Entre a crueza, os desígnios da política internacional e o humanismo português, assim foram os sentimentos que ditaram a 23ª edição do IndieLisboa. Foram 11 dias em que se respirou a vitalidade do cinema levando mais de 32 mil espectadores às várias sessões, num número que supera o total da edição de 2025.
No palmarés anunciado este sábado, o Grande Prémio de Longa-Metragem Cidade de Lisboa foi para arrasador Barrio Triste, na estreia cinematográfica de Stillz (Matías Vásquez). O realizador, célebre pelos videoclipes de Bad Bunny e Rosalía, apresenta uma co-produção entre Colômbia e EUA que cruza o realismo visceral com o fantástico. Com música de Arca e produção de Harmony Korine, o filme utiliza o estilo found footage na Medellín dos anos 80 para retratar a violência e o desejo de fuga de uma comunidade marginalizada.
O júri concederia ainda uma menção especial a Bouchra, a animação digital crua e sombria, fundida com cenários reais, de Meriem Bennani e Orian Barki, explorando uma estética “noir” frenética, por vezes divisiva, mas que brilha na quietude, explorando a relação complexa entre mãe e filha numa família conservadora após assumir a sua identidade sexual.
O cinema português mostrou a sua vitalidade e diversidade, sendo que o grande destaque vai para Cochena, de Diogo Allen, numa produção da Terratreme, vencedor do Prémio Canais TVCine para Melhor Longa-Metragem. O filme insere-se até uma espécie de “mockfiction” límpida sobre uma comunidade cigana ribatejana. Rejeitando estigmas, o filme filma de dentro para fora, oferecendo um retrato humanista e utópico que exalta a família e a música como lições de felicidade.
No formato de curtas-metragens, a escolha do júri internacional foi para How to Catch a Butterfly, de Kiriko Mechanicus, com Grande Prémio EMEL, premiando um ensaio inquieto e formalmente ousado que disseca a fetichização como um “alvo” e não apenas fantasia. Ainda prémios especiais para Henry is a Girl Who Likes to Sleep (Marthe Peters) e The Apple Doesn’t Fall (Dean Wei).
Nas curtas nacionais, a escolha recaiu sobre A Solidão dos Lagartos, de Inês Nunes, uma obra poética, já selecionada para Cannes, onde o espaço e o corpo humano se fundem num cenário de desejo e alienação, entre o lazer num spa e o labor nas salinas. O júri nacional distinguiu ainda João Nicolau com o prémio de Melhor Realização por A Providência e a Guitarra, ao orquestrar uma audaz adaptação de Robert Louis Stevenson, cruzando as aventuras de um casal de artistas ambulantes do século XIX numa Lisboa contemporânea. O júri reconheceu a mestria na condução deste objeto híbrido, que liga o classicismo de época à energia de uma banda de metal nos dias de hoje. Já o Prémio Novo Talento McFly foi para Coroa de Espinhos, de Francisco Moura Relvas, havendo ainda lugar para uma menção especial ao filme XYZ, de Alexandre Alagôa.
A luminosidade do Silvestre e a força dos novos nomes
Para além das competições principais, as outras secções do festival confirmam a ecletismo da programação. Na secção Silvestre, o júri rendeu-se à “silenciosa luminosidade” de My Wife Cries, de Angela Schanelec, uma obra sem concessões sobre a profundidade das relações humanas que arrecadou o prémio de Melhor Longa-Metragem. Nas curtas da mesma secção, a vencedora foi Lover, Lovers, Loving, Love, de Jodie Mack. Já na secção Novíssimos, dedicada às vozes emergentes, os grandes vencedores foram Maria Moreira e Victor Hugooli com Abril de Helena, filme que impressionou pela capacidade de criar uma sensação de intimidade raramente alcançada.
No campo da música, o Prémio IndieMusic foi atribuído a PARA VIVIR El implacable tempo de Pablo Milanés, de Fabien Pisani, um retrato sobre o fundador da nueva trova cubana que emocionou o júri pela sua relevância histórica e artística.
O IndieLisboa 2026 prepara-se agora para o último fôlego. Com a sessão de encerramento — a exibição de The History of Concrete, de John Wilson — já esgotada na Culturgest, o festival confirma que, após 23 edições, continua a ser o espaço privilegiado de encontro entre o público e o cinema que desafia as normas.
Os prémios do público, conhecidos esta segunda-feira, foram para Mulheres de Abril, de Raquel Freire (Longa Metragem), Intersecting Memory, de Shayma’ Awawdeh (Curta Metragem) e Dueto, de Léo Brunel (IndieJúnior).
Palmarés
Competição Internacional
Grande Prémio de Longa-Metragem Cidade de Lisboa: Barrio Triste (Colômbia/EUA), de Stillz
Menção Especial: Bouchra (Marrocos/França), de Meriem Bennani e Orian Barki
Grande Prémio de Curta-Metragem EMEL: How to Catch a Butterfly (Países Baixos), de Kiriko Mechanicus
Prémios Especiais do Júri (Curtas): Henry is a Girl Who Likes to Sleep (Bélgica), de Marthe Peters; e The Apple Doesn’t Fall (EUA), de Dean Wei
Competição Nacional
Melhor Longa-Metragem (Prémio Canais TVCine): Cochena, de Diogo Allen
Melhor Realização de Longa-Metragem: João Nicolau, por A Providência e a Guitarra
Melhor Curta-Metragem: A Solidão dos Lagartos, de Inês Nunes
Prémio Novo Talento McFly: Coroa de Espinhos, de Francisco Moura Relvas
Menção Especial: XYZ, de Alexandre Alagôa
Prémios do público
Longa Metragem: Mulheres de Abril, de Raquel Freire
Curta Metragem: Intersecting Memory, de Shayma’ Awawdeh,
IndieJúnior: Dueto, de Léo Brunel.
Outros Prémios
Melhor Longa-Metragem Silvestre: My Wife Cries, de Angela Schanelec
Melhor Curta-Metragem Silvestre: Lover, Lovers, Loving, Love, de Jodie Mack
Prémio Novíssimos: Abril de Helena, de Maria Moreira e Victor Hugooli
Prémio IndieMusic: PARA VIVIR El implacable tempo de Pablo Milanés, de Fabien Pisani
Artigo publicado a 9 de maio em Insider.pt e atualizado a 11 de maio com os prémios do público.