Inglaterra

Extrema-direita ganha mais um lugar no Parlamento e avança nas eleições locais inglesas

02 de maio 2025 - 15:31

Por seis votos, os trabalhistas perderam um círculo eleitoral seguro e agora várias vozes exigem ao governo uma mudança de rumo. Com os votos em várias eleições locais a serem contados ao longo desta sexta-feira, a tendência para o crescimento do Reform é clara. Farage reivindica já ser o principal partido da oposição.

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Farage reagindo à eleição de mais uma deputada do seu partido.
Farage reagindo à eleição de mais uma deputada do seu partido. Foto de Reform UK.

A Inglaterra foi a votos esta quinta-feira. Os resultados ainda estão a ser contados em muitas das eleições locais mas a tendência é clara e segue as sondagens nacionais que têm vindo a ser publicadas nos últimos tempos: a tradicional bipolarização entre trabalhistas e conservadores está a ser definitivamente abalada.

Mais um assento parlamentar para o Reform

No único lugar parlamentar em disputa, a extrema-direita ganhou por apenas seis votos, a corrida mais renhida da história contemporânea do país. Sarah Pochin, a candidata do Reform, ultrapassou Karen Shore no círculo eleitoral de Runcorn and Helsby, no noroeste da Inglaterra, um lugar tradicionalmente seguro para os trabalhistas. As eleições tinham sido antecipadas depois do deputado Mike Amesbury ter sido forçado a demitir-se por agressão a um eleitor. Este tinha ganho as eleições anteriores com uma vantagem de 15.400 votos. Mais do que o total do que o seu partido conseguiu desta feita (12.639).

A campanha da extrema-direita foi marcada pelo alimentar do medo da chegada de migrantes ao país e pelas críticas aos cortes ao subsídio de inverno para aquecimento das casas e ao aumento das faturas de eletricidade.

O Reform passará assim a ter cinco deputados no parlamento. E as sondagens nacionais dão-lhe a possibilidade de aumentar exponencialmente este número nas próximas eleições que ainda estão longe, prefigurando-se mesmo como o favorito. Esta é uma situação também inédita na história recente do país.

Aumento forte de voto da extrema-direita nas eleições locais

No conjunto destas eleições autárquicas, que abrangem 24 conselhos locais e seis mayors regionais, os votos vão continuar a ser contados ao longo desta sexta-feira, mas o avanço da extrema-direita é notório, colocando-se para já como a segunda força em North Tyneside, West of England e Doncaster.

Mas a grande notícia local é a sua primeira eleição de um mayor. Em Greater Lincolnshire, Andrea Jenkyns, que tinha pertencido aos Conservadores, venceu com 42% dos votos.

A tendência no resto das contagens tem sido a vitória de dezenas de lugares nos conselhos locais para o Reform e perdas para os trabalhistas e para os conservadores.

Extrema-direita canta vitória e diz que é agora o principal partido da oposição

Nigel Farage, o líder do partido de extrema-direita, não esperou que os resultados estivessem todos contados. Bastou-lhe saber da vitória do lugar de deputado, da do lugar de mayor e de algumas dezenas nos conselhos para auto-designar o Reform como o principal partido da oposição a partir de agora. “Entrámos muito no voto trabalhista e, noutras partes de Inglaterra, entrámos muito no voto conservador. Depois desta noite, não há dúvida de que, na maior parte do país, somos agora o principal partido de oposição a este governo.”

Abalados por fortes perdas eleitorais, os conservadores tentam rebater a proclamação de Farage. Nigel Huddleston, dirigente do partido, justifica os maus resultados com a nova liderança de Kemi Badenoch, no lugar apenas há seis meses, admitindo contudo que o partido irá demorar “muito tempo” a reconquistar a confiança dos eleitores depois de um período “muito, muito difícil”. Asseguram contudo que continuarão a responsabilizar o Labour pelo governo “desastroso”.

Do lado do executivo, o primeiro-ministro Keir Starmer admite um resultado “desapontante” e diz que compreendeu a mensagem, depois de ter sido eleito o ano passado com promessas de mudança. Justifica-se com ter recebido uma “economia estragada”. Uma das medidas que sentiu necessidade de explicar é o corte nos subsídios ao aquecimento das casas para muitos pensionistas, e que está a ser apresentado como uma das razões da impopularidade do Governo. Para Starmer, a decisão nasceu da escolha de “garantir que a nossa economia estava estável” e que os resultados se começam a ver agora com a diminuição de filas de espera no Serviço Nacional de Saúde e com o aumento das pensões.

A esquerda que resta no partido não está convencida

Alguns deputados das alas mais à esquerda do partido, que resistiram às purgas trabalhistas dos últimos anos, não parecem convencidos com a argumentação de Starmer. Kim Johnson, nas suas redes sociais, conclui que o Governo tem de mudar de rumo.

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Para ela, “Runcorn é um aviso que não podemos ignorar. Os eleitores querem mudança – e se não a oferecermos com medidas ousadas e esperançosas que reconstruam a confiança, a extrema-direita vai fazê-lo”. Alerta que, se isto não acontecer, a alternativa não será “mais do mesmo” mas um governo de extrema-direita no Reino Unido.

O seu colega deputado Richard Burgon concorda, criticando uma derrota “inteiramente evitável” que é “resultado direto das escolhas políticas da liderança do partido”. Para além do corte na ajuda ao pagamento do combustível no inverno, sublinha como razão os cortes nos subsídios por invalidez, exigindo um aumento dos impostos dos mais ricos, entre outras medidas. “A liderança trabalhista precisa de mudar de rumo urgentemente” ou “as coisas podem piorar muito” com as consequências “horríveis” de um governo de extrema-direita, conclui.

Entre os autarcas que foram a votos há também muitos a responsabilizar a direção do partido pela queda eleitoral. Ros Jones é uma delas. Venceu a eleição para mayor de Doncaster mas apenas com 698 votos mais do que o Reform. Acha que o Governo deve passar a ouvir mais as pessoas nas ruas e crítica as “duas ou três ocasiões” em que o executivo de Starmer falhou, citando os mesmos exemplos que os seus colegas de partido.