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Alain Krivine, uma vida de mil lutas

Foi figura destacada do Maio de 68, foi preso pela sua atividade política, teve o quarto destruído por uma bomba da extrema-direita, foi candidato presidencial, eurodeputado, dirigente partidário que nunca virou a cara ao combate e que esteve em todas as lutas. Foi, numa palavra, um revolucionário. E vale a pena conhecê-lo.
Marcha de Homenagem a Alain Krivine aquando da sua morte. Foto de Photothèque Rouge/Martin Noda/Hans Lucas.
Marcha de Homenagem a Alain Krivine aquando da sua morte. Foto de Photothèque Rouge/Martin Noda/Hans Lucas.

De 1956, altura em que inicia a militância política até 2006, quando sai da Comissão Política da Liga Comunista Revolucionária permanecendo militante para o resto da vida, passaram 50 anos nos quais Alain Krivine foi uma figura destacada da esquerda revolucionária francesa. Como ele próprio escreveu, liga essas duas datas o “fio vermelho” da fidelidade ao projeto revolucionário.

Do Maio de 68 aos Fóruns Sociais Mundiais, passando pelo Parlamento Europeu mas também pelas ocupações de igrejas junto com as famílias sem papéis em risco de expulsão do país ou pela primeira marcha do Orgulho LGBTI+ em França, esteve presente e atuante em todas as conjunturas e momentos em que não se podia faltar à chamada.

Com este empenho permanente, Krivine não para de responder à pergunta “como ser revolucionário”. Também se dedica a responder à pergunta que lhe está adjacente: porquê ser revolucionário. Mas a resposta a esta impõe-se-lhe como óbvia. Ser revolucionário surge-lhe como uma obrigação ética: ao contrário de todas as adaptações ao sistema, é a forma certa e urgente de combater as injustiças sociais. Ser revolucionário revela-se atual: ele insistia que esta necessidade seria até “mais atual” no mundo da globalização do século XXI do que nos idos do Maio de 68 porque as injustiças persistem ou agravam-se. E ser revolucionário, ou melhor tornar-se revolucionário, mostra ser não assunto de minorias “esclarecidas” mas uma possibilidade de subjetivação alargada. É, aliás, uma das lições que tira do Maio de 68, ao contrário dos arrependidos, dos saudosistas ou dos umbiguistas: este tipo de eventos muda as pessoas, contrariando o pressuposto de que nada se pode mudar nunca. “As pessoas transformam-se, radicalizam-se, toda a riqueza humana explode” disse numa entrevista de 2011.

Como ser revolucionário?

Krivine foi um dos passadores de testemunho que ligaram a tradição dos movimentos proletários do pós-IIª guerra mundial aos dias de hoje. Para ele, ser revolucionário era ser internacionalista, anti-estalinista, anti-fascista, anti-colonialista, anti-racista, feminista, comunista… E é essa forma de ver o que é ser revolucionário que podemos encontrar condensada na fórmula com que apresentou aquilo que a organização em que mais tempo militou, a Liga Comunista Revolucionária, tentava ser: “ao mesmo tempo comunista e visceralmente oposta ao estalinismo, autenticamente revolucionária e apaixonadamente democrática”.

Daí vêm algumas das marcas em que ele e a LCR insistiam: a recusa do conservadorismo organizativo, das burocracias que temem perder o lugar e pensam que qualquer iniciativa diferente é sempre “aventureira”; a recusa da profissionalização da política (ele que foi um “permanente” do seu grupo defendia que “a política não pode ser assunto de profissionais que fazem carreira na política: a democracia é a intervenção e a participação de toda a população”); a recusa do eleitoralismo (sobre isso escreveu: “Não subestimo a importância dos debates políticos tradicionais, das consultas eleitorais, do sufrágio universal. Mas, quando se trata de se opor às ofensivas de regressão social ou de conquistar novos direitos, tudo se joga nas empresas e nas ruas, não nas urnas e nos palácios da República”); a crença de que a rutura com o capitalismo não se pode fazer no quadro das instituições atuais, a recusa do culto da personalidade e do mediatismo como fórmula mágica de influência social; e a consciência do perigo de transformação de qualquer pequeno grupo de militantes numa seita.

Encruzilhadas do comunismo

Alain Krivine era oriundo de uma família de origem judaica ucraniana. O seu avô fugira para a França da violência dos pogroms contra esta comunidade. A família reencontra mais tarde o anti-semitismo neste país. Durante a ocupação alemã, dispersa-se pelo território e vive escondida.

O seu encontro com a política dá-se em casa, com os irmãos que tinham aderido ao Partido Comunista Francês. Aos 12 anos adere aos Vaillants (os escuteiros comunistas que depois darão lugar aos pioneiros) e aos 14 à União das Juventudes Republicanas de França (que pouco a seguir se tornaram nas juventudes comunistas).

Como prémio por ser um dos melhores vendedores do jornal Avant-Garde ganha uma viagem ao Festival Mundial da Juventude em Moscovo. E é aí que experimenta o que diz serem os “primeiros grãos de areia que interferem com a minha lealdade”. A viagem de comboio até ao evento é feita com o povo a saudar cerimonialmente os jovens em cada estação, tudo demasiado artificial e coreografado. Encontra-se com a delegação húngara que só mais tarde descobriu que era composta por membros da polícia política que tinha reprimido a revolta popular um ano antes, mas o encontro “ainda mais decisivo” é com os argelinos da Frente de Libertação Nacional. Espantado, ouve-os criticarem o PCF por “não organizar verdadeiramente a solidariedade com a luta do povo argelino”. O partido falava de paz e não de independência e condenou até as primeiras ações armadas independentistas.

No regresso, cabe-lhe fazer umas sessões na “província” para falar sobre a experiência. Na intervenção que prepara, escreve ingenuamente que as pessoas na Rússia pareciam mais pobres e vestiam-se pior que em França mas é-lhe explicado que não o deve dizer por não ser tema que interesse às pessoas…

Segue-se a militância em apoio à causa da Argélia, a primeira que escapa do quadro estrito do PCF. Hubert, um dos irmãos, mete-o em contacto com a “Jovem Resistência”, organização clandestina que incitava soldados a não irem para a guerra, distribuía panfletos em manifestações, parava comboios para distribuir folhetos aos soldados, acolhia desertores na Suíça, com forte envolvimento da IVª Internacional, o que ele não sabia então. A militância pela causa argelina e antifascista, num movimento unitário de estudantes que dinamiza, vale-lhe um atentado à bomba em sua casa de que escapa ileso.

Leiamos mais uma vez as suas palavras: “a guerra da Argélia e a tomada de consciência das mentiras sobre o “socialismo real” da URSS provocaram assim uma primeira rutura na minha visão do mundo”. Face à luta pela independência argelina, o PCF mostrava-se ambíguo e tímido; a sociedade soviética não era o “paraíso dos trabalhadores”.”

Sublinhe-se que o PCF era na altura o grande partido da classe operária francesa com a sua aura da resistência ao nazismo. Organizava uma verdadeira contra-sociedade a todos os níveis. A rutura com esta realidade costumava implicar escolhas política e pessoalmente dolorosas. Para além disso, “a grande maioria dos militantes não conheciam os crimes estalinistas ou não queriam acreditar na sua existência”. Havia no partido o culto do modelo soviético e um modelo estalinista de organização com ausência de debates democráticos, realça, e a divergência com a direção resultava na exclusão.

É já na universidade que Krivine vive o primeiro embate direto com esta direção e conhece este desfecho. Na União dos Estudantes Comunistas, de que era dirigente nacional, organizam-se pela primeira vez dissidências significativas. Constituíram-se quatro correntes: os fiéis à direção que estavam em minoria; a tendência “italiana”, maioritária, anti-estalinista e reformista, à imagem do Partido Comunista Italiano; a ortodoxa, centrada na École Normal Supérieure, influenciada por Althusser, muitos dos seus militantes tornaram-se maoistas; e a anti-estalinista revolucionária, ou “trotkso-guevarista” como também era chamada, que juntava cerca de 500 jovens. O seu bastião era o setor de Letras da Sorbonne, onde Krivine estudava.

O resultado é uma não surpreendente exclusão do PCF em 1964/5. O seu setor estudantil está contra o apoio comunista à candidatura presidencial de François Mitterrand. Este então defendia que a Argélia era francesa e tinha sido o ministro da Justiça que dera aval à execução de cerca de 40 sentenças de morte de militantes independentistas argelinos, nomeadamente a do comunista argelino Fernand Iveton que tinha feito um ataque sem vítimas e acabou por ser guilhotinado.

Entretanto, Krivine já tinha feito o caminho para o trotskismo no qual fora precedido pelo seu gémeo que só mais tarde lhe revela que há muito estava organizado nesta tendência política. Quando tem os primeiros contactos com o Partido Comunista Internacionalista, à altura a secção francesa da Quarta Internacional, esta tinha pouco mais de uma centena de militantes e era duplamente clandestina: parte militava secretamente no PCF, outra parte fazia parte das redes de apoio à FLN.

Na sequência da expulsão do partido comunista, os jovens acabam por construir uma organização independente, a Juventude Comunista Revolucionária. Isto representava uma rutura com a anterior estratégia de entrismo da IVª Internacional com a qual a organização tentava quebrar a ostracização a que era votada. Apesar da oposição estudantil a que pertenciam ser bem maior, apenas cerca de 300 entre eles aderem ao novo projeto. Nos anos seguintes vão organizar escolas de formação e participar no movimento contra a guerra do Vietname.

Em 1968, irrompe a Primavera

O evento que abala França chega, portanto, com a organização ainda num estado muito embrionário. E Krivine, que passará a ser conhecido para o resto da sua vida como sendo da “geração de 68”, já não era na altura do Maio de 68 estudante mas secretário de redação na Hachette. Não volta a comparecer ao emprego, apesar de ter continuado a ser pago durante mais três meses. Esteve a tempo inteiro na revolta e é o elemento que representa a JCR na direção do movimento que reunia todas as noites na sede da União Nacional dos Estudantes de França.

A história do Maio de 68 é bem conhecida. Precede-o um começo de ano letivo, no outono de 67, no qual sai à rua um movimento de rejeição do projeto de Fouchet, ministro da educação, que queria instaurar medidas de seleção na entrada da universidade. Nos liceus, em dezembro, surgiram novas estruturas de luta, os comités de ação liceal.

A 20 de março, jovens manifestantes contra a guerra no Vietname ousam partir os vidros da financeira American Express em Paris e escrevem slogans contra a guerra nas paredes. Vários são presos, entre os quais um militante da JCR. Dois dias depois, em solidariedade para com eles, dá-se a famosa assembleia estudantil em Nanterre que decide a ocupação da faculdade, depois há a ocupação da Sorbonne que é desalojada pela polícia, as barricadas no Quartier Latin, as manifestações de solidariedade, nomeadamente as sindicais, e por aí adiante.

As estruturas tradicionais sindicais começam a ser ultrapassadas e surgem greves bem mais radicais do que o habitual com ocupações de fábricas. Para além das reivindicações parciais de cada local de trabalho, estão contra as medidas de De Gaulle para a reforma da Segurança Social. A greve geral impõe-se num movimento que chega a ser dez milhões de grevistas. Mas a 30 de maio De Gaulle convoca eleições, a esquerda concorda, os sindicatos também vão deixar-se enredar nos acordos de Grenelle, a repressão continua a deixar as suas marcas e o movimento que fez sonhar os jovens revolucionários vai definhando.

Diga-se que Krivine e a JCR nunca alimentaram a ilusão de que este iria desembocar numa revolução. Acreditavam, sim, que era uma revolta de grande amplitude, sem igual no pós-guerra. Contudo, sem programa e reivindicações claras ou organizações credíveis para tomar o poder, sem capacidade de coordenação, com uma auto-organização limitada a algumas cidades e empresas, o movimento estava condenado a cair num impasse.

Só que para ele e para os seus companheiros mostrava também outras coisas importantes: o impacto massivo que pode ter uma organização de poucos elementos num contexto de crise e que uma revolta de grandes dimensões podia acontecer no mundo ocidental, onde cada vez mais diziam que isso era impossível dado o acomodamento dos operários. O Maio de 68 poderia ser assim entendido como o “ensaio geral para uma revolução”. Ficava a pairar em muitas mentes a possibilidade de um novo abalo a curto prazo. Alguns faziam mesmo, ingenuamente como podemos rotular com segurança a partir da arrogância da posteridade, a analogia entre as revoluções de 1905 e de 1917 na Rússia.

A ressaca de maio

Dessa explosão contestatária ficou a abertura de um novo período reivindicativo e a prefiguração de novos movimentos sociais. Por um lado, abre-se a “primeira brecha” no controlo do PCF no mundo do trabalho e fica a ferida exposta de um “divórcio” entre este e a juventude, que abre a esperança de que a esquerda revolucionária pudesse consolidar influência no meio estudantil. Por outro lado, o fim do movimento é sentido por muitos como uma derrota, um “regresso à normalidade”.

Desde então, aliás, esse maio não para tanto de ser minimizado como devaneio de uma juventude burguesa ociosa, recuperado ou normalizado pelos poderes, quanto de ser esconjurado como momento fundador de uma degeneração social que deixou raízes ou como uma ameaça sempre presente de desestabilização da ordem. Como sublinhavam Bensaïd e Krivine, prova disso era que tanto o Papa Ratzinger quanto o ex-chefe de Estado francês Sarkozy continuavam a fustigar os idos de maio cinco décadas depois.

Como resultado dos protestos, 12 organizações revolucionárias são ilegalizadas, entre as quais o PCI e a JCR. E Krivine acaba por ser preso durante meses por tentativa de reconstituição de organização dissolvida. E obviamente uma reconstituição acaba mesmo por acontecer mas em moldes diferentes: em abril de 1969, na Alemanha, é fundada a Liga Comunista a partir dos dois movimentos da IVª Internacional que tinham sido ilegalizados.

Em termos de lutas sociais, os anos pós-68 não são um deserto e a organização envolve-se na criação de comités de soldados, nos movimentos de estudantes do secundário, na solidariedade para com a ocupação da fábrica de relógios da LIP em Palente (os trabalhadores apropriaram-se de documentos secretos sobre o seu despedimento e publicaram-nos, ocuparam a fábrica, passaram a trabalhar em auto-gestão), entre outros. A 24 de maio de 1971, outro exemplo, Liga Comunista e Luta Operária organizam uma manifestação de celebração do centenário da Comuna de Paris que junta cerca de 15 mil pessoas de vários países.

O revolucionário na pele de candidato presidencial

É ainda na ressaca do Maio de 68 que Krivine se destaca noutro dos papéis políticos ao qual ficará sempre colado apesar de não parecer sentir-se confortável nele. Em 1969, quando se encontrava no serviço militar obrigatório, é escolhido como candidato presidencial da LC. Pretendia-se desta forma fazer da campanha uma tribuna do Maio de 68.

O candidato-soldado, revolucionário vestido de fato, ainda consegue ter salas cheias como no Palácio dos Desportos em Paris onde se juntam seis mil pessoas, sobretudo jovens e estudantes, mas a candidatura está isolada do mundo do trabalho. Causa impacto ao abrir o seu tempo de antena a dizer: “Pela primeira vez, um candidato revolucionário tem a possibilidade de ser dirigir a vós”. Só que, segundo a sua própria avaliação: as suas prestações televisivas são “incompreensíveis, a entoação de comício, a vontade de dizer tudo, a linguagem de estudante…”

Nessas eleições, o PCF disputava, e perdeu por pouco, a passagem à segunda volta com 21,27% dos votos e não ajudava ainda à sua candidatura que à cabeça da mensagem transmitida televisivamente estivesse a ideia de que o voto não era grande arma e que não se deveria ter nenhuma ilusão nas urnas. Daí resulta, também nas suas palavras que “só me faltaram 48,7% dos votos para me ter tornado no chefe das Forças Armadas”. Por isso, volta à caserna por algum tempo, sempre com a militância na mira.

Pouco depois, em junho de 1973, acontece a segunda dissolução do partido depois de uma contra-manifestação de cerca de 5.000 pessoas à porta de um comício do grupo de extrema-direita Ordem Nova contra a “imigração selvagem”, que acaba em confrontos com o serviço de ordem desta. A Liga assumira como tarefa não se deixar normalizar o regresso do fascismo à vida política francesa. Depois desta ilegalização, Krivine, que não estava presente por estar numa outra manifestação noutro ponto do país, é preso mais uma vez por algum tempo.

Um ano depois, é novamente candidato à presidência. O seu partido tinha preferido uma “candidatura das lutas” do conhecido sindicalista Charles Piaget da LIP, a fábrica de relógios em auto-gestão, mas o Partido Socialista Unificado, do qual este era militante, acabou por tirar-lhe o tapete e apoiar Mitterrand.

Avança Krivine. E, novamente nas suas palavras, os ataques ao programa comum da esquerda por ser demasiado reformista e a defesa dos comités de soldados marcaram “exageradamente” a campanha. O crescimento da União da Esquerda deixava a esquerda revolucionária ainda mais isolada, Mitterrand estava na sua segunda candidatura presidencial e quase venceu Giscard d'Estaing. O resultado de Krivine foi que, como disse, ficou “ainda menos eleito” do que da primeira tentativa, com 0,36%. Abaixo dos 2,33% de Arlette Laguiller, jovem sindicalista bancária, candidata da Lutte Ouvrière. Desta feita, é ela que surpreende na televisão quando se dirige às câmaras a dizer: “sim, sou mulher e ouso apresentar-me como candidata à presidência desta República de homens.” Era a primeira vez que tal era escutado em televisão.

A Liga Comunista Revolucionária

Em dezembro de 1974, nasce a LCR, organização em que assume um papel fundamental. Krivine orgulhava-se de o grupo se reger por uma vida interna democrática, com várias tendências, assumida e despudoradamente, sem que passasse pela cabeça de ninguém dizer que isso seria “dividir o partido” e assim “ajudar os nossos adversários”.

Nele havia uma regra não escrita que instigava à participação dos seus membros nos diferentes movimentos sociais para tentar evitar o fechamento sectário e doutrinário. A formação teórica era permanente. Para além dos núcleos de base, havia comissões temáticas especializadas onde fluía o debate político e estratégico. E poucos funcionários, insistia. A preocupação anti-burocrática trotskista era uma das linhas condutoras. Havia a consciência de que era “a fraca presença nas instituições” que limitava em primeiro lugar “o carrerismo ou a vontade de obter privilégios” mas também que isso não impedia, em menor escala e com outros contornos, várias manifestações de ambição pessoal e de sedimentação de lógicas de amiguismos herdadas do grupo inicial de veteranos do Maio de 68 a que convinha ter estado mais atento, avalia Krivine.

A LCR dava-se a conhecer por quebrar a monotonia de muitas manifestações, a ideia de uma fanfarra numa manifestação era para alguns um sacrilégio à altura. E por tomar iniciativas desproporcionais em relação às suas forças. Por exemplo, em 1975 organiza uma festa para 50.000 pessoas para financiar a publicação de um jornal diário, constrói uma tipografia sem ter pessoal especializado, Krivine passa a ser diretor sem nunca ter tido experiência, tudo num quadro de amadorismo total e improvisação permanente que redunda, por exemplo, na impressão invertida de um dos números. Depois disso, o partido nunca deixará de sublinhar ter feito o primeiro jornal político para ser lido ao espelho. A aventura aguenta três anos com vendas de 10.000 exemplares, mas acumula dívidas. O Rouge forma quadros ainda hoje importantes no Le Monde e no Mediapart e a sua versão semanal mantém-se até ao fim da organização.

Outro exemplo, em 1989, é a força motriz por detrás do apelo alargado e da organização do bicentenário da revolução francesa. Com a colaboração do cantor Renaud, que ajuda a organizar um mega-concerto na Bastilha.

A LCR tentou acompanhar os movimentos emancipatórios como o das mulheres, rompendo com a tradição do PCF de meados dos anos 1950 que era hostil à contraceção e aborto e considerava a homossexualidade um desvio pequeno-burguês. Não sem dores, a LCR empenha-se numa auto-transformação feminista. O mesmo se passa com a questão LGBTI+ que só se coloca verdadeiramente na LCR em 1975 com a criação de uma Comissão Nacional de Homossexualidades. Dois anos depois Krivine está no primeira marcha do orgulho em Paris. Também aqui o processo de crescimento da organização não foi imediato e houve quem se sentisse ostracizado.

A conversão à ecologia “foi mais fácil” de resolver, dizia ele. Em 1973 na luta do povo do Larzac contra a instalação de um campo militar, em Plogoff em 1980 contra uma central nuclear, em 2002, como eurodeputado, no bloqueio de um comboio com detritos nucleares perto de Estrasburgo (não conseguiram), em 2004 com José Bové na tentativa destruição de campo de OGM (também não obtiveram sucesso).

Revolucionário de todas as lutas, Krivine marca presença noutros movimentos sociais. No Verão de 1996, acontece a ocupação da igreja de São Bernardo por dezenas de famílias sem-papéis. Está lá quando polícia entra à força entre as “personalidades” que se concentravam à volta das pessoas em greve de fome para os proteger da violência policial. É novamente detido mas desta feita apenas durante algumas horas. Estará, para além disso, em incontáveis manifestações e ações do movimento de imigrantes e sem-papéis, como nas das pessoas sem domicílio, nas dos desempregados e precários.

O último capítulo da sua aventura presidencial acontece em 1981. Pretendia-se então encarnar o espírito de união anti-direita da campanha “união nas lutas” que procurava ser uma alternativa ao programa comum PCF/PS. Mas as regras de candidatura tinham mudado. Passaram a ser precisos mais patrocínios de autarcas para concorrer e o PS exigiu à última hora aos seus que retirassem o apoio a Krivine que não consegue legalizar a candidatura.

O resultado dessas eleições marcará a esquerda francesa por muito tempo, abalando o imaginário da “unidade de esquerda”: Mitterrand vence e o PCF vai participar no governo. Porém, a “viragem do rigor” marca o fim do caminho comum, traz austeridade e privatizações e desfaz as esperanças criadas à volta do programa reformista.

O balanço desse longo ciclo eleitoral faz-se da auto-crítica sobre a performance, o discurso e a aspereza com que se encaravam aquelas esperanças de mudança. De qualquer forma, tanto o sistema eleitoral por círculos uninominais a duas voltas deixava poucas possibilidades de eleição, quanto o processo de unidade entre PS e PCF tornava marginal qualquer tentativa de abrir outro espaço significativo na representatividade institucional à esquerda. Havia aliás, “uma discrepância imensa entre a influência da Liga na contestação e os seus fracos resultados políticos”, analisa o historiador Roger Martelli.

Alain Krivine tira ao mesmo tempo um balanço crítico dessa evolução dos grandes partidos da esquerda francesa. A caminho dos anos 1990, o PS que era a social-democracia foi-se social-liberalizando, o PCF foi-se social-democratizando, os Verdes institucionalizaram-se. A globalização capitalista, dizia, “deixa os partidos reformistas sem reformas possíveis. Uma verdadeira política social-democrata feita de acumulação progressiva de melhorias limitadas mas reais é cada vez menos credível”. Mais uma razão para ser revolucionário, acreditava.

Em 1988, a LCR vai a jogo nas presidenciais apoiando um dos “renovadores comunistas” que tinha sido expulso do PCF. Pierre Juquin tem um resultado muito menor do que o esperado, 2,1%.

Vivia-se então o rescaldo de outro movimento importante. No inverno de 1986, depois da esquerda ter perdido as eleições para Chirac, a direita no poder avançava a sua agenda. As greve em vários setores ganham contornos diferentes com a criação de assembleias de base que, junto com as direções sindicais, participam na coordenação do processo. Foram um marco na participação, deixaram as direções das grandes confederações sindicais com um pé atrás e a LCR e a LO estiveram profundamente envolvidas. Nas telecomunicações, a CFDT exclui alguns dos dirigentes que tinham apoiado os comités de greve e estes criam o SUD-PTT. Depois começam a surgir outros sindicatos SUD, uma nova central sindical que pretendia ter uma prática sindical mais combativa e participativa.

O empenhamento no trabalho sindical foi, aliás, outra das marcas da LCR. Nos seus últimos vinte anos, sublinhe-se ainda a força das grandes greves do inverno de 1995, contra a reforma da Segurança Social de Alain Juppé; as da primavera de 2003, contra a reforma de Chirac que queria descentralizar o pessoal não docente da educação, reformar as pensões e a Segurança Social; ou as manifestações de 2006 contra o Contrato Primeiro Emprego, um dispositivo pensado para precarizar ainda mais a juventude. Em todos eles, a LCR está como peixe na água.

O deputado europeu e o mapa das lutas

Em 1999, Krivine ocupa pela primeira vez um cargo oficial. A lista conjunta LCR-LO elege cinco deputados ao Parlamento Europeu com 5% dos votos. Não fora a primeira vez que estes dois ramos do trotskismo francês tinham concorrido lado a lado. A experiência tinha tido antecedentes em momentos como as Europeias de 1979 e as autárquicas de 1977 e 1983.

Para além de votar favoravelmente qualquer medida que pudesse melhorar a vida do povo, o cargo permite aprofundar posições, estudadas em conjunto com as várias comissões setoriais do partido e em contacto com os movimentos sociais. Permite também chegar a eles com outra credibilidade e fazer-se ouvir, para multiplicar contactos e popularizar lutas.

E serve para chegar onde antes não se podia. Ainda que também tenha chegado a sítios pouco recomendáveis. Enquanto eurodeputado, Krivine desloca-se aos Estados Unidos, onde estava impedido de entrar, na comissão de inquérito ao sistema de espionagem Echelon. A investigação não resulta em nada mas o revolucionário apreciou a ironia de poder ser ele a interrogar os responsáveis governamentais norte-americanos.

Aliás, a lista das suas visitas ao longo dos anos é toda uma cartografia das lutas. Relembremos algumas delas. Visita Granada pouco antes dos americanos invadirem em 1983, a Nicarágua em 1984 e 1990, na altura da derrota eleitoral, visita a Nova Caledónia em 85, em apoio à independência do povo kanak, visita Cuba em 1992, onde fala da IVª Internacional num comité especializado do Comité Central, a Palestina em 1996 e 2002, encontrando-se com Arafat, o México em 1997 onde está no momento inaugural da tentativa de criação de um movimento político legal zapatista, a Frente Zapatista de Libertação, visita a Venezuela em 2003 na sequência do golpe de Estado, visita Bagdade como deputado europeu nas vésperas da guerra do Iraque, também em 2003, onde não se encontram com o regime mas só com ONGs. Está presente em 2001 no primeiro Fórum Social mundial em Porto Alegre, onde a esquerda se entusiasma com a alterglobalização. Também participa no 4º Fórum em Mumbai e no 5º, outra vez em Porto Alegre.

Em 2011, intervém para desbloquear manifestantes italianos bloqueados ilegalmente de entrar na contra-cimeira do G8 de Nice. Depois no Parlamento Europeu é votada uma resolução contra o impedimento de passagem de manifestantes pacíficos nas fronteiras. O que é cumprido nos anos seguintes.

Terminado o ciclo presidencial de Krivine, a LCR abre um novo. Em 2002, lança a primeira campanha presidencial de Olivier Besancenot. O jovem carteiro sindicalista aceitou com relutância tal responsabilidade. Contudo, a aposta é um sucesso, o seu discurso gera empatia, os comícios enchem e o resultado final será de 4,3% de votos com percentagem significativa de jovens e trabalhadores. A LCR ganha novo destaque e muitos dos jovens apoiantes da candidatura vão aderir ao partido. O resultado é, no entanto, obliterado pelo choque que é a passagem de Jean-Marie Le Pen, à segunda volta. Nessa mesma noite multiplicam-se manifestações espontâneas pelo país contra a extrema-direita. A LCR excecionalmente vai apelar ao voto na segunda volta para derrotar o líder da Frente Nacional.

Ainda em aliança com a LO, as regionais de 2004 trazem um resultado abaixo das expetativas - 4,58% na média nacional e mais de um milhão de votos -, mas importante. No mesmo ano, as novas eleições europeias trazem uma desilusão ao não se conseguir a reeleição de deputados nesta instância. À partida o fim da proporcionalidade ao nível nacional dificultava a tarefa (nestas eleições o país foi dividido em oito círculos, na maior parte dos círculos um lugar representava cerca de 10%). Mas o resultado ainda foi mais fraco do que o esperado, menos de 3%.

Contudo, em 2005, uma nova esperança se levanta. O tratado constitucional europeu é rejeitado em referendo por 54,68% dos votos. O documento é visto à esquerda do PS como tendo por principal função legitimar a ofensiva do patronato europeu, abrindo portas à desregulamentação, precarização, privatização dos serviços públicos, ataques aos sistemas de segurança social e reformas, diminuição de subsídios de desemprego. A campanha que podia ser difícil à partida para a esquerda por poder polarizar nacionalismo e “europeísmo” acaba por ser marcada pela capacidade da esquerda colocar as questões sociais no centro do debate. A Fundação Copérnico toma a iniciativa de agregar o "Não" de esquerda e criam-se mais de um milhar de comités de campanha numa campanha de massa e de proximidade “como nunca antes tínhamos visto”, relata Krivine, abrindo novas perspetivas de unidade.

Em busca de um partido anti-capitalista amplo

Em 2006, Krivine deixa o seu papel de dirigente quotidiano da sua organização e publica as suas memórias. Nessa altura, a LCR tinha crescido com as mobilizações mais recentes e o referendo ao tratado constitucional, estava-se à beira das eleições presidenciais de 2007, as segundas onde Besancenot será cabeça de lista, repetindo um resultado na ordem dos 4% e com milhão e meio de votos, à frente do PCF e da LO.

A perspetiva que se abria então para a Liga era “ajudar a construir uma nova força política radical, anticapitalista” da qual não se vislumbrava ainda a forma, mas à qual se atribui um caderno de encargos pesado: teria de “reinventar o socialismo”, fazer o balanço do socialismo burocrático e da social-democracia, “juntar todas as correntes que partilham uma rejeição do capitalismo”, “de ser profundamente democrática, impedir a burocratização, a distância entre os profissionais e a base militante”, com “rotatividade de mandatos, aceitação da pluralidade de pontos de vista como uma riqueza e não um peso”, paridade e circulação de informação.

Alain Krivine é um dos que participa em 2009 na criação da tentativa de materializar esse partido anticapitalista amplo, o Novo Partido Anticapitalista, que ainda faz parte da sua história política mas que é toda uma outra história ainda em aberto para além dele.

O processo de constituição deste partido mobiliza bem para além do campo da antiga LCR, juntando algumas outras correntes e muitas pessoas que antes não tinham militância política. Mas os resultados não são os esperados. Com Besancenot a recusar protagonizar uma nova campanha presidencial em 2012, alegando os perigos da centralização do partido na sua pessoa, o NPA escolhe Philippe Poutou, operário na Ford, sindicalista que se notabiliza pela luta contra o encerramento da sua fábrica, com um passado de militância na LO. O terceiro ciclo presidencial deste campo político fica-se pelos 1,15% em 2012, 1,09% em 2017, 0,76% em 2022.

Por outro lado, ao mesmo tempo que se criava o NPA um outro projeto de maior envergadura nascia à esquerda. Um certo ex-ministro e deputado do Partido Socialista criava à sua volta uma nova força chamada “Partido de Esquerda”, entretanto quase esquecida, com vista também às presidenciais. Se esse nome ficou esquecido, o de Jean-Luc Mélenchon não. Conseguiu criar uma coligação com o PCF, a Frente de Esquerda, que leva às europeias e às presidenciais. Consegue 11,1%, depois 19,58% em 2017 já com a França Insubmissa e 21,95% em 2022. Isto custará bem cedo uma cisão ao NPA daqueles que defenderam a adesão à Frente de Esquerda e uma certa perda de atratividade do seu projeto.

Internacionalista e dirigente internacional

Uma última palavra para a outra organização da qual Krivine foi dirigente, a Quarta Internacional. Longe de um discurso triunfalista sobre ela, Krivine reconhecia a implantação limitada, a marginalidade política a que foi obrigada e o preço que se paga pela ostracização, nomeadamente alguns “comportamentos caricaturais”.

Acreditava porém que esta “continua a desempenhar um papel importante na crise do movimento operário. Face ao drama do estalinismo e às numerosas capitulações da social-democracia conseguiu manter uma memória e transmitir o melhor das experiências revolucionárias do século XX”, baseando-se numa “cultura pluralista, democrática e internacionalista”, com congressos mundiais regulares, preparados longamente através de documentos discutidos pelas bases, e uma aposta na solidariedade ativa para com muitas lutas internacionais.

Dirigente da organização e um dos seus rostos mais conhecidos, via a participação nela não como exclusão de outras tentativas de juntar mais amplamente a esquerda revolucionária. A IVª Internacional, “dadas as suas origens e passado marginal, não pode ter a pretensão de juntar no seu seio todas as forças, muitas vezes de tradições diferentes, que abrem as portas à reconstrução do movimento revolucionário internacional. O desafio para ela é participar, modestamente e de forma não sectária, neste processo. Hoje, o seu papel é ajudar à construção de um novo agrupamento… uma Vª Internacional adaptada pelo seu programa e funcionamento às tarefas do século XXI”, escreveu, manifestando esse desejo de continuar o combate.

Alain Krivine deixou-nos há seis meses. Tempo de recordar uma vida de mil lutas. Tão longe do facilitismo, tão longe da auto-suficiência, tão longe das caricaturas que tantos se esforçam por fazer daquilo que seja um revolucionário. Se assim escolhermos, cabe-nos agora a nós responder à pergunta: como ser revolucionário?

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