Comunicávamos com as outras salas por código, batendo na parede

08 de maio 2020 - 15:31

Fui preso com 22 anos e fui torturado durante 8 dias, e depois vários dias em separado. Nesse tempo permanecíamos sozinhos numa pequena cela. Sem comunicações, livros ou revistas. (…) Nunca desanimei. Digo que vale a pena continuar a luta e não abrandar. Por Ramiro Antunes Raimundo.

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Ramiro Raimundo aparece na foto ao centro, mais para trás, com bigode.
Ramiro Raimundo aparece na foto ao centro, mais para trás, com bigode.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Fui preso a 5 de Outubro de 1973 em Lisboa. Com 22 anos. A saída de Caxias foi às 0h30 do dia 27 de Abril de 1974. A população em geral desconhece que Spínola não queria libertar todos os presos políticos. Fomos todos para uma sala dialogar com os advogados de defesa. Os homens numa sala e as mulheres noutra sala tomaram todos a mesma atitude. Ninguém sai sozinho: ou todos ou nenhum. Spínola queria que os da luta armada continuassem presos. Mas nós sabíamos pela marinha o que o Spínola queria fazer.

Fui preso com 22 anos e fui torturado durante 8 dias, e depois vários dias em separado. Nesse tempo permanecíamos sozinhos numa pequena cela. Sem comunicações, livros ou revistas. Só depois de sermos colocados numa sala é que já tínhamos acesso a livros. Fiquei na sala do Ramiro Morgado, Carlos Coutinho, quatro elementos da ARA, pertencente ao Partido Comunista, e dois da Luar: eu e o Manuel Abraços, do Barreiro.

O dia-a-dia era passado a ler e a comentar as lutas que se estavam a desenvolver cá fora. Comunicávamos com as outras salas por código, batendo na parede. Sabíamos as salas todas que lá estavam. A comida que as famílias traziam era partilhada. Eu sou natural de Tortosendo, concelho da Covilhã. Para os meus pais, pobres, era difícil ir a Caxias, visto eu ter, na mesma altura, um irmão preso em Salamanca – Espanha. Mas o resto dos camaradas que tinham acesso colocavam-me à vontade. É difícil estar vários meses fechado, embora alguns tenham estado presos durante anos. Cada um encontra uma maneira de passar o tempo.

Os elementos da ARA estavam em julgamento. Fizemos uma greve de fome na prisão. Soubemos do falhanço das Caldas e as greves que se faziam pelo país. Na verdade, o país estava todo a ferver e alguma coisa de novo ia surgir, embora houvesse também a preocupação com a possibilidade de existir um golpe de direita que nos colocasse a todos em risco. No próprio dia 25 de Abril, por um curto espaço de tempo, colocaram-nos a todos no átrio da prisão, onde estavam os militares e os jornalistas. Mas ninguém tentou fugir, depois de estarmos informados de que todos iam ser libertados. As coisas depois não correram como nós imaginávamos que corressem, que era a prisão e julgamento de todos os PIDES.

A Guerra Colonial foi o despoletar dos oficiais que estavam fartos de serem enviados para Angola, Guiné e Moçambique. Eu desertei do quartel de Leiria. Um irmão meu, de nome José Carlos, veio da Covilhã a Leiria, ao quartel, e mandou chamarem-me à porta. Eu vi que ele estava bastante nervoso. Começou a perguntar-me o que tinha feito porque a PIDE esteve com a GNR a cercar a nossa casa. Eu tinha a minha mala. Era hora de ir ao pequeno-almoço tomar o café. Já não fui. Fui buscar a roupa civil, destruí a propaganda que lá tinha e saltei o muro. Fui para França – Paris. Já sabia que se fosse ao café eles me iam colocar na prisão do quartel até a PIDE me ir buscar. Consegui ir para França, evitando ser preso dessa vez. Foi uma prova de que a PIDE não saberia tudo se não fosse a rede de informadores que tinha pelo país.

Eu fui preso por pertencer à Luar - Liga de Unidade e Acção Revolucionária. A nossa maneira de ver, e bem, era que, perante o que se passava em Portugal, o regime só caía pela via armada. E, de facto, foi assim, pelos valorosos capitães de Abril. Em Portugal surgiram a ARA, do PCP, a Luar, liderada por Palma Inácio, e as Brigadas Revolucionárias, por Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Todos fomos importantes para dar o golpe final e acabar de vez com o regime, que tanta gente torturou, assassinou e prendeu. As greves e outras lutas também foram importantes. Em criança vi fábricas têxteis na minha zona a pararem em greve. Tortosendo e Covilhã tinham um tecido operário importante.

Nunca desanimei. Digo que vale a pena continuar a luta e não abrandar. Há, de facto, muito caminho a percorrer. O combate à corrupção, pela justiça para todos e não apenas para alguns, como tem acontecido. A democracia tem de ser defendida no dia a dia e não podemos deixar-nos adormecer, visto que o inimigo está sempre à espera de um deslize, de um fracasso. Viu-se a polémica que se levantou este ano sobre o 25 de Abril, com o PDS, CDS e agora o CHEGA a contestarem a comemoração. Os mesmos de sempre a tentarem aproveitar-se da democracia para ver se a conseguem enfraquecer. Na realidade, fiquei sossegado por ter visto tanta gente à janela a cantar a “Grândola, Vila Morena” do Zeca Afonso. Vi imagens da minha freguesia, Tortosendo, com pessoas a cantarem à janela a “Grândola” e acredito que o 25 de Abril, a democracia, vão continuar, e bem, a estar presentes nas nossas vidas.

É preciso construir uma sociedade que seja justa para todos e que não deixe franjas de pessoas que acabam na pobreza. Agora com um vírus era uma oportunidade, mas, pelos vistos, o governo PS vai insistir nos mesmos erros, protegendo e ajudando os poderosos e desprezando a classe operária que faz o país funcionar. Protege os bancos, os banqueiros e as grandes empresas. E as micro e pequenas empresas? A destruição da Solforme e de outras empresas da metalurgia pesada foi um erro. Estamos dependentes do estrangeiro, quando muitas coisas poderiam ser feitas cá. Veja-se que nem temos capacidade para oferecer máscaras a todos os cidadãos. A Câmara Municipal de Almada é agora socialista. Vejo a presidente na RTP3 como comentadora e, até à data, não a ouvi dizer que vai oferecer máscaras a todos os cidadãos. Onde estão os impostos como o IMI? Temos os transportes sul do Tejo com carros de há 30 anos e nunca vi a Câmara falar sobre o assunto ou tomar qualquer atitude. Não somos um país rico, mas a riqueza podia ser melhor distribuída. No interior e norte do país ainda é pior. Não há trabalho nenhum.

Espero ter respondido ao pretendido.

Um abraço a todos e melhores dias irão aparecer.

25 DE ABRIL SEMPRE!

Ramiro Antunes Raimundo
Vila Nova da Caparica
Monte da Caparica
Almada
28.04.2020