A carta publicada no site do Vaticano dirige-se à conferência de bispos chilenos a propósito do relatório elaborado pelos seus dois enviados especiais sobre os casos de abusos sexuais contra menores na igreja chilena. Em “mais de 2300 folhas” que incluem 64 depoimentos recolhidos em Santiago do Chile e em Nova Iorque, Francisco concluiu que “todos os testemunhos recolhidos falam de forma franca, sem aditivos ou adoçantes, de muitas vidas crucificadas e confesso-vos que isso me provoca dor e vergonha”.
“No que me diz respeito, reconheço e como tal quero que o transmitam fielmente, que incorri em erros graves de avaliação e perceção da situação, sobretudo por falta de informação verídica e equilibrada. E desde já peço perdão a todos aqueles que ofendi”, prossegue o papa, acrescentando que o irá fazer pessoalmente durante um encontro com “representantes das pessoas entrevistadas”.
Em janeiro, a visita do papa Francisco ao Chile ficou marcada pela polémica, por surgir acompanhado do bispo Juan Barros, figura acusada por algumas vítimas de abusos sexuais de encobrir os abusos cometidos pelo sacerdote Fernando Karadima.
“No dia em que me tragam alguma prova contra o bispo Barros, aí falarei. Não há uma só prova contra ele. São tudo calúnias. Está claro?”, respondeu Francisco a um jornalista no último dia da visita. Uma das reações foi de Juan Carlos Cruz, uma das vítimas que mais tem lutado contra o encobrimento por parte da hierarquia católica, através do Twitter: “Como se eu pudesse tirar uma selfie enquanto Karadima me abusava a mim ou a outros com Juan Barros parado ao lado a ver tudo”, afirmou.
Com o relatório agora concluído e entregue, o papa Francisco anunciou que irá convocar os bispos chilenos a Roma para tomar medidas “a curto, médio e longo prazo” com o objetivo de "reparar no que for possível o escândalo e restabelecer a justiça”.
Para já, Juan Carlos Cruz e outras duas vítimas dizem ter reconhecido o gesto do papa e o convite que receberam para uma conversa no Vaticano nas próximas semanas. “O sentido de todas as nossas ações sempre foi dirigido ao reconhecimento, o perdão e a reparação pelo que foi sofrido, e assim continuará, até que a tolerância zero face ao abuso e ao encobrimento na Igreja seja uma realidade”, afirmam em comunicado.
Respecto de la carta de @Pontifex_es y el desastre de @episcopado_cl @iglesiachile Queremos contarles: pic.twitter.com/QKVTqHzt9a
— Juan Carlos Cruz Ch. (@jccruzchellew) 11 de abril de 2018