No mesmo dia em que milhares de franceses saíram à rua contra a extrema-direita, a candidata que se gaba das “mãos limpas”, Marine Le Pen, surgiu implicada num caso de desvio de fundos. Ela e alguns dos outros eurodeputados do seu partido terão desviado 600 mil euros de dinheiro público ao longo dos mandatos no Parlamento Europeu.
O Mediapart divulgou partes de um relatório do Organismo Europeu de Luta Antifraude que foi enviado a 11 de março ao Ministério Público de Paris para investigação. Os eurodeputados da extrema-direita utilizavam dinheiro destinado a cobrir despesas nas suas funções para o partido, para despesas pessoais e apoios a empresas.
Para além da candidata presidencial, também o seu pai, Jean-Marie Le Pen, o seu ex-companheiro, Louis Aliot e o dirigente da ex-Frente Nacional Bruno Gollnisch estão envolvidos. No caso de Le Pen a verba desviada terá sido de 136.993,99 euros.
Entre os gastos suspeitos dos eurodeputados da extrema-direita francesa estão 23.1000 euros de objetos promocionais (sacos, canetas, porta-chaves) entregues na sede da Frente Nacional e que se suspeitam terem servido para o congresso do partido em Lyon em 2014 e 4.107 euros em vinho beaujolais e que terão sido distribuídas por Gollnisch nesse congresso. Há também vários casos de verbas atribuídas a associações ou a empresas de prestação de serviços de que fazem parte pessoas próximas dos eurodeputados ou do partido muitas sem justificação de despesas. Fala-se de “faturas exageradas e/ou fictícias destes prestadores de serviços”, de “falsos documentos” e da “imposição de práticas fraudulentas aos prestadores de serviços”.
Outro exemplo, Marine Le Pen e o seu pai apresentaram cada um, em 2014, faturas no valor de 5.000 euros que diziam respeito à criação de páginas de internet com o seu o nome. A investigação do Olaf mostrou que o sites nunca foram criadas e a sociedade de prestação de serviços a que foram feitos os pagamento “não tinha pessoal nem sub-contratados para executar as tarefas correspondentes”. Também a verba de 166.297 euros destinada aos boletins de informação que cada um deles produzia era “demasiado importante relativamente ao trabalho verdadeiramente realizado para produzir” estes documentos que eram só copy-paste de intervenções no Parlamento Europeu, textos em acesso livre como artigos de imprensa ou notas de blogues.
No relatório está escrito que o comportamento destes eurodeputados “colocou em perigo a reputação das instituições da União”, que foram “atos intencionais repetidos ao longo de um certo número de anos […] e o seu comportamento, derivado ao seu nível de funções e responsabilidades no Parlamento Europeu, constituem uma falha grave”. Os factos são considerados ainda “suscetíveis de dar lugar a inquéritos penais” devido aos “atos fraudulentos cometido em detrimento do orçamento da União”.
A líder da União Nacional é igualmente alvo de um inquérito judicial desde 2018 por “abuso de confiança” e “desvio de fundos públicos” no que diz respeito a contratação de assistentes fictícios no Parlamento Europeu.
O seu advogado, Rodolphe Bosselut, queixa-se de “instrumentalização” dado o momento escolhido para a saída da notícia que refere “factos antigos, com mais de dez anos” e diz que, ouvida pelo OLAF, a sua cliente invocou desconhecimento de alguns dos factos e justificou o “caráter europeu” de outros dos gastos.