Numa carta dirigida à administração do Global Media Group (GMG), citada pela agência Lusa, a comissão sindical manifesta "profunda apreensão" pelo teor do email enviado aos trabalhadores, no qual o grupo de Marco Galinha alega que a “recente conjuntura muito agravada pelo presente período da guerra [..] torna imperativa uma nova reorganização empresarial”.
"O anúncio da abertura de um programa de rescisões por mútuo acordo não é, por si só, questionável. O que é questionável e condenável é a possibilidade, avançada no ‘email’, de, em caso de não adesão, vir a ser tomada 'qualquer medida de reestruturação sujeita a regime menos favorável'", lê-se na missiva.
"As dificuldades financeiras decorrentes dos efeitos da guerra na Ucrânia, com aumento da inflação, dos combustíveis, da energia, afetam todas as empresas e famílias. Afetam também os trabalhadores do grupo que há 16 anos não são aumentados", assinalam os trabalhadores.
A comissão sindical refere ainda que considera ser incompreensível o programa de rescisões, na medida em que se registou o crescimento do número de leitores ‘online’, a subida de 9% das vendas no ano passado, face a 2020, para 35 milhões de euros, e ainda devido ao facto de em 2020 ter havido uma “reestruturação” que resultou no "despedimento coletivo de 81 trabalhadores, entre os quais 17 jornalistas".
"Perante tudo isto, não se percebe se afinal há ou não há dificuldades", frisam os trabalhadores, acusando a administração do Global Media de ter como única estratégia "cortes cegos” e de estar agora a utilizar a "guerra como um mero pretexto".
A comissão sindical exorta o grupo de Marco Galinha a apresentar as contas do grupo, divulgar a despesa com serviços externos e o plano que tem para a empresa. E deixa um alerta: “A saída de mais trabalhadores, seja por rescisão amigável, seja por outras vias, compromete o futuro dos vários títulos do GMG e o jornalismo que ali é praticado".
Também o Sindicato dos Jornalistas (SJ) repudiou a “ameaça velada de despedimento feita pela administração do Global Media Group”.
Em comunicado, igualmente citado pela agência Lusa, o SJ aponta que a comunicação “representa um grave e lamentável desinvestimento nas várias empresas do grupo, em que se incluem títulos como a TSF, o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias ou o jornal desportivo O Jogo”.
“A abertura de um programa de rescisões amigáveis por mútuo acordo […] não passa de uma ameaça velada de despedimento, que o SJ considera inaceitável e injustificável”, lê-se na missiva.
“Conforme se percebe pelo documento, em caso de não adesão voluntária, os trabalhadores podem vir a ser abrangidos por ‘qualquer medida de reestruturação sujeita a um regime menos favorável’ no futuro”, continua o SJ. Basicamente, o que a administração do Global Media diz é que os trabalhadores “ou saem agora com um bónus de 10% sobre o mínimo legal em caso de despedimento coletivo ou saem a mal depois”.
O sindicato afirma que “tem motivos para não acreditar na promessa da administração liderada por Marco Galinha de apenas aceder a pedidos de saída nos casos em que possam ser substituídos ou não sejam necessários”, recordando que, há dois anos, o grupo realizou uma reestruturação que resultou no despedimento coletivo de 81 trabalhadores, entre os quais 17 jornalistas.
“A ameaça velada contida na proposta do Global Media Group representa a continuação da gestão de corte nas redações, o que é inaceitável para o Sindicato dos Jornalistas”, defende a estrutura sindical.
O SJ denuncia que “as saídas, nos vários órgãos do grupo, nomeadamente de jornalistas com muitos anos de experiência […] não só não foram preenchidas convenientemente como se prolongou a precarização e alastraram os baixos salários”.
Neste contexto, o sindicato adverte que o grupo de Marco Galinha “está a condenar à morte lenta e dolorosa na praça pública” os seus títulos, “ao continuar a optar por descartar trabalhadores, ano após ano, como se fosse possível fazer jornalismo sem jornalistas”.
A estrutura sindical lamenta ainda que a administração do Global Media não tenha aceite receber os representantes dos jornalistas e deixa críticas ao ministro da Cultura por “ainda não ter tido tempo” para “tomar conhecimento das dificuldades que enfrenta a Comunicação Social em Portugal”. Nesta matéria, Pedro Adão e Silva está, segundo o SJ, em “lamentável alinhamento” com a sua antecessora, Graça Fonseca.