Crise da habitação traduz-se em subida exponencial de pessoas sem-abrigo

20 de outubro 2023 - 18:27

Em 2019, o Presidente da República dizia que seriam tirados da rua todos os que dela quisessem sair, mas o número de pessoas em situação de sem-abrigo em Portugal aumentou 78% em quatro anos e, neste momento, “há famílias inteiras sem casa”.

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Foto de Paulete Matos.

Conforme sublinha o jornal Expresso, os dados oficiais mais recentes, relativos a 31 de dezembro, identificam 10.773 pessoas sem-abrigo em Portugal, face às 6.044 registadas em 2018, o que implica um aumento de 78%.

As organizações que prestam apoio diariamente, e as próprias pessoas sem abrigo, apontam que esta subida deve ser ainda mais pronunciada, tendo em conta o agravamento da situação que se fez sentir nos últimos meses.

“O número aumentou bastante e foi transversal, de portugueses a estrangeiros, de jovens a idosos. Só este ano registamos mais cerca de 25%, essencialmente devido ao agravamento das condições de vida, à imigração e ao aumento do consumo de droga”, frisou Renata Alves, diretora-geral da Comunidade Vida e Paz.

“Em Lisboa nunca se viram tantas tendas. E o fenómeno dos sem-abrigo mudou. Antes, eram essencialmente homens com problemas de saúde mental ou dependência. Agora o perfil é muito variado. E há famílias inteiras sem casa”, reiterou Rita Valadas, presidente da Cáritas.

Américo Nave, diretor da Crescer, enfatizou que “é claro que este aumento está relacionado com a crise da habitação”.

“Sofremos uma pressão cada vez maior de pessoas ainda com casa a pedir-nos ajuda porque vão ser despejadas, o que não acontecia há anos”, detalhou.

Entre as novas situações de pessoas sem-abrigo, destaca-se o aumento de cidadãos estrangeiros.

“Ganhou grande visibilidade até em distritos onde o problema nunca foi significativo, como Beja, onde há cerca de mil pessoas a viver na rua, mais do quádruplo do que há um ano. São sobretudo imigrantes, que vieram em busca de uma vida melhor. O aumento foi tal que a Cáritas teve de criar uma resposta de emergência, que ali nunca fora precisa, reconvertendo-se um antigo lar de estudantes em centro de acolhimento. Mas Beja é apenas um retrato do que está a acontecer no país inteiro”, explicou Rita Valadas.

Em Lisboa, a Comunidade Vida e Paz também detetou uma subida considerável do número de imigrantes a viver na rua.

“Continuamos a falhar na resolução do problema”

Renata Alves alertou que “os centros de acolhimento estão cheios”: “Temos uma unidade para 40 pessoas sempre lotada. E as instituições estão a atravessar muitas dificuldades pela subida de custos, ausência de apoios e descida de donativos”, referiu a representante da da Comunidade Vida e Paz.

“Neste momento temos cerca de 20 respostas, que vão desde a intervenção na rua até centros de acolhimento e de reabilitação e não há financiamento para as manter todas. Já deixámos um dos apartamentos partilhados por causa do custo da renda”, continuou.

Rita Valadas, da Cáritas, confirmou que “a situação está muito agressiva” e que “as respostas não estavam dimensionadas para um problema desta magnitude”.

“Devíamos assumir todos que falhámos. Gastam-se milhões de euros e as pessoas continuam na rua ou numa porta giratória dependentes de uma lógica de caridade. Há mais de dez mil sem-abrigo e o PRR não tem um tostão para lhes dar casa. O único dinheiro que existe é para respostas de emergência e temporárias. Continuamos a falhar na resolução do problema”, criticou Américo Nave.

A realidade contrasta, de facto, com o objetivo delineado pelo próprio Presidente da República, que, em 2019, assumiu o compromisso de tirar da rua até 2023 todos os que dela quisessem sair. Na passada terça-feira, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, Marcelo Rebelo de Sousa já adaptou o seu discurso. O chefe de Estado falou em “novos modelos de ação” que levem a uma redução “drástica” das pessoas sem abrigo até 2026.