Lei trans: O que querem mudar, o que dizem os especialistas e o que o Governo escondeu

12 de maio 2026 - 10:49

O Parlamento aprovou na generalidade em março três propostas da direita para desmantelar a lei de autodeterminação trans. Há consenso entre os especialistas contra este retrocesso. A ministra pediu pareceres à CIG, mas os deputados só receberam uma nota técnica expurgada de críticas às propostas e após o seu debate. Eis um guia para perceber o que está em causa.

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Concentração em frente à Assembleia da República a 19 de março.
Concentração em frente à Assembleia da República a 19 de março. Foto de Ana Mendes

A 19 de março de 2026, a Assembleia da República aprovou na generalidade três projetos de lei, do PSD, do CDS-PP e do Chega, que ameaçam desmantelar a Lei n.º 38/2018, a chamada "lei da autodeterminação trans". O Bloco apresentou, em sentido oposto, um projeto para reforçar a lei atual. Eis um guia para perceber o que está em causa, o que dizem os especialistas, e o que se passou com o parecer que o Governo escondeu.

1. O que está em causa: a lei e as propostas

A Lei n.º 38/2018 consagra o direito à autodeterminação da identidade de género. Na prática, alterar o nome e a menção de sexo no registo civil é um ato administrativo, sem exigência de diagnóstico médico, cirurgia ou tratamento hormonal. Reconhecimento jurídico e cuidados de saúde são esferas separadas.

Os números desmontam o alarme. Desde 2018, 3.290 pessoas alteraram a menção de género no registo civil. Em 2025 foram 541 pedidos, abaixo dos 606 de 2024. Num país de mais de dez milhões de habitantes, não há explosão nem “descontrolo”: há um direito a ser exercido.

O que querem PSD, CDS-PP e Chega:

  • PSD: revogar a Lei de 2018 e recuar à lei anterior, a Lei n.º 7/2011, voltando a exigir relatório clínico para alterar o nome e o género nos documentos.
     
  • Chega: o mesmo, somando a proibição de bloqueadores da puberdade e terapia hormonal;
     
  • CDS-PP: centra-se nessa proibição de tratamentos para menores.

A todas se juntam o aumento da idade mínima para a autodeterminação (16 > 18), a eliminação do nome social nas escolas e o fim das medidas de proteção a jovens trans no ensino.

O projeto do Bloco ia em sentido contrário: não criava direitos novos, mas reforçava a aplicação da lei na escola, garantindo a confidencialidade dos processos de transição, exigindo formação obrigatória para docentes e prevê apoio psicológico a estudantes trans em risco. Respondia também às objeções formais do Tribunal Constitucional de 2021 e ao veto presidencial ao Decreto 127/XV.

2. O que dizem os especialistas: consenso contra o retrocesso

Os pareceres entregues ao Parlamento são unânimes contra as propostas da direita. Vêm da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, do Grupo de Investigação em Sexualidade e Género da Universidade do Porto, de um coletivo multidisciplinar de especialistas em saúde e academia e do Colégio de Sexologia da Ordem dos Médicos.

A leitura é convergente em pontos centrais:

  • Identidade trans não é doença. A OMS retirou a incongruência de género das perturbações mentais em 2019. Exigir diagnóstico clínico para reconhecer juridicamente a identidade equivale a repatologizar, legislar contra o consenso científico.
  • O sofrimento psicológico é resultado do "stress de minoria": discriminação, violência, falta de reconhecimento legal, não da identidade em si. O reconhecimento legal reduz a depressão, a ansiedade e a ideação suicida; negá-lo agrava o que estas leis dizem querer evitar.
  • Bloqueadores e terapia hormonal em menores não são a primeira linha. São usados numa minoria de jovens com disforia persistente, sofrimento intenso, maturidade suficiente e concordância parental, em equipas multidisciplinares e à luz dos Standards of Care da WPATH. Proibi-los, diz o psiquiatra André Ribeirinho, do Colégio de Sexologia da Ordem dos Médicos, "põe em causa a autonomia técnica do ato médico".
  • O nome social nas escolas é fator decisivo de prevenção do suicídio em adolescentes trans. Eliminá-lo, como propõe o PSD, é retirar uma proteção comprovada.
  • As taxas de arrependimento situam-se em torno dos 4% e, quando existem, estão sobretudo ligadas a rejeição social ou familiar: não a uma mudança de identidade. Legislar para todas as pessoas trans com base na exceção é, segundo os pareceres, "desproporcional".
  • Crianças intersexo: a lei atual protege-as de cirurgias precoces não consentidas. O seu desmantelamento pode abrir espaço a procedimentos que causam traumas duradouros, perda de sensibilidade e dor crónica.

Ribeirinho sintetiza o problema: existe nas propostas uma "confusão" entre identidade de género, a forma como cada pessoa se compreende, e o diagnóstico clínico de disforia ou incongruência de género, que pode ou não exigir acompanhamento médico. Misturar os planos serve para justificar exigências médicas onde elas não fazem sentido. O que protege crianças e adolescentes é o acesso a cuidados informados e o reconhecimento legal, não a sua negação.

3. O parecer "expurgado": a cronologia de uma ocultação grave

A peça mais grave joga-se nos bastidores. Foi o Público, em peças do jornalista Filipe Santa-Bárbara, que reconstruiu a cronologia que se segue.

  • 10 de março de 2026: A chefe de gabinete da ministra Margarida Balseiro Lopes (Cultura, Juventude e Desporto, com tutela da Igualdade) envia email à presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), Carina Quaresma, pedindo expressamente um "parecer" sobre os projetos do PSD, Chega, CDS-PP e Bloco de Esquerda. Prazo: 16 de março.
  • 13 de março: Os serviços técnicos da CIG concluem quatro pareceres, com posição crítica fundamentada. Sobre o PSD, o regresso ao regime de 2011 seria uma "negação do direito à autodeterminação" e poderia causar "danos físicos e psíquicos" a uma população vulnerável; levantam-se reservas de constitucionalidade. Sobre CDS-PP e Chega, conclusão idêntica: proibir bloqueadores contraria as sociedades médicas internacionais. Conclusão global: manter a Lei n.º 38/2018, sob pena de "potencial dano para a saúde, bem-estar e qualidade de vida" das pessoas trans e intersexo.
  • 20 de março: PSD, CH e CDS aprovam na generalidade os três projetos da direita. Os pareceres da CIG nunca chegaram aos deputados. O debate decorre sem a posição da entidade pública competente.
  • 26 de março: O Público noticia pela primeira vez a existência de um parecer da CIG que o Governo mantém oculto. A CIG e o gabinete da ministra recusam comentar. A 2 de abril, PSD, CDS-PP e Chega chumbam o requerimento para audição urgente da ministra, minimizando o documento como "meras notas técnicas". A 10 de abril, a CIG ignora a Lei de Acesso aos Documentos Administrativos (LADA) num pedido do Diário de Notícias, alegando apenas que o assunto está "centralizado no gabinete da ministra".
  • 14 de abril: Audição regimental de Balseiro Lopes na Comissão de Assuntos Constitucionais. A ministra confirma o documento, mas argumenta que tais textos são "por regra, reservados". Acrescenta que "não foi pedido nenhum estudo de impacto" e que nunca fora pedido um parecer, apenas uma análise técnica. Promete enviar o documento; o envio é feito depois da audição, impedindo qualquer confronto durante o debate. O que chega aos deputados é uma "nota técnica" sem posição institucional, apenas com referências a opiniões de especialistas externos.
  • 18 de abril: O Público publica a peça decisiva: o documento que chegou à AR foi expurgado das críticas da CIG à nova lei. Em comunicado, a CIG defende-se: o documento "corresponde" ao que produziu, sem ajustes da tutela. A frase é dupla: exonera o Ministério, mas implica que terá sido dentro da própria CIG que as conclusões dos técnicos foram retiradas. O deputado Fabian Figueiredo solicita audição urgente e o parecer integral, "sem qualquer supressão", recordando que o email de 10 de março usa expressamente a palavra "parecer". E sublinha: "um parecer posiciona institucionalmente a entidade que o emite; uma nota técnica não".
  • 29 de abril: PSD, CDS-PP e Chega chumbam novos requerimentos do Bloco de Esquerda e do Livre para audições da ministra e da presidente da CIG, e para acesso aos documentos. 
  • 9 de maio: O Bloco volta à carga com novos requerimentos: quer ouvir a secretária de Estado Adjunta e da Igualdade e pedir os documentos diretamente à CIG. O Público continua a insistir na pergunta sem resposta: foram quatro pareceres solicitados por escrito pelo gabinete ministerial; ao Parlamento chegou uma nota técnica esvaziada. Quem retirou as conclusões, e quando?

As contradições da ministra, em resumo:

  1. Disse que não foi pedido um parecer, mas o email de 10 de março do seu ministério usa essa palavra.
  2. Disse que os documentos são "por regra, reservados", sem invocar base legal, em violação da LADA, que jornalistas tentaram acionar sem sucesso.
  3. Disse que "não foi pedido nenhum estudo de impacto", quando os pareceres internos da CIG continham análises de impacto sobre saúde, bem-estar e direitos das pessoas trans e intersexo.
  4. Disse que o documento entregue correspondia ao trabalho da CIG — sem explicar como ficou de fora a posição crítica dos serviços técnicos.

A questão é se Portugal se mantém na linha da frente dos direitos LGBTI+, ou se se alinha com a Hungria, a Rússia e os estados norte-americanos que retiram direitos a pessoas trans. A ciência, a medicina, as ordens profissionais, as associações da sociedade civil e o próprio parecer da CIG são claros: as alterações que a direita propõe são erradas, e baseiam-se em falsidades.  Não está tudo perdido, a força da mobilização social pode derrotar os projetos que se encontram agora em especialidade.

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