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Como a especulação financeira influencia o preço do gás

Só em 2021, o índice de referência TTF foi utilizado na negociação de 4,5 biliões de metros cúbicos de gás, isto é, nove vezes mais do que os 500 mil milhões de metros cúbicos de consumo real na União Europeia.
Foto Ken Teegardin/assistedseniorliving.net/Flickr

Putin tem utilizado o gás que exporta para a UE como arma económica, contendo o fornecimento e despoletando uma escalada dos preços do gás. Contudo, só podemos entender completamente este aumento olhando também para as pressões especulativas nos mercados grossistas.

O papel dos hubs de gás

Antes de chegar aos mercados de venda ao consumidor final, as empresas que comercializam o gás adquirem-no aos fornecedores nos diferentes mercados grossistas, em hubs de gás.

Os mais relevantes são o TTF (Title Transfer Facility) holandês e o NBP (National Balancing Point) britânico, mas existem ainda o Mibgas espanhol ou o Henry Hub nos EUA. As oscilações dos preços praticados em cada um podem ser explicadas por vários fatores como capacidade de escoamento, interrupções no fornecimento, etc.

Pela importância que têm na comercialização de gás internacionalmente, a cada um está associado um índice de preços, uma referência (benchmark) criada pelo cabaz dos vários preços utilizados nas vendas. Assim, quando se fala do TTF, tanto se refere ao hub (plataforma de venda) como ao índice de preços. Este assume uma grande importância por ser usado como referência na contratualização de venda de gás noutros espaços e muitas vezes no mercado marginalista de energia. 

Estes mercados grossistas, por transacionarem grandes volumes de gás de atacado, em que oscilações de preço afetariam os comercializadores de gás, recorrem a produtos derivados futuros. Isto quer dizer que se acorda a entrega, numa determinada data (muitas vezes próxima) e a um preço específico, com o pagamento a ser feito nesse momento futuro. 

A Comissão defende que o TTF já não é uma boa referência de preço

No discurso anual do Estado da União, entre as várias medidas anunciadas, Ursula von der Leyen referiu que a Comissão Europeia estava a trabalhar para utilizar outro preço de referência que seja mais representativo que o TTF, não avançando em detalhes. 

Justificou que, para substituir o papel da Rússia enquanto fornecedor principal da UE, a maior parte do gás em circulação deixou de ser gás natural transportado através de gasoduto e passou a gás natural liquefeito (GNL). 

A diferença de preços entre os vários hubs de gás são causados parcialmente pela sua capacidade de receber carregamentos de GNL. Por exemplo, os preços de gás em países com vários terminais para receber GNL, como França, são mais baixos que na Alemanha que não tem terminais instalados.

O TTF serviu historicamente como proxy suficiente da entrega de GNL na Europa, mas agora existem outros portos e métodos de contratualização que espelham melhor a nova realidade de transações. A agência Reuters explica que o carregamento de GNL é habitualmente feito no que se designa no comércio internacional de DES (Delivered Ex Ship), isto é, um contrato em que o vendedor entrega os bens ao comprador num determinado porto de chegada, garantido a cobertura dos custos e riscos envolvidos. Os principais mercados de gás na Europa a receber estes carregamentos são o Noroeste, que inclui o Reino Unido, Holanda, Bélgica e França, e o Sudoeste da Europa, incluindo Espanha, Portugal e Itália, entre outros. 

Nos últimos meses, desde o início da guerra, o TTF tem sofrido grandes oscilações enquanto carregamentos de GNL no Noroeste Europeu com base no método DES têm registado grandes descontos em relação ao TTF. 

A oscilação dos preços do gás é explicada na sua maioria por pressões especulativas

A história não está completa. A guerra económica do gás tem duas componentes: uma logística e outra financeira. Enquanto a primeira se refere à procura de rotas alternativas, instalação de gasodutos ou procura de outros fornecedores, a segunda diz respeito à especulação financeira em torno desta matéria prima.

Os mesmos instrumentos financeiros que servem em teoria para proteger os comerciantes de gás, também são utilizados por investidores financeiros que procuram ganhos ao anteciparem as oscilações de preço. 

Os mercados grossistas são sensíveis às crenças dos investidores, prova disso foi a queda de quase 40% em relação ao máximo atingido a 26 de agosto de 350 euros/megawatt, logo após o primeiro sinal da Comissão em alterar as regras fundamentais do mercado energético europeu. 

O jornal espanhol Expansión, com ajuda de grandes empresas energéticas espanholas, acedeu a dados sobre o trading de gás. Relata que o índice TTF está descontrolado e “imerso numa espiral especulativa”. Calcula-se que dos 8 biliões de euros que mobiliza, apenas um bilião corresponda a consumos reais. 

Só em 2021, o índice do TTF foi utilizado na negociação de 4,5 biliões de metros cúbicos de gás, isto é, nove vezes mais do que os 500 mil milhões de metros cúbicos de consumo real na União Europeia. Isto quer dizer que o preço não está a refletir as necessidades reais, mas está antes a alimentar o benefício de traders e corretores. 

Olhando para dinâmicas anteriores, torna-se claro que estes tipos de pressões especulativas sempre estiveram presentes nos mercados de gás. Um estudo recente mostra que a taxa líquida de rotatividade (net churn rate) do TTF, isto é, o número de vezes que um contrato é transacionado subsequentemente, aumentou de forma constante na última década de 13,9 em 2011 para 114,5 em 2020. Isto sugere que o volume de gás negociado nestes contratos pode ser 114 vezes mais importante do que o consumo real. 

O jornal europeu Politico avança que a Comissão Europeia está a considerar suspender temporariamente estes mercados financeiros de derivados energéticos. 

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