Extrema-direita

Hooligans israelitas espalharam o caos em Amesterdão

08 de novembro 2024 - 15:37

Cinco pessoas ficaram feridas e dezenas foram detidas após dois dias de distúrbios provocados pelos ultras do Maccabi de Telavive. Mas Netanyahu, a extrema-direita que governa os Países Baixos, Ursula von der Leyen e Paulo Rangel apontam o dedo ao antissemitismo.

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Ultras do Maccabi Telavive em Amesterdão
Ultras do Maccabi Telavive em Amesterdão. Foto Jeroen Jumelet

O jogo de futebol desta quinta-feira, a contar para a Liga Europa, entre o Ajax de Amesterdão e o Maccabi de Telavive ficou marcado por atos violentos antes e após o encontro que terminou com uma goleada de 5-0 a favor da equipa da casa.

Fora de campo, o ambiente de tensão previsto pela polícia local começou a confirmar-se na véspera, com grupos de ultras da equipa israelita a entoarem cânticos a apelar à morte dos árabes e a atacarem os sinais visíveis de solidariedade com a Palestina que encontravam na cidade.

“Eles começaram a atacar casas de pessoas de Amesterdão que tinham bandeiras palestinianas, foi aí que a violência começou”, disse à Al Jazeera o deputado municipal Jazie Veldhuyzen. A partir daí, “os habitantes de Amesterdão mobilizaram-se e fizeram frente aos ataques que começaram na quarta-feira por parte dos hooligans do Maccabi”, acrescentou. A polícia de Amesterdão, pela voz do seu chefe Peter Holla citado pelo Guardian, reconheceu que os ultras do Maccabi retiraram uma bandeira palestiniana no centro da cidade, destruíram um táxi e queimaram uma bandeira da Palestina na Praça Dam. E que apesar dos 800 polícias destacados para a operação em torno do jogo, com semanas de preparação, foi quase impossível conter as escaramuças entre grupos em vários pontos da cidade, dada a sua curta duração.

A comunidade palestiniana e os grupos de solidariedade contra o genocídio de Gaza tinham marcada para junto ao estádio uma concentração de protesto pela participação das equipas israelitas em competições desportivas internacionais. Por ordem da Câmara Municipal, o protesto foi transferido para uma zona perto da Praça Dam, no centro da cidade, esta quarta-feira. Grupos de hooligans do Maccabi lançaram provocações junto do local, procurando iniciar confrontos com os manifestantes pró-Palestina.

Mo Kotesh, ativista palestiniano residente em Amesterdão, contou à Al Jazeera que a concentração decorreu pacificamente até à chegada dos ultras, e que as pessoas reagiram para se defender e às suas casas e lojas. Entre os insultos dirigidos aos manifestantes, ouviu-se que “Não há escolas em Gaza porque já não há crianças”.

O Middle East Eye relata que nas horas seguintes um taxista árabe foi violentamente atacado por um grupo que aparentemente pertencia aos ultras israelitas, embora a polícia não tenha feito qualquer detenção que os permitisse identificar.

Na tarde de quinta-feira, antes do jogo, os hooligans prosseguiram os cânticos de apoio ao exército de Israel, incentivando-os a matar os palestinianos. Já dentro do estádio, boicotaram o minuto de silêncio em memória das vítimas das cheias de Valência.

As cenas de violência prosseguiram após o jogo, com novas provocações e desta vez com a resposta de grupos de jovens da cidade e a intervenção da polícia, como atestam inúmeros vídeos publicados nas redes sociais. O balanço final anunciado pela polícia de Amesterdão foi de cinco feridos e 62 pessoas detidas. A imprensa israelita elevava a contagem de feridos para dez e a presidente da Câmara de Amesterdão, Femke Halsema, disse esta sexta-feira ser difícil fazer uma contagem precisa do número de feridos nestes confrontos.

Esta não é a primeira vez que os ultras de extrema-direita do Maccabi Telavive espalham o terror nas cidades por onde passam. Em março, um homem que trazia uma bandeira palestiniana foi espancado por este grupo no centro de Atenas antes do jogo com o Olympiakos.

Netanyahu diz que os hooligans foram vítimas de antissemitismo, direita europeia repete as acusações

“Os líderes mais importantes de Israel, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, têm cortejado abertamente os adeptos de futebol de extrema-direita em Israel e, em troca, têm recebido o seu apoio violento. O racismo e a violência bem documentados exibidos pelos adeptos do Maccabi Telavive em Amesterdão espelham a violência do governo israelita em Gaza e no Líbano”, disse ao Middle East Eye o fundador do grupo pelos direitos humanos no desporto Fairsquare, Nicholas Mcgeehan.

E a primeira reação de Netanyahu, prontamente secundada pelo aliado da extrema-direita antimuçulmana neerlandesa Geert Wilders, foi procurar tornar os ultras do Maccabi em vítimas de ataques antissemitas. O partido de Wilders governa os Países Baixos em coligação com os liberais e o primeiro-ministro Dick Shoof apelidou os confrontos de “ataques antissemitas inaceitáveis”, sem mencionar os ataques dos hooligans contra cidadãos do seu país. Wilders foi mais longe e chamou-os de “pogrom” e “caça aos judeus”. Em Israel houve mesmo quem comparasse os distúrbios com os ataques do Hamas de 7 de outubro do ano passado, com o governo a anunciar o envio de aviões para “resgatar” os ultras do Maccabi, entretanto confinados aos respetivos hotéis.

Na mesma linha, Ursula von der Leyen diz ter ficado indignada com os “ataques vis contra cidadãos israelitas em Amesterdão”, associando-os ao antissemitismo. O mesmo fez o ministro português Paulo Rangel, considerando que “estes atos põem em causa os mais fundamentais valores europeus”.

Para o comentador político israelita Ori Goldsberg, em declarações à Al Jazeera, “o facto de os adeptos israelitas provocarem tumultos no meio de Amesterdão, cantarem canções racistas e subirem às paredes das casas para arrancarem bandeiras palestinianas... faz parte da condição israelita neste momento: Um completo alheamento entre as ações e as consequências”.