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Afinal, o que aconteceu domingo no Brasil? Ainda não sabemos

Enquanto não conseguimos reunir a informação suficiente para compreender em profundidade o que se passou em 8 de janeiro no Brasil e que consequências terá, eis aqui um conjunto de notícias, informações, pérolas e deduções sobre o fracasso do plano golpista implementado pelos neofascistas partidários de Bolsonaro. A compilação é de Luís Leiria.
Palácio do Planalto vandalizado pelos golpistas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Polícia Militar a serviço dos neofascistas 

A Polícia Militar do Distrito Federal abriu caminho e escoltou os invasores neofascistas até ao Palácio do Planalto, ao STF e ao Congresso Nacional. Vídeo mostra um PM falando num microfone e no alto de um palanque, dando instruções sobre como seria a deslocação até à praça dos Três Poderes (ver aqui, minuto 14). Outros vídeos mostram os manifestantes sendo escoltados pela PM.

Afinal, quem foi iludido e enganado?

O ministro da Justiça Flávio Dino disse à imprensa que houve uma “mudança de orientação administrativa sobre as manifestações” de domingo, por parte da Polícia Militar do governo federal, que terá surpreendido o próprio governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Que mudança foi essa? Simplesmente a de permitir a entrada dos manifestantes na Esplanada dos Ministérios. Uma mudança “administrativa” que teve fortes efeitos políticos... “Foi alterado de última hora”, lamentou Flávio Dino, que se afirmou convicto de que o governador foi “iludido e enganado” pelo seu secretário de segurança bolsonarista, que a essa hora já estava fora do país.

Felizmente, Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, não foi tão crédulo quanto o ministro e afastou o governador do cargo, por no mínimo, 90 dias, para que a investigação das responsabilidades sobre as invasões possa ser feita sem constrangimentos.

GSI não protege Palácio do Planalto e ainda se deixa roubar

Vídeos entregues ao jornalista Guilherme Amado, colunista do ICL Notícias e do Metrópoles, mostram que a atuação dos militares do Gabinete de Segurança Interna do Palácio do Planalto durante a invasão não foi a de expulsar os manifestantes mas sim o oposto: quando a polícia militar lançou gás lacrimogéneo sobre os vândalos, estes correram para dentro do Palácio e para trás da tropa do GSI, protegida por capacetes, coletes, máscaras, que se manteve imóvel, sem reação, na prática fazendo uma espécie de muro de proteção aos neofascistas. Pior ainda, além de não defenderem o Palácio, como era a sua obrigação, os militares do GSI ainda deixaram que os neofascistas entrassem nas próprias salas do GSI e roubassem armas.

Agora se compreende melhor a decisão do governo Lula, que transferiu para a Secretaria Extraordinária de Segurança Imediata a responsabilidade pela segurança do Presidente, que antes era do GSI.

Quantos foram detidos e com que critérios?

Um dos muitos mistérios em torno do acampamento golpista frente ao QG do Exército em Brasília é: afinal quantos bolsonaristas foram detidos para triagem e quantos saíram de lá pelo seu próprio pé? O Poder 360 afirma que “das cerca de 3.000 pessoas que estavam no local durante o fim de semana, estima-se que 1.500 pessoas deixaram o espaço por conta própria e não foram levadas para a triagem.”

O mesmo artigo se contradiz ao afirmar que foram levadas para triagem, em autocarros do governo do DF, cerca de 2.000 pessoas. Tudo bem, a questão dos números pode ser apenas uma estimativa, mas ficam muitas dúvidas sobre quais os critérios usados para deixar sair uns, enquanto outros iam para a triagem. Triagem não significa exatamente separar os envolvidos nos atos de vandalismo de outros que até possam ter ficado no acampamento? Será que houve quem não tenha participado? Ou não será que os líderes aproveitaram para pôr-se ao fresco, deixando atrás os mais ingénuos ou os que vieram ao engano?

O Mistério das Forças Armadas

Continua a pairar o mais completo silêncio sobre o papel que as Forças Armadas tiveram neste processo golpista. Das duas uma: ou aceitamos que todos os bolsonaristas que participaram nas invasões e depredações de domingo eram lunáticos; que a organização que montou dezenas de acampamentos e mobilizou centenas de autocarros de todo o país para Brasília o fez apenas guiada por uma história messiânica e uma teoria da conspiração, e que portanto não há mais motivos para preocupações, ou aprendemos com os acontecimentos mais recentes, deixamos de subestimar os bolsonaristas e levamos a sério o plano que conduziu ao 8 de janeiro. E nesse caso, não podemos deixar de levantar a hipótese de que algum setor militar estivesse ao corrente do plano e aceitasse um papel das Forças Armadas nele. Nesse caso, as coisas parecem ter corrido mal para estes últimos. Mas por quanto tempo?

Que plano tem o governo para ter Forças Armadas conscientes de que não faz parte das suas funções, num regime democrático, pôr as tropas na rua por sua própria iniciativa, seja qual for a justificativa? O melhor ministro de Lula para aplicar esse plano não parece ser José Múcio.

Golpismo tinha plano mais amplo

Tudo indica que o plano golpista era muito mais completo e que outros eventos destinados a espalhar o caos falharam. Por exemplo, as manifestações para bloquear as entradas e saídas nas refinarias e deixar o país sem gasolina, que deveriam ter ocorrido na madrugada de segunda 9, fracassaram estrepitosamente. Algumas nem existiram, noutras a comparência foi pequena, sem condições de se aguentar. Também fracassaram as manifestações que queriam reproduzir nos estados o que aconteceu em Brasília.

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