Várias centenas de militantes fascistas e neonazis manifestaram-se no sábado em Paris para lembrar o aniversário da morte acidental de um militante de extrema-direita, Sébastien Deyzieu. Vestidos de negro, muitos tapando a cara com máscaras, trazendo bandeiras com a cruz céltica, os manifestantes não escondiam o que eram nem ao que vinham.
As autoridades policiais autorizaram o desfile, o que suscitou críticas da esquerda. A France-Presse cita as do senador socialista David Assouline que considerou “inadmissível [o ministro do Interior Gérald Darmanin] ter deixado 500 neonazis e fascistas em parada no coração de Paris” ou a do porta-voz do PCF, Ian Brossat, que escreveu ironicamente na sua conta de Twitter que “as caçarolas são manifestamente mais perigosas que o barulho das botas…”, uma referência à onda proibitiva desencadeada pelo governo contra as caçaroladas de que tem vindo a ser alvo por parte dos manifestantes contra a reforma das pensões.
Também do lado da França Insubmissa várias vozes criticaram a decisão recorrendo a este mesmo argumento. O deputado Thomas Portes, citado pelo Huffington Post, escreveu “quando se critica Macron ou quando há manifestações contra a sua reforma das pensões é: detenções, tiros de LBD e de granadas. Pelo contrário, 500 nazis desfilam nas ruas de Paris, nenhuma preocupação para Gérald Darmanin”.
Como resultado do coro de críticas, a Prefeitura de Polícia de Paris emitiu um longo comunicado a justificar a sua decisão. Ao contrário do barulho das caçarolas, que parece ferir os ouvidos de alguns, a entidade que gere as polícias defendia então que “esta manifestação não causou, nos anos anteriores, nenhuma desordem ou perturbação da ordem pública” e que a ação “foi objeto de um enquadramento adaptado pelas forças da ordem”.
Da “normalidade” à “interdição”
Um dos argumentos apresentados era, assim, que se tratava de uma manifestação que acontece todos os anos. Mas, depois das críticas, esta terça-feira veio a reviravolta. Acossado, o ministro do Interior acabou por anunciar ter pedido aos prefeitos do país a interdição de todas as manifestações da extrema-direita fascista e neonazi.
Na ocasião disse que a manifestação era “inaceitável” mas, na realidade, trata-se de remeter para os tribunais a decisão como o próprio afirmou: “deixaremos os tribunais julgar de saber se a jurisprudência permite estas manifestações”.
Também o prefeito da polícia de Paris, Laurent Nuñez, veio anunciar, na noite de segunda-feira, ter remetido o caso para a Procuradoria-Geral de Paris. As muitas imagens conhecidas desde sábado de manifestantes com a cara tapada não passaram despercebidas porque agora isso é uma infração em França.
Agressão a um assessor parlamentar da França Insubmissa
A manifestação ocorreu um dia depois do jornal Le Parisien contar a história da agressão a Théo C., assessor parlamentar da deputada Aurélie Trouvé. A 29 de abril, aquando da final da taça francesa de futebol, este tentava filmar uma agressão racista no metro quando foi espancado por um grupo de hooligans neonazis, tendo sido obrigado a receber tratamento hospitalar junto com mais três pessoas.
Fez queixa na polícia, que delegou a investigação na Segurança Regional de Transportes, entidade que analisa delitos cometidos em transportes públicos, mas não divulgou o sucedido. O portal de informação StreetPress, que identificou vários dos agressores, falou com ele. Diz ter ficado com medo depois da fuga de informação porque “as pessoas que me atacaram são perigosas”. A deputada Aurélie Trouvé denunciou: “hoje, centenas de neo-nazis estão a manifestar-se calmamente no centro de Paris. No sábado passado, alguns deles estavam a organizar um ataque que vitimou o meu assistente parlamentar e muitos outros. Mas o Governo prefere denunciar as caçaroladas”.
Os tesoureiros de Marine Le Pen na manifestação fascista
O Mediapart revela entretanto outra faceta desta manifestação, tendo encontrado nela duas figuras ligadas a Marine Le Pen, Axel Loustau e Olivier Duguet. Loustau tentou mesmo intimidar o fotógrafo deste meio de comunicação social. Este era amigo dos tempos de faculdade da ex-líder da extrema-direita francesa, acionista da agência de comunicação que trabalha com o partido de Le Pen, a União Nacional, e fundador de um grupo de sociedades que vão desde a segurança à impressão e que também serviam para prestar serviços à antiga Frente Nacional. Para além disso, foi conselheiro regional de Île-de-France (2015-2021), presidente da federação do partido em Hauts-de-Seine e responsável das finanças da campanha presidencial de Marine Le Pen em 2017.
Olivier Duguet foi condenado a seis meses de prisão com pena suspensa por fraude contra o Instituto de emprego.
Jeanne?
Ambos são ex-militantes nos anos 1990 do Grupo de União Defesa, de ultra-direita e extremamente violento, e foram depois tesoureiros daquele que chegou a ser o quarto maior partido francês em termos de financiamento, o Jeanne.
É normal que até quem conheça relativamente bem a política francesa não esteja familiarizado com este nome. Trata-se de um micropartido sem participação eleitoral e quase sem militantes fundado para ser elo de ligação entre a Frente Nacional/União Nacional e algumas empresas.
O caso dos financiamentos da Frente Nacional por esta via em 2012 acabou em tribunal. E Frédéric Chatillon, sócio de Loustau na agência de comunicação e também ex-militante do GUD, foi condenado por fraude, abuso de bens sociais e branqueamento. O próprio Lostau acabou ilibado mas Duguet, Nicolas Crochet, tesoureiro do Jeanne, Jean-François Jalkh, secretário-geral, foram igualmente condenados. E a União Nacional também, tendo de pagar uma multa de 250.000 euros.
O Jeanne tinha sido acusado de sobrefaturar “kits de campanha” vendidos aos candidatos da UN e fazer empréstimos a estes a taxas elevadas. O objetivo seria conseguir mais reembolsos do Estado caso atingissem o patamar mínimo de 5% dos votos.
A empresa de comunicação de Chatillon/Lostau foi acusada de financiamento ilegal da UN e do Jeanne. A nova agência de comunicação que fizeram, a e-Politic, continua com os seus negócios proveitosos com a União Nacional. E a sua presença nesta manifestação revela uma realidade bem longe da estratégia de “desdiabolização” gizada por Marine Le Pen para afastar a imagem do partido dos grupúsculos de extrema-direita mais violentos e para o fazer passar por “respeitável” para um maior número de pessoas.