Human Rights Watch: "Recusa de entrada de ajuda humanitária é crime de guerra

23 de outubro 2023 - 19:43

A noite de domingo foi de intensos bombardeamentos aéreos sobre civis na Faixa de Gaza, provocando dezenas de mortos. Militares israelitas confirmaram participação de tanques e infantaria no ataque noturno em Gaza. Marisa Matias quer que a UE siga a linha defendida por Borrell.

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Habitantes da cidade de Gaza avaliam estragos na manhã de segunda-feira
Habitantes da cidade de Gaza avaliam estragos na manhã de segunda-feira. Foto Mohammed Saber/EPA

A recusa israelita em autorizar a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza continua a ser criticada, a começar pelas organizações de defesa dos direitos humanos como a Human Rights Watch, com a sua diretora Sari Bashi a considerar essa recusa "um crime de guerra".

"É punir coletivamente os civis pelas ações dos combatentes. E como quase metade das pessoas em Gaza são crianças, está-se a punir coletivamente as crianças pelas ações dos combatentes adultos", afirmou a diretora da HRW à Al Jazeera, defendendo que "o facto de os combatentes do Hamas terem cometido crimes de guerra contra civis israelitas não justifica que as autoridades israelitas cometam crimes de guerra contra civis palestinianos, e é a isso que estamos a assistir neste momento", afirmou Bashi.

Também o responsável pela diplomacia europeia defendeu a entrada imediata de mais ajuda humanitária em Gaza. “No primeiro dia, foi permitida a entrada de 20 camiões. Ontem outros 20. Mas em alturas normais, sem guerra, entrariam em Gaza 100 camiões por dia. É óbvio que 20 não é suficiente”, sustentou Josep Borrell esta segunda-feira, sublinhando que "sem água e eletricidade os hospitais mal conseguem funcionar” e que a Comissão “aumentou o seu apoio, mas há filas e filas de camiões a aguardar permissão para entrar” por parte de Israel. “[Os camiões] têm de entrar e levar as coisas de que são desesperadamente necessárias, em particular combustível, necessário para a dessalinização da água”, concluiu.

Para a eurodeputada do Bloco Marisa Matias, que interveio esta segunda-feira no Fórum TSF, "era importante que a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, pudesse deixar a representação a quem devia tê-la, que é o Alto Representante Josep Borrell". Se a UE seguisse a linha das posições públicas deste responsável, "creio que estaríamos a fazer muito mais do que na realidade estamos a fazer", afirmou Marisa Matias.

Número de mortes em Gaza ultrapassou a fasquia dos cinco mil

A noite de domingo foi de intensos bombardeamentos de Israel sobre a Faixa de Gaza, com a agência de notícias palestiniana Wafa a considerá-la a mais brutal desde o início dos ataques aéreos a 7 de outubro. Fontes médicas citadas pela Wafa falam de 23 mortes nos bombardeamentos que atingiram as casas de três famílias em Khan Younis e outras 17 vítimas mortais no ataque a um prédio residencial na zona de al-Faluja, no norte da Faixa de Gaza. Em Deir al-Balah, outro ataque atingiu uma casa e matou 10 pessoas e na cidade de Rafah uma mulher morreu durante um ataque aéreo à sua residência. Todos estes ataques deixaram também dezenas de feridos civis.

O Ministério da Saúde de Gaza atualizou os números das vítimas mortais desde 7 de outubro para 5.087 mortes, das quais 2.055 eram crianças, e mais de 15 mil feridos. Nas últimas 24 horas, a maioria das 436 mortes ocorreram no sul da Faixa de Gaza, para onde o exército israelita mandou evacuar a população.

Segundo a agência Reuters, aos ataques aéreos juntaram-se os tanques e a infantaria israelita em raids noturnos na Faia de Gaza. "Estes raids serviram para matar esquadrões de terroristas que se estão a preparar para a nossa próxima fase na guerra", afirmou o porta-voz militar Daniel Hagari, acrescentando que também visam conseguir informações sobre o paradeiro dos 222 reféns ainda na posse do Hamas e outros grupos que participaram nos ataques de dia 7 em Israel. Do lado do Hamas, as brigadas al-Qassam confirmaram ter enfrentado as tropas israelitas que se infiltraram na zona a leste de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, tendo destruído um tanque e dois bulldozers, obrigado-os à retirada.

Militares israelitas prendem dezenas na Cisjordânia e atacam Hezbollah no Líbano

Na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, as notícias dão conta do aumento das rusgas dos militares israelitas às casas dos palestinianos, com mais de 1.215 detenções desde o dia 7 de outubro. Esta segunda-feira há registo de mais 120 detenções, das quais metade aconteceram em Hebron. Elas incluem um grupo de 40 trabalhadores da Faixa de Gaza que foram expulsos dos empregos em Israel a seguir aos ataques do Hamas e levados para a Cisjordânia. Em Ramallah, entre os 27 detidos estão muitos habitantes do campo de refugiados de Jalazone, onde a rusga israelita deixou dois mortos e seus feridos, e também moradores de Beit Rima, incluindo um professor universitário. Em Jericó, um médico do hospital local está entre os nove detidos e em Belém foram detidas doze pessoas, em Jenin quatro, em Tulkarm três e em Nablus seis.

Na fronteira com o Líbano a aviação israelita anunciou o bombardeamento a duas células do Hezbollah que estariam a preparar o lançamento de mísseis antitanque e rockets contra Israel. O grupo armado xiita libanês confirma a morte de um dos seus combatentes, a décima primeira baixa nas últimas 48 horas, enquanto o exército israelita admitiu a morte de sete soldados desde o início do conflito na fronteira libanesa.