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Brasil: Conheça as engrenagens do golpe bolsonarista que falhou

Duas semanas passadas sobre o 8 de janeiro de 2023, ainda há muito que apurar sobre o que aconteceu e quais as responsabilidades dos diversos protagonistas. Mas já se pode afirmar que naquela data foi aplicado no terreno um plano golpista que vinha sendo preparado desde o final das eleições. Neste artigo, mostramos como se encaixam as peças da engrenagem montada pelos bolsonaristas. Por Luis Leiria.
Foi a primeira vez na História do Brasil que as sedes dos três poderes foram invadidas e depredadas.

No dia 9 de janeiro, escrevi aqui que ainda não havia informações suficientes para poder analisar com profundidade o que acontecera no domingo, dia 8, em Brasília, quando uma turba de vândalos bolsonaristas invadiu e depredou as sedes dos Três Poderes da República: o Congresso Nacional, o Palácio da Presidência (Palácio do Planalto) e o Supremo Tribunal Federal.

Passados 15 dias, podemos dizer que as investigações avançaram muito, e já existem evidências suficientes de que os acontecimentos daquele domingo fizeram parte de um plano detalhado de golpe de Estado destinado a derrubar o governo eleito de Lula da Silva e reinstaurar no poder o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente de férias nos Estados Unidos da América.

Apurar qual o grau de envolvimento das Forças Armadas no golpe não é uma questão de somenos. Afinal, foi aos militares que se dirigiram todos os apelos dos golpistas.

O que se mantém ainda obscuro é o papel que as Forças Armadas tiveram nestes planos. Mas depois da demissão do general Júlio Cesar de Arruda da chefia do Exército, decidida pelo presidente Lula da Silva, abre-se uma oportunidade de esclarecimento.

Apurar qual o grau de envolvimento das Forças Armadas no golpe não é uma questão de somenos. Afinal, foi aos militares que se dirigiram todos os apelos dos golpistas. Foram as Forças Armadas que protegeram até o dia 9 de janeiro (!!) os acampamentos dos neofascistas instalados nas portas dos quartéis.

Provocar caos para justificar intervenção militar

Hoje, estamos em condições de perceber que vários planos golpistas foram esboçados, sendo o que foi posto em prática no dia 8 uma versão derradeira de uma engrenagem que começara a ser arquitetada a partir da derrota de Bolsonaro nas eleições presidenciais.

O vandalismo praticado no dia 8 era parte da maquinação. Era uma parte significativa, mas apenas parte.

Fosse qual fosse o mecanismo a ser usado, os planos dos bolsonaristas partiam do mesmo pressuposto: para justificar um golpe de Estado desferido pelos militares brasileiros era preciso provocar uma situação de caos no país, o mais profunda possível, que justificasse a intervenção.

O vandalismo praticado no dia 8 era parte da maquinação. Era uma parte significativa, mas apenas parte. Hoje já são conhecidas outras peças da mesma engrenagem do caos.

Nos dias 8 e 9 foram derrubadas quatro torres de transmissão de energia, três em Rondônia e uma no Paraná. Esta última conduz a eletricidade gerada na barragem de Itaipú, a segunda maior hidroelétrica do país. Nesta mesma linha de transmissão de energia, houve três outras tentativas que deixaram torres danificadas sem, no entanto, caírem.

Uma torre de alta tensão derrubada em Rondónia: tentativa de provocar apagões. Foto: Eletronorte/Reprodução

Os golpistas pretendiam causar apagões em grande escala que contribuíssem para o clima de medo e de caos. Felizmente, as redes de energia aguentaram-se e não chegou a haver interrupções de fornecimento.

No final do ano passado, já outro atentado fora debelado. Depois de uma rápida investigação, a polícia prendeu três responsáveis por armar uma bomba de detonação remota sob um caminhão-tanque carregado com combustível de aviação estacionado no aeroporto de Brasília. Pelo menos um dos bombistas amadores estava entre os bolsonaristas acampados diante do Quartel-General do Exército em Brasília para pressionar os militares ao golpe de Estado.

Outra peça da engrenagem seriam as manifestações de bloqueio diante de muitas das refinarias de petróleo do país, como por exemplo a de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, que pretendiam impedir a saída de caminhões a partir das 2h da madrugada do dia 9, mas fracassaram. Mais uma vez, o objetivo dos golpistas era deixar o país sem combustível. Pensa-se, também, que os camionistas ligados a Bolsonaro estariam a postos para reiniciar os bloqueios de estradas, como parte da mesma política de espalhar o caos. Mas esta ação, se prevista, não chegou a ocorrer.

Finalmente, dizer que havia um plano de golpe militar não quer dizer que este estivesse bem montado e articulado. Visto 15 dias depois, e apesar de ter conseguido uma inédita invasão dos três poderes, o golpe foi derrotado com facilidade. E transformou-se num tremendo tiro no pé dos bolsonaristas.

8 de janeiro: Cronologia das ações golpistas

A princípio, quando as chocantes imagens do vandalismo nas sedes dos três poderes chegaram às televisões, em transmissão direta, a ideia que passava era a de um caos total. Ainda não se sabia que parte do património histórico do Brasil estava a ser atacado, obras de arte de enorme valor destruídas, documentos roubados ou destruídos, armas furtadas.

Mas as imagens de bolsonaristas descontrolados entrando e saindo a seu bel prazer do Palácio do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e da sede do Supremo Tribunal Federal eram suficientes para perceber que os neofascistas tinham conseguido algo nunca sucedido antes: invadir as sedes do poder.

Tal como na invasão do Capitólio, em Washington, dois anos antes, a horda de bolsonaristas em Brasília parecia sem rumo. Poderia pensar-se numa manifestação inicialmente pacífica que se descontrolara. Porém, as apurações feitas nos dias seguintes levaram à conclusão de que a invasão dos neofascistas foi cuidadosamente preparada e fazia parte de um golpe de Estado que fracassou.

A seguir, um resumo do que ocorreu naquele dia:

A manifestação em Brasília já estava a ser convocada há dias, mas ninguém parecia se importar muito

A preocupação fora enorme no dia da posse de Lula. Temia-se que os bolsonaristas estragassem a festa do dia 1º de janeiro, promovendo contra-manifestações ou, quem sabe, atentados. Como nada disso aconteceu e nem um neofascista foi avistado nas imediações da esplanada dos Ministérios, como a festa da posse foi um sucesso enorme, tudo levava a crer que os bolsonaristas, tendo ficado sem a possibilidade de impedir Lula de “subir a rampa”, estariam a desistir das manifestações pró golpe. O esvaziamento de muitos dos acampamentos à porta de quartéis parecia confirmar essa ideia.

Mais uma vez, o grande erro foi subestimar os bolsonaristas.

Mais uma vez, o grande erro foi subestimar os bolsonaristas.

Quem acompanhasse as redes sociais da extrema-direita veria uma realidade bem diferente do suposto esvaziamento. Em grupos do Telegram, os preparativos da jornada do dia 8 estavam a todo o gás. Só que, desta vez, houve algum esforço de não falar abertamente, usando uma linguagem cifrada que chamasse menos a atenção, embora fosse identificável com facilidade.

O principal grupo de organização das deslocações de diferentes pontos do Brasil para a capital chamava-se “Caça e Pesca” e o evento do dia 8 chamava-se a “Festa da Selma”.

“O código é Festa da Selma”, explicava uma mensagem, “vai acontecer uma festa de aniversário enorme e existe uma organização muito grande para juntar e preparar os convidados (...) a organização antes da festa vai ser em um lugar não conhecido, onde as pessoas estão há mais de 65 dias. E de lá todos sairão para a festa.”

Isto queria dizer que o acampamento dos bolsonaristas em frente ao QG do Exército em Brasília seria o ponto de concentração. Algumas mensagens não deixavam dúvidas das reais intenções, como a que mostrava uma imagem aérea da Praça dos Três Poderes e do Congresso Nacional e afirmava: “Pessoal, o povo em massa tem que preencher todo esse espaço principalmente dentro e fora do Congresso. Aí sim derruba o governo.”

A segurança da Praça dos Três Poderes foi enfraquecida de propósito

Como foi possível que a polícia não tivesse contido os invasores e impedido a sua entrada nos palácios? A resposta é incrível, mas verdadeira: o contingente policial estava muito reduzido e parte das forças sequer dispunha do equipamento para contenção de multidões. E o mais incrível: este enfraquecimento ocorreu na véspera da manifestação.

A segurança dos Três Poderes é garantida por duas forças: a Polícia Militar do Distrito Federal, que é a polícia do governo do DF (Brasília), dependendo do governador Ibaneis Rocha, um bolsonarista assumido, reeleito na última ida às urnas; e o Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), um destacamento que tem a atribuição explícita de cuidar da segurança do Palácio da Presidência.

No sábado, dia 7 de janeiro, véspera da invasão do Palácio que deveria defender, o BGP, que estava a funcionar com reforço devido às notícias de chegada de caravanas de bolsonaristas de todo o país, voltou ao contingente mínimo. Isto porque o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) dispensou o reforço de um pelotão de 36 militares, ficando somente a guarda comum de fim de semana. A decisão, tomada por escrito, ocorreu cerca de 20 horas antes da chegada dos neofascistas ao local.

Ainda antes da posse, Lula prescindiu dos préstimos do GSI para a sua segurança. Percebe-se o motivo.

O GSI, que deu a ordem, tem duas funções principais: os serviços de informações e a proteção e segurança física do presidente da república, vice-presidente e os seus familiares. Dirigido pelo general Augusto Heleno durante o governo Bolsonaro, é um corpo minado por bolsonaristas.

Ainda antes da posse, Lula prescindiu dos préstimos do GSI para a sua segurança. Percebe-se o motivo.

Polícia aos bolsonaristas: “Estamos aqui para colaborar, ajudar e garantir a vossa segurança.”

Entre a manhã do dia 7 e a do dia 8, cerca de 100 autocarros dos golpistas chegaram a Brasília, trazendo aproximadamente 4 mil pessoas. Com este reforço, nada levava a crer que a intenção dos bolsonaristas se ficasse por uma simples manifestação pacífica.

Mas na manhã do dia 8, o ministro da Defesa do governo Lula, José Múcio, foi ao acampamento dos bolsonaristas dizendo querer “entender como estava o ânimo dos manifestantes e o risco para a segurança da capital federal”. Segundo o Poder 360, não chegou a sair do carro mas, por volta das 14 horas, pouco antes da invasão, disse que o clima do acampamento era “por enquanto, calmo”.

Ao mesmo tempo, a Polícia Militar do Distrito Federal, em vez de reforçar o contingente de defesa dos Três Poderes, deslocava-se igualmente ao acampamento dos golpistas para abrir uma rota segura que lhes permitisse chegar sem problemas diante dos Palácios, um percurso de oito quilómetros.

À frente do destacamento enviado, um polícia subiu no palco do acampamento e transmitiu por microfone as instruções para que os bolsonaristas usassem as faixas de rodagem que a PM ia abrir para a manifestação. Para quem duvide das intenções dos polícias, ouçamos o que disse em conclusão: “É como eu falei e gosto de repetir: estamos aqui para colaborar, ajudar e principalmente fazer a segurança de vocês.” E de facto pode-se verificar num outro vídeo como a polícia escoltou os manifestantes até à esplanada dos Ministérios. Os bolsonaristas saíram do acampamento às 14 horas. A vontade da polícia de “colaborar e ajudar” os golpistas pôs a descoberto as evidentes simpatias ideológicas pelo “Mito”. Há imagens que mostram polícias confraternizando com os neofascistas e tirando fotografias.

Uma hora antes das invasões e depredações, o secretário de Segurança interino do Distrito Federal, Fernando Oliveira, entrou em contacto com o governador Ibaneis Rocha para lhe assegurar que tudo estava a correr da forma mais pacífica possível, com um clima “bem tranquilo e ameno”. E completou: “Até agora, nossa inteligência (serviço de informações) está monitorando e não há nenhum informe de questão de agressividade ligada a esse tipo de comportamento”, afirmou.

O esquema de segurança adotado por secretário e governador baseava-se nesta suposta ausência de agressividade dos bolsonaristas e fora alterado na noite anterior. Originalmente, seria proibido o acesso à Esplanada dos Ministérios. A nova decisão foi permitir a entrada dos manifestantes nessa praça, depois de passarem por uma revista.

Em vez de reforçar o contingente da PM, o governador facultou aos bolsonaristas o acesso à Esplanada, uma espécie de ante-sala da Praça dos Três Poderes. Isto é: se uma multidão consegue acesso a ela, muito dificilmente será impedida de chegar aos Palácios. Foi o que aconteceu.

Esta mudança decisiva não foi comunicada ao ministro da Justiça, Flávio Dino, com quem o governador discutira, na véspera, as formas de controlo da manifestação. Preocupado com o que pudesse acontecer, Flávio Dino anunciara, em acordo com o governador, a mobilização da Força Nacional, para reforçar, se fosse necessário, o contingente de segurança na capital.

Apertem os cintos, o secretário de Segurança e o chefe da Polícia sumiram!

Vejamos ainda mais uma peça da engrenagem. No dia 8, quem estava na secretaria de Segurança do governo de Brasília era o acima citado secretário interino, porque o secretário titular, Anderson Torres, tinha assumido o cargo no dia 2 de janeiro e, na véspera das manifestações, entrara de férias, viajando para Orlando, Flórida, onde terá se reunido com Jair Bolsonaro. Quem é este personagem? Nada mais, nada menos que o último ministro da Justiça do governo Bolsonaro que, a convite do governador de Brasília, saiu do Ministério para a Secretaria de Segurança de Brasília. Assumiu e, logo em seguida, demitiu a maioria das chefias intermédias da secretaria, sem nomear os seus sucessores. Feito isto, saiu do país.

Ainda há mais: outro que estava de férias era o Comandante de Operações da Polícia Militar do Distrito Federal, Jorge Eduardo Naime. Ele pedira para folgar entre o dia 3 de janeiro e o dia 8, para logo em seguida entrar de férias. Chamado à pressa para comandar a retirada dos vândalos dos edifícios sede dos Três Poders, só chegou ao local às 18h, duas horas e meia depois da primeira invasão. A partir daí, participou das ações para a retomada dos edifícios públicos, mas ainda assim foi acusado de retardar o avanço da PM para dar tempo para os bolsonaristas escaparem.

Polícia nem se esforçou por conter os manifestantes

Assim, estavam criadas todas as condições para que ocorresse algo nunca visto na história do Brasil até o momento: a invasão das sedes dos três poderes da República. Uma manifestação neofascista aproximava-se, escoltada pela PM, que confraternizava com os manifestantes e garantia às autoridades que eles não tinham intenções belicosas; o contingente de segurança montado no local era pífio; as duas instâncias da hierarquia da PMDF a seguir ao governador, o secretário de Segurança e o Comandante Operacional, estavam ausentes; o Batalhão da Guarda Presidencial tinha o seu contingente reduzido ao mínimo.

Aconteceu o inevitável: por volta das 15 horas, a manifestação chegou ao local e às 15h30 superou com facilidade o primeiro cordão da PM, que pretendia revistar todos os manifestantes antes que entrassem na Esplanada dos Ministérios; às 15h30 passaram pelo segundo cordão policial, que quase não esboçou reação, com a exceção de um polícia que ainda tentou usar gás pimenta, mas logo desistiu. Os manifestantes neofascistas invadiram o Congresso Nacional e dedicaram-se a destruir tudo o que estivesse ao seu alcance. Seguiu-se a invasão ao Palácio do Planalto e à sede do Supremo Tribunal Federal (STF).

O caso do Palácio do Planalto merece um destaque especial porque, mesmo com contingente mínimo, os soldados do BGP tinham a obrigação de defendê-lo até ao fim das suas forças. Mas nem sequer tentaram impedir a entrada dos vândalos. Na verdade, nem apareceram. Por outro lado, as portas do Palácio não foram forçadas nem os vidros da entrada partidos.

“Eles entraram porque a porta estava aberta. Alguém de dentro do palácio abriu a porta para eles, só pode ter sido. Houve conivência de alguém que estava aqui dentro”, acusou o presidente Lula da Silva, numa entrevista concedida no dia 18 de janeiro à Globonews. Lula foi surpreendido pela tentativa de golpe quando estava na cidade de Araraquara, no estado de São Paulo, acompanhado de alguns ministros, em solidariedade às vítimas das cheias catastróficas que acabavam de atingir a região.

Em Brasília, foi só quando viu nas TVs os neofascistas a entrarem e saírem à vontade do edifício do Congresso Nacional que o governador Ibaneis Rocha chamou o secretário de Segurança interino e determinou que os invasores fossem retirados dos edifícios. “Coloca tudo na rua. Tira esses vagabundos do Congresso e prende o máximo possível!”.

PM diz para o Exército “parar de frouxura”

Mas ainda foi preciso esperar reforços para que a Polícia Militar do Distrito Federal se pusesse à frente das operações de expulsão dos neofascistas dos edifícios invadidos, desta vez equipada e decidida a cumprir a missão. Um reforço do BGP foi também enviado por iniciativa do Comando Militar do Planalto. Até esse momento, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) mantinha-se silencioso.

Quando a PM deu início à expulsão dos bolsonaristas do Palácio do Planalto, o Batalhão da Guarda Presidencial parecia arrastar-se. Vídeos entregues ao jornalista Guilherme Amado por uma fonte anónima mostram cenas da operação muito elucidativas da falta de disposição dos militares do BGP. Ouve-se a voz de comando de alguém da PM ordenar aos militares para fecharem a linha, e para “pararem de frouxura”. Este comandante da PMDF deu 10 ordens em 40 segundos ao BGP. “Comanda a tua tropa, porra!”, berrou, a certa altura, exasperado, para o chefe dos militares.

O mesmo vídeo mostra os militares a abastecerem-se de munições da PM e ouve-se a mesma voz de alguém da PM a interpelar o comandante do Exército (BGP): “Agora já têm munição, mas é para atirar mesmo, pode largar o dedo, não tem medo não! Pode botar pra f...!”

Exército tenta impedir prisão de manifestantes bolsonaristas

Mas o episódio mais escandaloso, registado por um outro vídeo, é a tentativa do mesmo coronel do Exército de impedir a prisão dos bolsonaristas, argumentando que eles já estavam a retirar-se, descendo pela saída das traseiras do Planalto. O oficial da PM responde aos gritos: “Tá tudo preso! Você está louco? Você está louco?”

Apesar do capacete que envergava, o vídeo permitiu identificar o coronel que se esforçava por manter a rota de fuga aos bolsonaristas. Era Paulo Jorge Fernandes da Hora, que não é outro senão o próprio comandante do Batalhão da Guarda Presidencial.

O coronel Paulo Jorge Fernandes da Hora, comandante do Batalhão da Guarda Presidencial, tentou impedir a prisão de bolsonaristas.

Questionado sobre esta atitude do coronel, o Exército disse apenas que o caso estava a ser investigado.

Mas se o coronel não teve sucesso nesta tentativa de impedir as prisões no Planalto, muitos vândalos neofascistas conseguiram escapar usando o caminho que lhes foi indicado pelos militares do BGP e regressaram ao acampamento.

Lula decreta intervenção, Moraes afasta governador de Brasília

Ainda antes das 20 horas, o presidente Lula da Silva decretou a intervenção federal na área de segurança pública do Distrito Federal, o que significa que a segurança de Brasília passou a ficar sob a responsabilidade de um interventor nomeado pelo governo.

Antes, o governador Ibaneis Rocha tinha demitido publicamente Anderson Torres, o secretário de Segurança que estava de férias, numa tentativa de salvar o seu cargo. Alegou perda de confiança, e disse-se “enganado”.

“Todas as pessoas que fizeram isso serão encontradas e punidas”, assegurou Lula, em conferência de imprensa, antes de ler o decreto da intervenção federal. “Vão perceber que a democracia garante direito de liberdade e livre expressão, mas exige que as pessoas respeitem as instituições”, prosseguiu, mostrando como o sucedido era inédito na História do Brasil: “Os vândalos, que poderíamos chamar de nazistas fanáticos, (...) fizeram o que nunca foi feito na história do país. A esquerda brasileira já teve gente torturada e morta, e vocês nunca leram movimento de esquerda invadindo Suprema Corte, Congresso ou Planalto. (...) Vamos descobrir quem são os financiadores. (...) Pagarão com a força da lei pelo gesto antidemocrático", concluiu.

Já na madrugada de dia 9, o juiz Alexandre de Moraes, do STF, afastou o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, do cargo, por 90 dias. O juiz não se deixou convencer pelas alegações de que Ibaneis fora iludido e enganado. “Os atos terroristas do domingo só podem ter tido a anuência do governo do DF, uma vez que os preparativos para a arruaça eram conhecidos”, escreveu Moraes.

Felizmente que Moraes estava atento, porque o ministro Flávio Dino já tinha aceitado as lamentações de Ibaneis de que fora enganado e iludido. Ibaneis é tudo menos ingénuo. Não é à toa que, nos bastidores da política de Brasília, a sua alcunha é “Enganeis”.

Exército, comprometido com os golpistas, manteve a sua proteção até ao fim

Chegamos à espinhosa questão do papel das Forças Armadas na engrenagem golpista, e ao papel que tiveram os acampamentos dos bolsonaristas frente aos quartéis, e principalmente aquele que foi montado frente ao QG do Exército em Brasília.

Qualquer pessoa que não conheça Brasília, quando ouve falar em QG do Exército pensa num prédio cinzento, feio e de muitos andares, tipicamente militar. Era assim que eu o imaginava. Conheço mal Brasília, confesso.

Acontece que o QG do Exército não é nada disso. É uma verdadeira cidade dentro de Brasília, um conjunto de edifícios, monumentos e jardins, que ocupa uma área construída de 117 mil m² e mais de 7 km de corredores. É o local de trabalho do comandante do Exército e de outras 34 organizações militares. O QG foi construído entre 1969 e 1974, projetado por Oscar Niemeyer. Trabalham lá cerca de 12 mil militares.

Agora, a pergunta que não se pode calar: O Exército terá um espírito tão democrático ao ponto de facultar a qualquer protesto a permanência durante mais de 65 dias, paredes-meias com um complexo desta importância e destas dimensões? Isto quando sabemos que qualquer instituição militar trata com especial atenção a sua própria segurança e não permite que os cidadãos comuns possam passar perto dos seus edifícios?

Sem o acampamento de Brasília teriam sido possíveis os acontecimentos do 8 de janeiro?

A pergunta seguinte já tem, em si, a própria resposta: será que esta tolerância especialmente benevolente com os acampamentos só ocorreu porque as cúpulas do Exército, a começar pelo QG, têm simpatia pelo movimento dos bolsonaristas e seus apelos ao “SOS Militares”?

Outra pergunta ainda: sem o acampamento de Brasília teriam sido possíveis os acontecimentos do 8 de janeiro?

O Exército defendeu os acampados de Brasília mesmo depois do vandalismo nas sedes dos três Poderes e provocou um gravíssimo incidente na noite no dia 8 e na madrugada de 9. No domingo à noite, retomado o controlo sobre os edifícios dos Três Poderes, uma força da Polícia Militar de Brasília, respondendo às ordens do interventor federal nomeado por Lula, foi ao acampamento para prender os bolsonaristas escapados do cenário das destruições. O Exército proibiu a ação da polícia, impedindo-a de prender qualquer bolsonarista. Retirada a PM, o chefe do Exército ordenou a instalação de três cordões de militares e barreiras de blindados cortando as ruas de acesso ao acampamento, como demonstração de força e para impedir qualquer veleidade da Polícia Militar. Segundo reportagem publicada pelo Washington Post, Arruda terá advertido o ministro Flávio Dino: “Você não vai prender pessoas aqui”.

Cordões de Polícia do Exército para proteger os bolsonaristas do acampamento de Brasília contra incursões da Polícia Militar.

Mais tarde houve um acordo que permitiu que a PM regressasse, desmontasse o acampamento e prendesse todos os bolsonaristas que lá se encontravam. Mas os militares na reserva, os seus familiares e os familiares de militares no ativo que estavam no acampamento puderam escapar tranquilamente durante a noite.

Outra versão do plano golpista

No dia 12 de janeiro, a Polícia Federal encontrou na residência do ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, a minuta de um decreto, escrita antes da posse de Lula da Silva, que permitiria ao então ainda presidente em exercício Jair Bolsonaro instaurar um estado de defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para reverter, através da nomeação de uma comissão hegemonizada pelos militares, o resultado da eleição presidencial.

A minuta golpista é obviamente inconstitucional. Só num regime ditatorial poderia ser aplicada.

O ex-ministro justificou-se dizendo que muita gente lhe apresentava propostas e que aquela era uma dessas, nunca chegando a ser considerada, e por isso estava numa pilha de documentos a serem destruídos. O ex-ministro não revelou quem era o autor. Também não explicou por que o autor não foi denunciado por defender ações golpistas.

O documento é mais uma peça significativa da engrenagem do golpe e mostra que a conspiração contra a democracia nunca deixou de atuar desde a vitória de Lula.

No dia 14, Anderson Torres foi preso no aeroporto quando regressava dos EUA.

Lula demite chefe do Exército

Ao mesmo tempo, Lula deu início a uma “limpeza” nas instituições da Presidência, exonerando, até o dia 21, 80 militares que trabalhavam na coordenação da administração do Palácio da Alvorada e no GSI. No mesmo sábado, de surpresa, Lula demitiu o chefe do Exército, o general Júlio César Arruda.

Não lhe faltavam motivos. O general Arruda não escondia a hostilidade em relação ao novo presidente, e vinha travando com ele um longo braço de ferro. Arruda defendeu até o fim os bolsonaristas dos acampamentos, o que só se pode compreender havendo, no mínimo, alguma simpatia pelo movimento. Foi essa mesma simpatia que fez o general repetir que os acampamentos eram manifestações democráticas, apesar de o objetivo pelo qual lutavam ser a imposição de uma ditadura militar.

Faça-se aqui um parêntesis para lembrar que o ministro da Defesa de Lula, José Múcio, fez afirmações semelhantes, chegando mesmo a revelar que tinha parentes entre os acampados. Escolhido por Lula por ter trânsito nas Forças Armadas, Múcio, até agora, foi mais um porta-voz dos militares dentro do governo do que o inverso.

Mas a gota d’água que levou Lula a demitir o comandante do Exército foi a recusa do general Arruda de reverter a nomeação do tenente-coronel Mauro Cesar Cid, o principal ajudante de ordens de Bolsonaro, que este designou, pouco antes do fim do governo, para comandar uma unidade do Comando de Operações Especiais do Exército, sediada em Goiás, a pouco mais de 200 quilómetros de Brasília.

Não é só o perigo de ter um bolsonarista declarado e fiel como comandante de uma unidade militar de elite tão próxima de Brasília. Há outro facto. No dia 20, o portal Metrópoles revelava numa extensa reportagem, que Mauro Cid estava envolvido num esquema de caixa 2 e que está em curso uma investigação, já bastante avançada, pelo STF.

Como era possível dar o comando de Operações Especiais a um militar bolsonarista investigado pelo Supremo?

Arruda manteve o braço de ferro e recusou-se a alterar a nomeação.

Foi demitido.

Desbolsonarizar” as Forças Armadas


Lula nomeou o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva para comandar o Exército

O sucessor de Arruda, o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, é o chefe do Comando Militar do Sudeste e é o mais antigo general depois de Arruda. Na quarta-feira, chamara a atenção por um discurso em que defendera o papel das Forças Armadas tal como definido na Constituição. Nada de poder moderador, nada de intervenção para impedir o caos. O papel dos militares, disse, “é ser profissional. É respeitar a hierarquia e disciplina. É ser coeso. É ser íntegro. É ter espírito de corpo. É defender a pátria. É ser uma instituição de Estado. Apolítica, apartidária. Não interessa quem está no comando: a gente vai cumprir a missão do mesmo jeito. Isso é ser militar.”

A nomeação de Tomás Paiva poderá ser um passo para a “desbolsonarização” das Forças Armadas. Mas a tarefa parece árdua. O próprio Lula, durante uma visita à Argentina, reconheceu as dificuldades: “Aconteceu um fenómeno no Brasil. Eu não sei explicar como, mas Bolsonaro conseguiu a maioria em todas as forças militares. Na Polícia Federal, na Polícia Rodoviária, numa parte da Polícia Militar e numa parte das Forças Armadas. Agora teremos um trabalho de muita responsabilidade para que o país volte à normalidade”.

O momento de o fazer é agora.

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Jornalista do Esquerda.net
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