“Governo continua a tratar médicos e utentes do SNS com desdém e falta de respeito”

27 de julho 2023 - 16:10

Proposta governamental sobre a grelha salarial e a dedicação plena dos médicos foi enviada aos sindicatos às três da manhã, a pouco mais de 24h da reunião com as estruturas sindicais. FNAM acusa o executivo de desrespeito e SIM considera que aumento de 1,6% “não faz qualquer sentido”.

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Concentração de sindicalistas junto ao Ministério da Saúde. Foto Tiago Petiga/Lusa (Arquivo)

“Ao fim de 14 meses, o Governo formaliza e inicia na prática o processo negocial, enviando uma proposta sobre a grelha salarial e a dedicação plena (…), mas nós achamos, na primeira leitura, que não faz qualquer sentido propor um aumento salarial, mantendo os 1,6%”, afirmou o secretário-geral Sindicato Independente dos Médicos (SIM) em declarações à agência Lusa.

Jorge Roque da Cunha informou que a estrutura sindical que vai apresentar uma contraproposta, garantido que não irá “demorar tanto tempo como o Governo” demorou a apresentar a sua.

“Naturalmente que mantemos o espírito negocial, mas infelizmente [mantêm-se] as razões desta greve, que fizemos tudo para evitar, e que se consubstancia num valor muito expressivo de adesão, de cerca de 93% dos colegas na Medicina Geral e Familiar nos primeiros dois dias e cerca de 91% nos cuidados hospitalares”, apontou o dirigente sindical.

Jorge Roque da Cunha reforçou o apelo ao primeiro-ministro e ao ministro das Finanças no sentido de cumprirem “o que proclamam politicamente: Investir no Serviço Nacional de Saúde”.

“No ano passado foram cobrados 11,8 mil milhões de euros a mais do que aquilo que se fez em relação a 2021. Além disso, temos o PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] que também são muitos milhões de euros que vêm para o nosso país e, portanto, a bem do bom senso, nós apelamos fortemente para que o Ministério da Saúde e o Governo alterem esta proposta inicial porque de outra forma as razões do descontentamento continuarão e as razões para os médicos não continuarem no Serviço Nacional de Saúde também”, frisou.

O dirigente sindical defendeu que, “a bem do bom senso”, o aumento deveria ter em conta a perda de poder de compra dos médicos nos últimos 10 anos, de 20%.

“Naturalmente esperamos que isso aconteça, porque se não acontecer, aquilo que não se gasta hoje acaba por depois o Estado ser obrigado a gastar com os prestadores de serviços, além dos problemas de saúde que são agravados nas pessoas, quer em termos de mortes, quer de incapacidades e, portanto, cá estaremos para negociar", destacou.

Jorge Roque da Cunha acrescentou que, se a proposta do Governo se mantiver, “naturalmente irá continuar a haver muita dificuldade a contratar médicos, irão continuar a aumentar o número de portugueses sem médico de família e irão aumentar os tempos de espera para as cirurgias e para as consultas hospitalares e sem dúvida, irão aumentar o número de portugueses que vão precisar de seguros de saúde”.

“Parece que a ideia é que ninguém a leia”, diz a FNAM sobre a proposta do Governo

A presidente da Federação Nacional dos Médicos, Joana Bordalo e Sá, criticou que o executivo socialista tenha optado por enviar a sua proposta de madrugada, “com pouco mais de 24 de antecedência da reunião”. No seu entender, tal demonstra “falta de competência” e revela que o ministro da Saúde continua a tratar os médicos, os utentes e os doentes “com uma enorme falta de respeito”.

“Parece que a ideia é que ninguém a leia”, realçou Joana Bordalo e Sá.

Em comunicado de imprensa, a FNAM confirmou a sua presença na reunião com o Ministro da Saúde, que irá decorrer esta sexta-feira, a partir das 10h.

“A FNAM confirma que estará presente no Ministério da Saúde, para registar presencialmente a entrega da proposta e dar conta da sua posição. Não faremos qualquer análise parcelar da proposta até que tenhamos uma apreciação global para todos os médicos”, lê-se na missiva.

Assinalando que o Ministério da Saúde “precisou de 15 meses para concluir propostas”, a estrutura sindical assegurou que a sua avaliação dessa proposta “será tão exigente como responsável” e que a sua contraproposta, a ser entregue em tempo útil, visará servir os médicos e o Serviço Nacional de Saúde.

A presidente da FNAM adiantou que a greve agendada para os dias 1 e 2 de agosto se mantém, assim como a concentração agendada para terça-feira em frente ao Ministério da Saúde.