Esmeralda Mateus fazia parte da UMAR quando fundou a Comissão de Moradores do Bairro Aldoar. Era uma associações de mulheres que “fazia uma luta desgraçada”. Em 1988 surgiu a Comissão de Moradores, num pequeno espaço do bairro. Foram quase vinte anos naquele pequeno espaço com uma porta verde metálica e sem janelas. Há sete anos que já está noutro espaço, no prédio em frente, e a Comissão de Moradores passou a Associação de Moradores. Agora o espaço tem um café, tem uma retrosaria, uma sala de trabalho. As condições são outras. Esta sexta-feira, a coordenadora do Bloco de Esquerda visitou a associação para ouvir os moradores sobre os seus problemas.
Em 1989, a primeira luta que travaram foi contra as barracas. “Centenas de barracas que existiam aqui à volta deste bairro”, diz. “Foi uma luta em que chegámos a cortar a estrada e conseguimos vencer”. As pessoas que moravam nas barracas conseguiram uma resposta e foram realojadas para outros bairros, em habitações dignas.
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Mas os problemas do bairro não acabaram. Desde o ano em que caiu o muro de Berlim até a 2025, Esmeralda continuou empenhada nas lutas do bairro e dos moradores, e na criação de uma rede de apoio naquela que é uma das zonas mais pobres do Porto.
Na parede do café da Associação de Moradores há uma foto antiga de uma equipa desportiva. Ao lado deles está Esmeralda, 20 anos mais nova e cheia de orgulho. A associação de moradores tinha equipa de futebol masculino e feminino, e fazia torneios. “Uma vez um árbitro deu-me um cartão azul e pôs-me fora”, conta divertida.
Uma das maiores lutas que Esmeralda travou foi pelo direito ao aborto. “Andei por todo o lado”, disse. “Porque nós tínhamos aqui problemas desses. E era eu que ia à farmácia buscar os comprimidos para as pessoas. Acabou por morrer aqui uma rapariga”.
Hoje, os problemas são outros. Há 40% da população daquele bairro sem eletricidade (e já chegou a ser 85%), e 20% estão sem água. “Andamos há vários anos nisto”, explica Esmeralda, que costuma ir à Assembleia de Freguesia falar dos problemas do bairro, mas sem grande resposta. Porque ficaram a dever as contas da eletricidade e água, muitos dos moradores têm dívidas grandes e precisam de pagar 40% da dívida para poder voltar a ter eletricidade. Só que isso implica pagar 900 ou 1.000 euros de uma vez, dinheiro que essas pessoas não têm para gastar.
“Eu vivo os problemas desta gente e até me vem a lágrima aos olhos quando vejo estas situações”, admite. “Não posso ouvir os 'tubarões' a dizer que as pessoas têm de ir trabalhar, quando os assistentes sociais não entram neste bairro. Ninguém vem ver como é que isto está, sou eu que tenho de tratar porque quero ver um bairro melhor. Eu tenho tantas lutas”.
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Todas as manhãs, Esmeralda prepara 21 sacos com comida todos os dias para os moradores do bairro. Pão, tomates, pimentos, hortaliças, frango assado, sopa. Tudo o que as pessoas mais necessitadas do bairro precisam para sobreviver.
Para além do combate à pobreza extrema, Esmeralda fala também das lutas pelas infraestruturas de Aldoar, onde não há um parque infantil nem um ringue para jogar à bola. E “se a canalha começar aqui a jogar à bola é capaz de acertar num carro e isso é um problemas”. Havia um parque que foi destruído há vários anos. Durante muito tempo houve falta de água quente em muitas casas. Problemas que se multiplicam.
Mas Esmeralda garante que “isto é um bairro de lutas”. Por isso, continua a ir às assembleia de freguesia, a distribuir comida – muitas vezes chegando à associação às 8h e saindo às 21h –, a dialogar com os moradores, a fazer arranjos e baínhas para quem precisa e não tem dinheiro para pagar. A ajudar quem precisa e a lutar por quem pouco tem.