O ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, afirmou esta quarta-feira que publicou um vídeo de desinformação sobre o resultado das presidenciais por engano, alegando estar sob efeito de morfina. O ex-militar estava a ser ouvido pela Polícia Federal no caso dos ataques golpistas em Brasília em 8 de janeiro em relação aos quais nega qualquer participação.
Especificamente em causa estava a publicação, feita dois dias depois da invasão do Palácio do Planalto em Brasília e pouco depois apagada, de um vídeo que colocava em causa o sistema de urnas eletrónicas, de forma a promover a tese de que a eleição teria sido viciada. Na publicação, Felipe Gimenez, procurador do Mato Grosso do Sul e bolsonarista, atacava a segurança das urnas eletrónicas, junto com as frases “Lula não foi eleito pelo povo. Ele foi escolhido e eleito pelo STF e TSE”.
Antes e depois das presidenciais que perdeu, Bolsonaro colocou em causa, com um discurso com muitas semelhanças com o de Donald Trump, o sistema de voto eletrónico, promovendo as teorias da conspiração sobre o viciamento do sistema. Por isso, enfrenta outras ações no Tribunal Superior Eleitoral. Uma delas é sobre a reunião com embaixadores, a poucos meses das eleições, na qual também propagou as teorias da conspiração sobre este sistema de votação.
Em declarações reproduzidas pela Folha de São Paulo, um dos seus advogados, Paulo Cunha Bueno, alegou que “esse vídeo foi postado na página do presidente do Facebook quando ele tentava transmiti-lo para o seu arquivo de WhatsApp para assisti-lo posteriormente”, acrescentando que “por acaso, justamente nesse período, o presidente estava internado em um hospital em Orlando [nos Estados Unidos]. Justamente no período entre o dia 8 e o dia 10 [de janeiro] ele teve uma crise de obstrução intestinal, isso está documentado, foi submetido a um tratamento com morfina, ficou hospitalizado e só recebeu alta na tarde do dia 10”. Para justificar que a publicação foi feita de “forma equivocada” refere-se ainda que “duas a três horas depois, ele foi advertido e imediatamente retirou essa postagem”. A equipa jurídica do presidente negou ainda que a publicação tivesse sido feita pelo seu filho, Carlos Bolsonaro, que gere as contas de Jair.
Os advogados confirmaram ainda que o ex-presidente só foi questionado sobre esta questão, tendo ficado de fora outro tema que era esperado ser tratado: o seu conhecimento do documento conhecido como a “minuta do golpe” que foi encontrado em casa do seu ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, e no qual se detalhavam todos os passos que levariam à instauração de um estado de emergência e a uma posterior tomada do poder que evitaria a tomada de posse de Lula.
O mesmo jornal lembra que “ao longo de seu mandato (2019-2022), Bolsonaro acumulou declarações de cunho golpista e, ao perder as eleições, resistiu a reconhecer o resultado e incentivou apoiadores a permanecer em acampamentos que pediam às Forças Armadas um golpe que impedisse a posse do atual presidente”. Recordam-se ainda as suas posições anteriores “saudosistas da ditadura militar”, declarações a favor de “um regime de exceção” porque “através do voto você não vai mudar nada nesse país”, de que se fosse presidente fecharia o Congresso e “daria golpe no mesmo dia”.
E, para além disso, algumas das intervenções no mesmo sentido já na presidência como quando disse, em 2021, que “se tudo tivesse que depender de mim, não seria este o regime que nós estaríamos vivendo. E apesar de tudo eu represento a democracia no Brasil”, ou a sua participação em manifestações que defendiam a realização de um golpe militar “ao longo de 2020”, os ataques ao Supremo Tribunal Federal.
Bolsonarista acusado de colocação em bomba em aeroporto também nega apoio ao golpe
Em entrevista ao mesmo jornal, um seu apoiante acusado de ter tentado colocar uma bomba no aeroporto de Brasília na véspera de Natal, segue o mesmo caminho de dar o dito por não dito. Wellington Macedo, “blogger” e “influencer”, para além de se dizer inocente, declara nunca ter sido defensor do golpismo.
Este ex-assessor da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, estava em prisão domiciliária com pulseira eletrónica tendo fugido há quatro meses. A acusação diz que, junto com dois outros homens, tentou fazer explodir um camião perto daquele aeroporto. Um deles é o empresário George Washington de Oliveira que reconheceu em declarações à polícia ter planeado, junto com outros manifestantes bolsonaristas, a colocação de bombas antes da tomada de posse de Lula de forma a “dar início ao caos” para que fosse decretado estado de sítio no país e “provocar a intervenção das Forças Armadas”.
A polícia diz que este preparou a bomba, que o outro dos acusados, Alan Diego dos Santos e Sousa, a colocou num camião no aeroporto e que teria cabido a Wellington Macedo conduzir o carro que transportou a bomba até ao local. A explosão não aconteceu porque o motorista do camião percebeu que uma caixa tinha sido colocada no seu veículo e chamou a polícia que desativou o engenho feito com dinamite.
Os homens tinham-se conhecido no acampamento bolsonarista que apelava a um golpe de Estado. Macedo defende-se dizendo que só lá estava a fazer vídeos para um documentário e que apenas deu uma boleia a Alan. É ainda acusado da tentativa de invasão de um prédio da Polícia Federal. “Nas redes sociais, contudo, ele fazia chamamentos a protestos antidemocráticos e alusões a um possível golpe militar”, escreve a Folha.