É em frente ao gabinete de habitação acessível da Câmara Municipal de Loulé que se juntam militantes do Bloco de Esquerda e membros do movimento “Não derrubem as casas”. São cerca de 700 pessoas que estão sinalizadas pela autarquia e cujas casas devem ser demolidas sem alternativa. Construiram nos seus próprios terrenos depois de não conseguirem pagar a renda ou a prestação ao banco. As casas não têm fundações nem risco de impermeabilização, mas não lhes é permitido viver ali, nas suas próprias condições.
A coordenadora do Bloco de Esquerda está no Algarve para ouvir estes moradores, acompanhada de uma comitiva do Bloco de Esquerda que junta militantes de todo o distrito. Com bandeiras vermelhas e de autocolantes ao peito, há cada vez mais novos militantes e simpatizantes a juntar-se ao Bloco de Esquerda no Algarve, onde o partido está perto de eleger.
O gabinete de habitação acessível é ao lado da Câmara Municipal, e portanto a concentração neste ponto também é simbólica. Nos processos mais avançados, como o de Fátima, a autarquia quer obrigar as pessoas a pagar a própria demolição das estruturas modulares, em valores entre 40.000 a 70.000 euros.
“Há cada vez mais pessoas que trabalham e vivem na rua”, diz Mariana Mortágua depois de escutar a situação absurda. “Há zonas onde a crise da habitação está muito pior, o Algarve é uma dessas situações. Quem trabalha para alimentar o turismo não consegue ter casa”.
Falando de uma economia “muito desigual”, a coordenadora do Bloco de Esquerda salienta que “o Algarve já viu isto acontecer” com vagas de construção massivas para a indústria do turismo que deixam para trás quem trabalha na região.
A ação serve para “mostrar que quem tem dificuldade em ter uma casa, trabalha” e afirmar que “este país tem de conseguir dar casa às pessoas”. Só que para isso, a construção não é solução. Especialmente num distrito que vê em todas as esquinas a construção de luxo a aumentar para satisfazer as vontades de turistas, mas onde os preços da habitação sobem.
“Há muita construção, mas sabemos que não é para nós”, diz Mariana Mortágua. “Exatamente!”, responde uma das moradoras, que sublinha que “para derrubarem as nossas casas têm de ter uma solução primeiro”. O movimento “Não derrubem as casas” tem uma petição a circular online e já reuniram com o presidente da Câmara Municipal de Loulé, mas denunciam a “falta de empatia” do Estado, que a todos os níveis está a procurar cumprir as vontades de quem tem mais dinheiro espezinhando quem menos tem.
Tiago Grosso, que faz parte do movimento, explica que as pessoas que ali estão escolheram adquirir terrenos ou construir em terrenos herdados porque não tinham alternativa no mercado de habitação. “É uma situação incompreensível na medida em que estas pessoas trabalham, vivem aqui, estão aqui há muito tempo e têm de ver o seu direito à habitação salvaguardado”, diz.
“E a maior parte destas pessoas têm casas onde já existem casas. A questão que se coloca de limitar a edificação nestas áreas deixa de fazer sentido. Queremos cumprir as regras e queremos estar legais, mas aquilo que neste momento a Câmara Municipal faz, a reboque de denúncias públicas, não nos dá solução e ao mesmo tempo querem derrubar as nossas casas, infligindo o custo dessas demolições a essas próprias pessoas”, explica Tiago.
Fátima, por exemplo, nasceu, cresceu e vive no Algarve. Já viu o território mudar muitas vezes, desde a falta de infraestruturas ao crescimento e à degeneração da economia de turismo. Como os salários e o turismo não batem certo, foi forçada a ir para um terreno que herdou. Mas a sua situação habitacional foi denunciada. “São os turistas e os estrangeiros ricos que fazem as denúncias porque não querem as casas na sua paisagem”, diz alguém.
O “Não derrubem as casas” tem conhecimento de 400 pessoas em situação de futura demolição, e a autarquia tem mais de 700 pessoas sinalizadas. Dessas, 25 já têm o processo avançado, como Fátima, cujo terreno está em posse administrativa da Câmara Municipal. O movimento denuncia também a falta de respostas de habitação da autarquia face à crise de habitação. Estão a construir apenas 80 fogos para habitação acessível quando há centenas de pessoas com carências habitacionais.
O Estado ao serviço de quem tem dinheiro
“Não há nenhuma barbaridade urbanística e territorial que não se faça em Loulé desde que se tenha dinheiro”, diz aos moradores José Gusmão, candidato do Bloco de Esquerda pelo distrito de Faro. “O crime destas famílias é não terem dinheiro para serem consideradas relevantes pela Câmara”.
O economista salienta ainda que no Algarve, a incompatibilidade entre salários e rendas é particularmente grave porque aquela é a região do país onde o salário médio é mais baixo, mas é a segunda região com habitação mais cara. “Há aqui um problema que há anos é ignorado pelo Governo e pelas Câmaras”.
Legislativas 2025
Mariana visita o bairro do Zambujal e denuncia zonas “que o Estado abandona”
No distrito, a habitação “é um problema social que não está restrito a estas famílias”. Na verdade, há muitos casos identificados pela Câmara Municipal que estão à espera de resposta “e ao mesmo tempo há muitas casas vazias” que servem de segundas habitações a estrangeiros que ali passam férias.
E face a estes problemas estruturais que são recebidos de olhos fechados pelo Estado, os moradores da região é que sofrem. “Só queremos paz”, diz uma das moradores. “Estamos preocupados”, diz outro. “É muito triste”, confessa Fátima aos jornalistas. “As pessoas não têm noção do que a gente passa” diz Tiago Grosso.
Depois de ouvir os testemunhos e falar com os moradores, Mariana Mortágua conclui apontando que o Bloco quer usar a campanha para dar voz a injustiças como essas, mas nem por isso o acompanhamento dessas situações se esgota com a campanha eleitoral. “Estamos cá para a luta”, garantiu.