Futebol

Hooligans israelitas racistas atacaram e fizeram-se de vítimas – irá isso repetir-se hoje?

14 de novembro 2024 - 12:32

Grupos de hooligans atacaram centro de Amesterdão, carregando paus, vandalizando a cidade e atacando pessoas. Quando foram confrontados pelos habitantes, disseram ser vítimas de antissemitismo. O mesmo poderá acontecer em Paris.

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Ultras do Maccabi Telavive em Amesterdão. Foto de Jeroen Jumelet/EPA/LUSA
Ultras do Maccabi Telavive em Amesterdão. Foto de Jeroen Jumelet/EPA/LUSA

Na semana passada, vários confrontos entre ultras do Maccabi de Telavive e cidadãos de Amesterdão tornaram-se cabeçalho de notícia e alvo de declarações por parte dos governantes de vários países. A história foi contada como um ato de antissemitismo e foram até lançadas acusações de “Pogrom” (perseguição de grupos étnicos) por órgãos de comunicação social e dirigentes políticos. Entretanto, nas redes sociais, vários vídeos foram desmentindo a acusação de que a violência seria apenas contra os ultras israelitas e que estes seriam meras vítimas. O que aconteceu realmente?

O ambiente na capital dos Países Baixos começou a ficar hostil na véspera do jogo, quando as claques organizadas do Maccabi de Telavive, que viajou para Amesterdão na companhia da Mossad, percorreram a cidade cantando cânticos de morte aos árabes e aos palestinianos, como por exemplo “não há escolas em Gaza porque já não há crianças”. Além disso, vários ultras do Maccabi destruíram bandeiras palestinianas colocadas por apoiantes da causa pela cidade, havendo também confrontos violentos confirmados com taxistas da cidade.

“Os apoiantes do Maccabi destruíram uma bandeira de um edifício em Rokin e destruíram um táxi. Na praça Dam, uma bandeira palestiniana foi ardida”, foi assim que o diretor da polícia de Amesterdão, Peter Holla, descreveu o acontecido. Os ultras armaram-se com paus de madeira de forma organizada para espalhar o ódio e a violência.

No dia seguinte, durante o próprio jogo, os ultras israelitas romperam o minuto de silêncio que antecedeu o jogo, em memória das vítimas das cheias em Valência. Com o resto do estádio em silêncio, os assobios e gritos dos apoiantes do Maccabi de Telavive recusaram-se a prestar homenagem às vítimas da catástrofe no Estado espanhol.

Depois do jogo, onde a equipa israelita foi goleada 5-0, as claques do Maccabi saíram novamente à rua com intenção de causar distúrbios. Lançando novamente cânticos como “deixem o IDF ganhar para foder os árabes”, os ultras israelitas voltaram a arrancar bandeiras e a atacar cidadãos e estabelecimentos comerciais árabes. Segundo relatos de cidadãos de Amesterdão, na rede social X, as claques israelitas foram “violentas e vaguearam as ruas com grupos de duzentas pessoas”.

Durante essa noite, os bandos racistas do Maccabi de Telavive foram, no entanto, confrontados violentamente pelos cidadãos de Amesterdão. Face a essa resposta, começou a ser fabricada uma narrativa, reforçada pela reação de Netanyahu e apoiada por Geert Wilders, líder do partido de extrema-direita nos Países Baixos, de que os ultras do Maccabi de Telavive teriam sido vítimas de “ataques antissemitas inaceitáveis”.

Essa narrativa foi cristalizada pelas reações de vários líderes internacionais, nomeadamente pela presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen, pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer e pelo Secretário dos Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos da América, Anthony Blinken, mas também pelo ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, e pelo governo espanhol, sempre usando a acusação de antissemitismo. Netanyahu procurou dramatizar a situação ao enviar aviões para Amesterdão para “resgatar” os adeptos envolvidos nos confrontos.

No meio da confusão mediática, vários episódios foram demonstrando a forma como se deturpava a narrativa nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais. O exemplo mais significativo terá sido o do canal de notícias britânico Sky News, que publicou uma peça nas redes sociais a denunciar a violência dos bandos racistas israelitas, para passado pouco tempo o retirarem do ar. Mas outros episódios também foram denunciados nas redes sociais, é o caso de um vídeo partilhado por vários órgãos de comunicação social como sendo de uma agressão a um israelita, que foi denunciado pela própria autora como sendo de um grupo de israelitas a atacar um homem holandês.
 

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Entretanto, várias vozes se foram unindo na procura do esclarecimento da situação. É o caso do coletivo “judeu anti-zionista” (segundo sua própria descrição) Erev Rav, com base nos Países Baixos, que condenou a forma como a polícia lídou com os confrontos. “È preocupante que as detenções tenham sido seletivas, priorizando jovens marroquinos que confrontaram estes grupos, enquanto os ultras do Maccabi que iniciaram as provocações não enfrentam consequências”, lê-se no comunicado do grupo.

O coletivo denunciou a representação mediática dos confrontos como “um ataque antissemita sem provocação”, uma vez que os ultras israelitas iniciaram as provocações, destruíram propriedade privada e intimidaram transeuntes.

De facto, o relatório publicado pelo município de Amesterdão dá conta de que ao mesmo tempo que os confrontos entre os grupos israelitas e os cidadãos de Amesterdão aconteciam, na Sinagoga portuguesa a comunidade judaica dos Países Baixos juntava-se pacificamente e sem quaisquer distúrbios numa cerimónia de memória da Noite de Cristal, indiciando que os confrontos não terão tido motivações étnicas, religiosas ou antissemitas, uma vez que não houve qualquer tentativa de ataque a essa cerimónia simbólica.

Mas o relatório também demonstra como a resposta dada pelas forças de segurança e pelos responsáveis políticos foram desiguais. É descrita, por exemplo, a preocupação constante dos ultras do Maccabi de Telavive com questões de segurança, estando as autoridades em constante comunicação com estes. Entre os intervenientes dessas comunicações estão a embaixada israelita e representantes do Estado israelita. Mas os registos de contactos entre com as comunidades árabes são mínimos, e com as comunidades palestinianas são nulos.

Ainda assim, o documento do município têm tendência a culpabilizar o que chama de “agitadores”, apesar de reconhecer várias vezes a agressão e a violência dos ultras do Maccabi, falando em “agressões” e de várias vezes falar em grupos de ultras que vagueavam a cidade, num dos incidentes “carregando paus e cometendo atos de vandalismo”.

Os responsáveis políticos têm utilizado a ocasião para tentar capitalizar o sentimento anti-imigração. Não só Geert Wilders, mas a própria presidente do município, Femke Halsema, e o primeiro-ministro, Dick Schoof, têm feito passar a narrativa de “antissemitismo”.

Depois dos confrontos, os apoiantes pró-Palestina em Amesterdão organizaram uma manifestação pacífica em defesa da causa palestiniana e para protestar a narrativa criada na comunicação social. No entanto, foram detidas mais de 50 pessoas, uma vez que as manifestações tinham sido banidas em Amesterdão no domingo. Na passada quarta-feira, dezenas de pessoas foram novamente detidas pela polícia numa nova manifestação pacífica pró-Palestina.

Com as tensões elevadas, há receios de que confrontos liderados por hooligans israelitas se voltem a repetir esta quinta-feira, quando a seleção francesa defronta a seleção israelita em Paris. A polícia parisiense já anunciou quatro mil agentes presentes durante o jogo para “pacificar” as tensões. Até agora, apenas 15 a 20 mil bilhetes foram vendidos de um estádio que tem capacidade para 80 mil pessoas e, segundo a 20 Minutes, 74% do público inquirido num estudo da Odoxa acha que o jogo não deveria ser jogado na capital.

A campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel em França e a Associação de Solidariedade entre a França e a Palestina denunciaram a receção da seleção nacional de um Estado genocida, apelando ao boicote do jogo e a exclusão da equipa israelita de qualquer competição internacional.