjetividade. Mas a contradição fundamental permanece: uma sociedade fundada na apropriação privada da riqueza socialmente produzida continua incapaz de realizar a liberdade que promete.

Maio não nos deixou uma revolução concluída. Deixou-nos uma exigência. A exigência de não confundir prosperidade com emancipação, reforma com rutura, liberdade de consumo com liberdade humana, democracia formal com poder popular, modernização com libertação. Deixou-nos também uma advertência: sem organização revolucionária, a crise pode dissipar-se; sem imaginação, a organização transforma-se em aparelho morto; sem classe trabalhadora, a revolta perde a força material para derrubar o capital; sem juventude, sem estudantes, sem mulheres, sem povos oprimidos, sem crítica da vida quotidiana, a revolução arrisca-se a repetir as formas de dominação que pretende abolir.

O verdadeiro legado de Maio está, então, na sua capacidade de continuar a abrir perguntas. Quem decide? Quem produz? Quem obedece? Quem ensina? Quem aprende? Quem fala? Quem cala? Quem possui o tempo? Quem organiza o desejo? Quem define o possível? Estas perguntas não pertencem apenas a França durante1968. Pertencem a todas as sociedades atravessadas pela dominação.

No fim, talvez a sua herança mais profunda seja esta: a história não está fechada. Mesmo quando o capital proclama o fim das crises, das guerras e das revoluções; mesmo quando a ordem dominante se apresenta como técnica, racional, inevitável e eterna; mesmo quando a luta de classes parece adormecida sob a abundância administrada, a possibilidade da rutura permanece. Maio de 68 rasgou o véu da normalidade e mostrou, por um instante, que o mundo podia ser diferente.

E esse instante,

embora derrotado,

continua a arder.

 

 

Dinis Ramos
Sobre o/a autor(a)

Dinis Ramos

Estudante na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa