Esta sexta-feira, Manon Aubry veio a Lisboa para participar na sessão “O que está a acontecer em França?”. A iniciativa contou ainda com as intervenções de Nathalie Oliveira, deputada do PS eleita pelo círculo da Europa, José Gusmão, eurodeputado e dirigente do Bloco, e Catarina Martins, coordenadora nacional bloquista.
Após este encontro, a eurodeputada do La France Insoumise, e co-presidente do grupo parlamentar europeu The Left, explicou ao Esquerda.net como um movimento pelos direitos sociais, o segundo maior movimento social em França desde a IIª Guerra Mundial, se transformou também num movimento pela democracia.
A estratégia do presidente Emmanuel Macron, com a imposição de uma reforma das pensões mediante o recurso ao artigo 49.3 da Constituição francesa, que permite adotar uma lei sem votação parlamentar, e a utilização generalizada da repressão e da violência contra os seus opositores, também foi um dos temas abordados durante a entrevista.
Manon Aubry teve ainda oportunidade de nos falar sobre a forma como Macron está a catapultar a extrema-direita; a estratégia da esquerda francesa; e os principais desafios com que a coligação de esquerda Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES), composta pelo partido La France Insoumise, Verdes, PS e PCF, se confronta para chegar à governação do país.
Quais são os verdadeiros motivos que estão na origem da reforma das pensões imposta por Macron? Porque, segundo tens sublinhado, na realidade, não está em causa o défice no sistema de pensões francês...
Exato. Não há qualquer razão financeira. É ideológico. Para Macron, é natural e justo que as pessoas trabalhem durante mais tempo, inclusive para além da idade em que ainda têm boas condições físicas.
Também tem a ver com a origem social de Macron. Como é a sua vida, comparada com a dos trabalhadores da limpeza, por exemplo? Ele não conhece a realidade destas pessoas, que acordam às 4h30 da manhã, têm dores nas costas, etc. Eu gostava que Macron tivesse este tipo de trabalho durante um dia, uma semana, um mês. Tenho a certeza que aí ele não iria adiar a idade da reforma como está a fazer agora.
É também uma forma de agradar à Comissão Europeia?
É uma forma, sem dúvida, porque a Comissão Europeia (CE) está a pedir para adiar a idade da reforma. Mas também sei que Macron quer fazê-lo. Ele nem sequer tem de utilizar a CE como uma desculpa, porque também podia ter dito “bem, a CE recomenda esta medida mas não vamos implementá-la”. É muito comum não se implementar as recomendações da CE.
Com a reforma das regras orçamentais a nível da União Europeia, as recomendações tornar-se-ão compulsórias e aí não haverá alternativa. Mas Macron tinha alternativa. Mais uma vez, a razão pela qual ele está a avançar com a medida é ideológica.
Macron quer ainda dar provas da força do seu governo?
Sim, no final de contas, é sobre a sua própria autoridade. É tudo sobre si próprio.
Não é surpreendente que as pessoas tenham saído à rua para protestar. Elas já não estão só a falar sobre as pensões, estão a falar sobre Macron. Elas já perceberam que tem tudo a ver com a sua própria autoridade e com o facto de Macron querer mostrar que é ele que decide. A verdade é que está a decidir sozinho. Na sua torre de marfim.
Macron está isolado?
Super isolado. Nem sequer pode sair à rua sem ser recebido com aqueles “agradáveis” concertos de panelas.
Estamos a assistir a um dos maiores movimentos sociais da história de França?
Com toda a certeza. É o maior movimento social que eu vi durante a minha vida, e é, provavelmente, o segundo maior movimento social desde a II Guerra Mundial, o maior a seguir ao Maio de 68. São três meses de mobilização, mais de 12 dias de mobilizações nacionais com mais de três milhões de pessoas nas ruas.
Como se tornou possível uma mobilização desta dimensão?
Por um lado, penso que é uma combinação de oposições muito fortes à reforma. Mais de 80% da população está contra a medida.
Mas as pessoas estão muito zangadas com Macron. Já estão muito cansadas dele. Começou com uma mobilização contra a reforma das pensões, transformou-se num movimento social mais amplo que reivindica aumentos salariais, e agora estamos a viver uma crise democrática. Todo o sistema institucional está em causa.
Acredito que a mobilização pode resultar numa mudança institucional relevante e, potencialmente, na alteração da Constituição.
Qual é a estratégia de Macron neste momento?
Basicamente, impor as suas decisões. Macron nem sequer tem em conta as estruturas sindicais. Em qualquer democracia, é preciso consultar os sindicatos. Ele também não quer saber do Parlamento. Em que democracia podemos adotar leis sem que estas sejam votadas no Parlamento? Nós, enquanto União Europeia (UE), estamos a dar lições à Hungria e à Polónia, e, em países como a França, leis estão a ser adotadas sem o voto dos representantes do povo.
Macron sabe que este é o seu último mandato. Mais uma vez, o que está em causa é a sua autoridade, a sua capacidade de impor as medidas.
Creio que estamos nesta crise institucional porque ele já não consegue aprovar leis importantes no Parlamento. É óbvio que Macron não poderá governar desta forma nos próximos quatro anos.
Assististe à violência pessoal em primeira mão. A repressão e a violência estão a tornar-se um dos principais instrumentos do governo de Macron?
Claramente. Macron não tem a maioria do país, ele conta com uma pequena minoria. E, quando se é um minoria no governo, a última ferramenta que se pode utilizar é a repressão. As pessoas ainda estão, massivamente, contra ele, por isso, Macron utiliza a repressão, as prisões arbitrárias, armas como as LBDi e as GMDii. França é dos poucos países da UE a utilizar estas armas. Elas são muito perigosas. As pessoas perderam mãos, olhos em resultado da violência policial. Como podemos aceitar que num país democrático as pessoas estejam a perder mãos e olhos apenas por saírem às ruas em protesto para reclamar os seus direitos?
O recurso à violência policial em França tem vindo a ser criticada pelo Conselho Europeu, por organizações não governamentais internacionais, pelo relator especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos… Todos eles estão a apontar o dedo a Macron e às ferramentas policiais que está a usar, dizendo que são muito perigosas. Esta é outra prova do quão Macron está isolado.
A UE não deveria tomar uma posição oficial sobre a violência e a repressão em França?
Estamos a trabalhar nisso. Apresentámos uma resolução, em conjunto com os outros grupos de esquerda, e liderada pela delegação da esquerda francesa no Parlamento Europeu. Não perdemos por muitos votos. Mas a razão pela qual perdemos tem a ver com o facto do Renew, do centro, se ter aliado à ala da direita e à extrema-direita para votar contra. Como vês, a aliança entre a ala da direita, da extrema-direita e do centro traduziu-se na proteção da violência policial.
Qual é a estratégia da esquerda em França?
Temos um dos maiores movimentos sociais da história social. Ganhámos batalhas de controlo, agora a questão é como as transformamos em batalhas políticas.
Em primeiro lugar, o que é mesmo importante para nós é liderar a luta no Parlamento nacional, como temos feito. Foi muito importante desmascarar as mentiras do governo sobre a reforma. Isso contribui, inclusive, para alavancar a oposição face à medida.
Agora, o primeiro desafio é prepararmo-nos para as próximas eleições, sejam elas quais forem. É prepararmo-nos para governar o país. Na última vez perdemos, por muito pouco, a governação do país. Nas eleições legislativas surgimos em primeiro lugar em termos de votos, mas não em termos de mandatos. Esse é o nosso próximo desafio.
Se estiverem em causa as eleições legislativas, o nosso objetivo é eleger o nosso primeiro-ministro, se forem as eleições gerais, o objetivo é trazer a esquerda para uma posição de liderança. Essa é nossa principal batalha.
As questões pelas quais nos batemos nunca tinham ocupado tanto o debate político. Agora precisamos de transformar isso em ação política e vitórias políticas. É para isso que estamos a trabalhar, para estarmos prontos para governar o país.
Acredito que seremos nós ou a extrema-direita. Temos assistido ao ressurgimento e crescimento da extrema-direita por toda a União Europeia. É um risco, também, em França.
Eles podem capitalizar o descontentamento da população francesa?
Sim. Ainda que eles não estejam a fazer nada. Marine Le Pen não vai a nenhum protesto, nem sequer está, verdadeiramente, a opor-se à reforma das pensões. Está a manter-se em silêncio e a ser ajudada por Emmanuel Macron. Ele apresenta-se como o adversário da extrema-direita, mas, na realidade, é o apoio da extrema-direita. Macron está sempre a acusar a esquerda de ser o problema e não se pronuncia sobre a extrema-direita.
Quais são os principais desafios com que a coligação de esquerda Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES) se confronta para assumir a liderança do país?
Primeiro, manter a coligação. É evidente que o La France Insoumise está a liderar a coligação. Tivemos 22% nas últimas eleições presidenciais e o resto da esquerda teve cerca de 5%.
Também creio que é claro o rumo que a esquerda tem seguido: basicamente, aprender com as lições do desaire do Partido Socialista e apresentar um programa claro que rompe com as políticas neoliberais de Macron.
Portanto, o primeiro objetivo é manter a coligação e fazer frente à extrema-direita.
Penso que o segundo desafio é continuar a mobilizar as pessoas, porque todos temos consciência que existe o risco de as pessoas ficarem desapontadas e não votarem. Temos muita força nos subúrbios pobres, somos muito fortes nas cidades e áreas urbanas, e o nosso próximo desafio é focarmo-nos nas áreas rurais, onde a extrema-direita também é forte, e fortalecer aí a nossa posição.
Se formos bem sucedidos, então poderemos ganhar as próximas eleições gerais. Pelo menos, é por isso que nos estamos a bater.
A mobilização nas ruas não corre o risco de esmorecer?
A próxima grande mobilização é a 6 de junho, mesmo em vésperas da próxima votação, agendada para dia 8 de junho, de uma proposta legislativa para revogar a reforma das pensões. Aliás, é possível que alcancemos uma vitória nessa data. Os concertos de panelas mantêm-se. Seja onde for que Macron e os seus ministros vão, são recebidos por um concerto de panelas.
A esperança de Macron era que esquecêssemos a reforma das pensões, mas estamos a mostrar-lhe que isso não vai acontecer. As pessoas não vão digerir esta reforma.
Não sei para onde caminha esta mobilização social, mas sei que, mais cedo ou mais tarde, vamos livrar-nos desta reforma das pensões.
iArmas usadas pelas forças de segurança francesas que habitualmente lançam balas de borracha de 44 milímetros.
iiGranadas de cerco