Cimeira

BRICS reúnem-se sem Putin e Xi Jinping, apesar das ameaças de Trump

07 de julho 2025 - 11:06

Para evitar tensões internas durante o encontro, a diplomacia brasileira tenta adiar a discussão sobre a substituição do dólar nas transações comerciais, uma aposta forte da Rússia, mas também de Dilma Rousseff, que preside ao Banco de Desenvolvimento dos BRICS.

por

Álvaro Verzi Rangel

PARTILHAR
Cimeira dos BRICS no Rio de Janeiro.
Cimeira dos BRICS no Rio de Janeiro. Foto Alexandre Durão/BRICS Brasil

A décima sétima cimeira de Chefes de Estado e de Governo dos BRICS, grupo formado em 2009 pelo Brasil, Rússia, Índia e China, a que se juntou mais tarde a África do Sul, realiza-se este ano no Rio de Janeiro, após o alargamento aprovado em outubro passado em Kazan, na Rússia. Atualmente, são 11 membros de pleno direito e mais 10 membros associados, incluindo os países latino-americanos Cuba e Bolívia. Em conjunto, produzem 43 em cada 100 barris de petróleo do mundo e representam um quarto do comércio mundial.

BRICS, anti quê?

07 de outubro 2023

Sem os presidentes da China e da Rússia, Xi Jinping e Vladimir Putin, os BRICS vão tentar mostrar o seu peso ante as políticas do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, numa cimeira no Rio de Janeiro, no domingo e na segunda-feira, embora a prudência possa prevalecer para evitar tensões nas relações com Washington. Xi Xinping estará ausente pela primeira vez desde que assumiu o poder em 2012, e Putin, alvo de um mandado de captura internacional por alegados crimes de guerra na Ucrânia, poderá participar virtualmente.

Foto de família dos líderes poíticos no arranque da cimeira. Foto Rafa Neddermeyer/BRICS Brasi
Foto de família dos líderes poíticos no arranque da cimeira. Foto Rafa Neddermeyer/BRICS Brasi

Além da guerra no Médio Oriente, o encontro será marcado por tensões decorrentes das novas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “A tendência é que o tom da cimeira seja cuidadoso: será difícil nomear os EUA diretamente na declaração final”, disse Marta Fernandez, diretora do BRICS Policy Center da Pontifícia Universidade Católica do Rio.

A cimeira decorre no meio de tensões mundiais e, para evitar tensões internas durante o encontro, a diplomacia brasileira tenta adiar a discussão sobre a substituição do dólar nas transações comerciais, uma aposta forte da Rússia, mas também da presidente do Banco de Desenvolvimento dos BRICS, a ex-presidente brasileira Dilma Roussef, que há duas semanas se reuniu com o presidente russo Vladimir Putin em São Petersburgo para estudar a sua proposta de expansão da “liquidez das moedas nacionais” e a criação de uma “plataforma digital de investimentos”.

Ameaça de Trump com tarifas aos países que abandonem dólar condicionou cimeira

Lula defendeu a criação de um novo modelo de financiamento para os países em desenvolvimento, que seja sustentável e sem condicionalidades. Ele também defendeu o uso de moedas locais nas transações entre os países nesse mecanismo; há dois meses, Trump ameaçou impor uma tarifa de 100% aos países que abandonarem o dólar. "Uma nova moeda comercial é extremamente importante, sei que é complicado, mas se não encontrarmos uma forma de o fazer, vamos acabar o século XXI como o século XX e não será benéfico para ninguém", afirmou.

Na cimeira anterior, o fator Trump não esteve em palco. O presidente dos EUA está a tentar inclinar o equilíbrio do processo de decisão global a favor dos interesses de Washington. Este é um tema que marca o encontro e que foi evidente nas reuniões prévias.  Lula da Silva descreveu o atual cenário global como cada vez mais instável, marcado pelo ressurgimento do protecionismo, do unilateralismo e do impacto da crise climática.

Atualmente, é pouco provável que o Brasil adira às iniciativas russas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou impor tarifas de 100% aos países do BRICS que decidirem substituir o dólar como moeda comercial ou de reserva.

Outra questão sensível é a guerra no Médio Oriente. O cancelamento de última hora da viagem de Masoud Pezeshkian, presidente do Irão, que invocou riscos de segurança, retirou alguma da tensão da cimeira. O Brasil tem o respeito diplomático do Irão. Em 2010, mediou com a Turquia uma tentativa de negociação com Teerão sobre o enriquecimento de urânio.

O analista geopolítico brasileiro Pepe Escobar vê o ataque de Israel ao Irão como uma agressão contra os BRICS, enquanto Ana Saggio Garcia, investigadora associada do BRICS Policy Center, afirma que a questão do Irão vem pôr mais lenha na fogueira da polarização internacional. "O Irão é um reflexo dos dois pesos e duas medidas do sistema internacional. Vários países signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear estão a enriquecer urânio com capacidade de produzir armas nucleares, mas não são atacados", afirma.

A grande aposta do Brasil para a Cimeira do Rio de Janeiro é tentar implementar a agenda ambiental e a economia verde, de forma a canalizar as propostas dos BRICS para a COP30 da ONU, a realizar na cidade brasileira de Belém do Pará, em novembro.

Condenação de Israel e EUA pelo ataque ao Irão pode afastar Arábia Saudita

No final de maio, os onze países membros dos BRICS - África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Índia, Irão e Rússia - concordaram em criticar os bombardeamentos de Israel e dos Estados Unidos. Ao contrário do G7 dos países mais poderosos, que legitimou o ataque, os BRICS apelaram a uma solução diplomática para o conflito.

Mas o apoio dos BRICS ao Irão provoca o primeiro curto-circuito interno, uma vez que afasta do bloco a Arábia Saudita, que ainda não terminou de apresentar toda a documentação para se tornar membro de pleno direito dos BRICS e que poderá abandonar o barco se a declaração final da cimeira mencionar explicitamente Israel ou os EUA.

O ataque israelita e norte-americano ao Irão perturbou todos os planos de Lula. Depois de a liderança brasileira ter condenado “fortemente” o ataque dos EUA e o ter denunciado como uma violação do direito internacional, o jornal britânico The Economist publicou um artigo duro contra o ‘incoerente’ Lula, criticando a irrelevância do Brasil na geopolítica global e a sua posição “cada vez mais anti-ocidental”. Entretanto, o governo brasileiro defendeu a coerência de Lula em relação à “democracia, sustentabilidade, paz e multilateralismo”.

O ataque ao Irão desencadeou a “tempestade perfeita” para uma reunião em que o Brasil estava a utilizar todo o seu soft power conciliatório para dar maior peso geopolítico ao Sul Global. "Não se trata apenas de um ataque ao Irão, é um ataque à ordem internacional tal como foi concebida, e o Tratado de Não Proliferação Nuclear faz parte dessa ordem. O Conselho de Segurança deixou de existir. Não há ONU. Não há Organização Mundial do Comércio (OMC). Em breve não haverá Banco Mundial", disse o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil Celso Amorim.

O Brasil, que se opôs ao alargamento do grupo inicial dos BRICS para não perder peso, enfrenta o desafio de procurar uma posição consensual durante a cimeira deste fim de semana. O analista brasileiro Gustavo de Carvalho, investigador do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais, disse que os BRICS “historicamente não procuram desempenhar um papel forte nas questões geopolíticas e esta ocasião não será exceção”.

Lula da Silva e António Guterres
Lula da Silva e António Guterres Foto BRICS Brasil

A crítica de Lula ao unilateralismo chegou à Organização das Nações Unidas (ONU). "Há muito tempo que eu não via a nossa ONU tão insignificante como agora. Uma ONU que foi capaz de criar o Estado de Israel, mas não é capaz de criar o Estado Palestino, que não foi capaz de chegar a um acordo naquela região do mundo para acabar com um genocídio que está matando homens e mulheres em Gaza", acrescentou Lula em fórum promovido pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).

Países europeus juntam-se aos EUA para atacar os BRICS. O duro artigo da The Economist contra a política internacional do Brasil reconheceu que Lula colocou o Brasil no mapa, mas que não se adaptou à “evolução do mundo”. Em 2009, a The Economist publicou uma capa com o Cristo Corcovado do Rio de Janeiro a subir ao céu, simulando um foguetão, com o título “O Brasil levanta voo”. O Brasil foi recebido de braços abertos como potência, desde que se mantivesse na órbita ocidental e sob a lógica neoliberal.

O mapa-múndi invertido

No início de maio, o prestigiado Instituto Brasileiro de Geoestatística (IBGE) lançou um mapa-múndi invertido. Concebido para celebrar a presidência brasileira dos BRICS (grupo inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o novo mapa-múndi é uma declaração de intenções geopolíticas do governo do Presidente brasileiro Lula da Silva.

Mapa-múndi invertido .Foto: Divulgação/IBGE
Mapa-múndi invertido .Foto: Divulgação/IBGE

O mapa-múndi invertido, inspirado na obra América Invertida (1943), do artista uruguaio Joaquín Torres García, deu continuidade à inércia da presidência brasileira do G20 em 2024, que terminou com uma declaração conjunta a favor de um imposto sobre os ricos e de um cessar-fogo em Gaza. E preparou o terreno para 2025, o ano mais global do atual mandato de Lula: presidência dos BRICS na sua fase alargada (já conta com onze membros e dez países colaboradores), presidência do Mercosul (que começou esta semana) e a realização da COP30 da ONU em novembro em Belém.

Nova ordem

Apesar das ameaças de Donald Trump, o caos geopolítico abre uma brecha para a ação geopolítica do Sul Global. Celso Amorim acredita que chegou a hora de reconstruir a ordem mundial: "Temos que fazer uma grande conferência, como Versalhes (em referência à Conferência de Paz de Paris de 1919), como São Francisco (a conferência de 1945 que deu origem à Carta das Nações Unidas). Os países em desenvolvimento têm de ser tidos mais em conta. Penso que os BRICS serão muito importantes nesta nova construção mundial".

Forças especiais do exército e da marinha brasileira estão a proteger a cidade por ar, mar e terra. Um grupo especializado em ataques químicos, biológicos, radiológicos e nucleares posicionou-se no Museu de Arte Moderna, no Parque do Flamengo, próximo ao Aeroporto Santos Dumont.

Neste domingo e segunda-feira, o local - um dos mais importantes espaços culturais do Brasil - receberá os líderes das nações onde vive metade da população mundial e onde são gerados quatro de cada dez dólares da economia global.


Álvaro Verzi Rangel é sociólogo e analista internacional, codiretor do Observatório da Comunicação e da Democracia e analista sénior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la). Artigo publicado pelo CLAE.