Trabalho

De Lisboa à Europa: A dialética da exploração racializada no capitalismo de plataformas

10 de dezembro 2025 - 10:16

O roubo das bicicletas e o assassinato de um trabalhador não são incidentes isolados. São a expressão necessária de uma contradição fundamental: o capital europeu depende estruturalmente da superexploração da força de trabalho imigrante ao mesmo tempo que reproduz estas vidas como descartáveis.

por

Nirsan Dambrós

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Estafeta
Foto Pedro Gomes de Almeida

Os recentes ataques violentos contra entregadores por plataformas digitais – o assassinato de Mohamed Shamim Bhai em Lisboa e a tentativa de homicídio contra André Oliveira em Dublin, ambos com suas bicicletas roubadas – não constituem episódios aleatórios da barbárie social. Eles representam a expressão fenoménica mais aguda de uma contradição estrutural do capitalismo contemporâneo europeu: a sua dependência material da superexploração de uma força de trabalho racializada e precarizada, concomitantemente à produção ideológica dessa mesma força como descartável e vulnerável. Este processo é a síntese de fatores históricos e estruturais, interligados e incorporados socialmente: a inovação tecnológica a serviço da subsunção real do trabalho[1], a função histórica do racismo como divisão da classe trabalhadora e a operação concertada de aparelhos estatais e privados para naturalizar essa violência.

A fabricação da descartabilidade

Antes mesmo da violência física direcionada a trabalhadores e trabalhadoras imigrantes racializados, opera-se um lento assassinato simbólico e social. O trabalho dos/as estafetas ou entregadores/as por plataformas digitais ergue-se como a quintessência da precarização do século XXI, materializando a forma mais pura de subsunção. A sofisticação tecnológica, ao invés de emancipar, amplifica a desumanização, onde a suposta autonomia revela-se uma falácia, totalmente dissociada das condições concretas de precarização do trabalho (e da vida). O/a entregador/a por aplicativos, chamado de “empreendedor/a", é na prática um/a assalariado/a sem direitos, totalmente subordinado/a à tirania algorítmica que dita ritmo, remuneração e a própria existência laboral.

Esta força de trabalho é recrutada maioritariamente do exército industrial de reserva global – imigrantes do Sul Global, num recorte social que não é casual, com impactos de género e de origem étnico-racial. Estas marcas asseguram uma condição de hipervulnerabilização que maximiza a exploração, direcionando estes corpos para as franjas mais precárias do mercado de trabalho. Deste modo, o capital promove o desmonte da vida do trabalhador, o que Marx conceptualizou de “empobrecimento”: um processo total que não se limita ao salário, mas consome o físico, o mental, o espiritual e o subjetivo. O roubo da bicicleta, portanto, não é um furto banal. É a destruição da ferramenta de trabalho, o elo frágil com um rendimento parco que sustenta a reprodução social do trabalhador, o lucro das plataformas e de todo um sistema parasitário com os seus alugueres de contas e meios de transporte, que abocanha uma parte significativa do seu miserável rendimento. É um ataque frontal a uma condição material já espremida.

A mercadorização do ódio

Esta precarização material e subjetiva que intensifica a crescente deterioração das condições laborais é fertilizada por uma violência ideológica sistemática, disseminada tanto pelas estruturas oficiais do poder político quanto – e de modo cada vez mais central – pelas grandes máquinas privadas de formação da opinião. Discursos neofascistas e anti-imigração, hoje institucionalizados em parlamentos e, propagados em seus outdoors racistas, são amplificados exponencialmente por conglomerados mediáticos e, sobretudo, pelos algoritmos das redes sociais. Estes últimos emergem como a nova linha de montagem dessa hegemonia, mercantilizando o ódio para realizar um duplo movimento: transmutar a precarização estruturalmente produzida em um suposto déficit cultural ou civilizacional do imigrante, e produzir socialmente a noção de que certos corpos são vidas descartáveis e menos importantes.

Nesse cenário, a existência dos/as estafetas torna-se meramente funcional para a lógica produtivista e para a circulação do capital. Invisibilizados/as pelo Estado e explorados/as pelas plataformas, a sua vulnerabilidade material é intensificada por uma narrativa tóxica que transforma o sonho de uma vida digna numa existência "severina", marcada pelo medo, pela angústia e pela precarização total. O ódio, longe de ser marginal, é institucionalizado e lucrativo. Partidos, programas de televisão e as próprias plataformas digitais lucram com a desumanização do "outro", transformando o trabalhador imigrante de ser humano em símbolo a ser eliminado – do emprego, do bairro, do país.

A síntese das contradições e o horizonte da luta

A confluência fatal destas contradições se dá quando o discurso encontra a prática. O ataque ao trabalhador brasileiro na Irlanda e ao trabalhador bengali em Lisboa é o ponto onde essas duas linhas de força se cruzam: as vítimas já estavam socialmente estigmatizadas como descartáveis, pela sua posição hiperprecarizada e pela sua identidade racializada. A violência física é a culminação extrema de uma violência estrutural de raízes coloniais, que persiste no genoma das sociedades europeias.

Neste contexto, a convocatória da Greve Geral em Portugal, no próximo dia 11 de dezembro, contra o insidioso "Pacote Laboral", que é um "Pacote de Austeridade", adquire significado estratégico profundo. Esta ofensiva neoliberal, ao aprofundar a flexibilização e a desmontagem da segurança social, não ataca apenas um segmento: ataca as condições de vida de toda a classe trabalhadora, com impacto catastrófico nos já hiperprecarizados. A luta contra este pacote, portanto, não é um conflito laboral restrito.

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É uma trincheira contra a lógica global de acumulação flexível e racializada. A capacidade do movimento sindical (CGTP e UGT) e de coletivos como a ASITRAP e os Estafetas em Luta forjarem uma unidade de classe que transcenda a divisão nacional e racial será o termómetro decisivo da resistência possível.

O objetivo desta análise não é a condenação moral dos fenómenos superficiais, mas o combate à estrutura material que os produz e os reproduz. O roubo das bicicletas e o assassinato de um trabalhador não são incidentes isolados. São a expressão necessária de uma contradição fundamental: o capital europeu depende estruturalmente da superexploração da força de trabalho imigrante, cujo sangue e suor sustentam a taxa de lucro, ao mesmo tempo que reproduz estas vidas como descartáveis. Combater o racismo é combater um mecanismo essencial de divisão da classe e de redução do custo do trabalho. Defender estas vidas é defender a unidade proletária contra uma dupla alienação (no trabalho e na existência social) imposta por um capitalismo que naturaliza a morte como subproduto da rentabilidade. A luta deve ser dirigida, intransigentemente, contra o modelo económico das plataformas, contra a mercantilização da violência ideológica e pela defesa de direitos universais, como a regularização migratória, entendida não como concessão, mas como trincheira histórica contra a barbárie.


Nirsan Dambrós é Doutoranda em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – ISCSP/ULisboa.

Nota:

1 - De modo muito breve, pois não há espaço para desenvolver esta importante categoria marxiana, a subsunção do trabalho ao capital, que pode ser formal ou real, aqui não deve ser entendida como mera subordinação, mas como um processo de dominação e alienação, no qual o trabalhador se torna parte do capital, aquilo que o oprime, aliena e explora. Sendo assim, a subsunção capitalista é um domínio, um processo de perda do controle e da capacidade de dirigir a própria produção com a dominação do capital.