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Krivine: “Boa parte da extrema-esquerda teve origem no apoio à revolução argelina”

Neste artigo, de 2004, Alain Krivine fala sobre a posição do Partido Comunista Francês em relação à revolução argelina e defende que o apoio a esta causa está na origem da formação dos “quadros” de 1968 e da “nova extrema esquerda”.
Imagem publicada em Contretemps.

Quando regressei a França, se não rompi totalmente com o Partido, fiquei pelo menos escandalizado com a sua atitude. A partir daí tomei a decisão de ajudar a FLN e falar sobre a questão com os que me cercavam, considerando que era absolutamente necessário “fazer alguma coisa”. Mas eu não sabia como entrar em contacto. E foi aqui que intervieram as relações familiares: eu tinha irmãos que ajudavam a FLN há muito tempo. Eles não eram estalinistas e esconderam as suas atividades de mim na medida em que eu era um [pequeno] “líder estalinista”. Mas vendo como eu estava infeliz por não poder fazer nada pela Argélia, eles intervieram, dizendo-me que talvez pudéssemos ajudar os argelinos.

Colocaram-se então em contacto com o grupo Jeune Résistance (Resistência Jovem), através do qual iniciei minhas as atividades de apoio. No quadro da Juventude Comunista (JC), comecei a lutar pelos argelinos, exigindo nomeadamente que a Sra. Audini fosse convidada para uma reunião da JC. Eles responderam-me: “É maluco. Não vamos convidá-la para uma reunião”. Só para finalizar estas histórias, que mostram bem a mentalidade do partido, a JC distribuiu um folheto que convidava as pessoas, por ocasião de um congresso estudantil, para um baile “Pela paz na Argélia”. As palavras: “Vamos dançar e vamos...” foram adicionadas. Fui delegado do Congresso Nacional. Ainda ingénuo, subi à tribuna para declarar que não parecíamos estar cientes da situação, que existiam pessoas que estavam a morrer ali e que achava repugnante permitirmos esse tipo de festa sobre o tema da Argélia. Todos começaram a cantar: “Virgem, Virgem...”

Encontrei-me então numa rede liderada por trotskistas. Os meus irmãos eram trotskistas e é claro que não me contaram nada, pois, como bom estalinista, eu odiava trotskistas. A primeira condição que coloquei a um deles foi: “Concordo em participar da vossa rede Jeune Résistance, mas apenas com a condição de que não haja trotskistas lá!” Ele perguntou-me por que razão disse isso e eu respondi: “Porque eles são polícias, e eu sei que nesse tipo de coisa há trotskistas”. Ele garantiu-me que não havia nenhum e perguntou-me o que é que eu tinha contra Trotsky. "Nada! Tudo o que sei é que ele era um polícia e um fascista!”.

Então trabalhei com a Jeune Résistance, cuja atividade passava, essencialmente, por travar os comboios de recrutas. Depois entrei na União dos Estudantes Comunistas (UEC), onde pertenci à direção, enquanto, clandestinamente, era membro da Jeune Résistance. Durante as manifestações, tentámos iniciar gritos de independência e agitar bandeiras da FLN, enquanto o resto gritava “Paz na Argélia!”. Havia também atividade dentro do exército; isso é o que mais me interessou. Paralisaram-se comboios de soldados que estavam a partir. Os sinais foram sabotados. Desta forma parámos dezenas de comboios, e isso fez muito barulho.

Durante a maior parte da guerra, o Partido tinha como palavras de ordem “Paz na Argélia”, e as suas instruções eram para não ter relações com os argelinos, o que seria muito perigoso para o Partido. Quando a hierarquia encontrou membros que apoiavam a FLN, eles foram expulsos. Um camarada de Billancourt que ajudava a FLN, que chamávamos de “Benoit”, foi imediatamente expulso do Partido (na verdade, era um trotskista clandestino). O Partido também se opôs igualmente à deserção e à insubordinação. Explicava que um jovem comunista deveria ir para o exército, mas seguindo o esquema de Lenine, para aí introduzir ideias revolucionárias. No entanto, o PCF não organizou de forma alguma os recrutas, e nenhum dos jovens comunistas que foram recebeu instruções. Infelizmente, muitos deles tornaram-se racistas, pois não havia contrapeso às pressões ideológicas da vida militar.

Assim, o PCF opôs-se a todas as iniciativas. Era totalmente contra a paralisação dos comboios, a sabotagem contra “os nossos camaradas ferroviários”. O movimento desenvolveu-se consideravelmente, já que éramos cerca de 900 na Jeune Résistance, o que é muito para uma organização clandestina (de certa forma, foi o início da extrema esquerda). Os jovens comunistas recusavam-se a ser insubordinados por medo de ir para a prisão... Havia alguns filhos de membros do Comité Central que fizeram ações corajosas, mas era tarde demais. A direção do PC teve os seus poucos mártires para depois dizer aos argelinos e à opinião pública: “O nosso partido também teve os seus mártires”. Assim, nos últimos dois anos da guerra, cerca de 20 jovens soldados comunistas recusaram-se a ser enviados para a Argélia. Mas quando olhamos para os seus nomes, muitas vezes eram filhos de líderes, como o filho de Léandre Letocard, ou de membros do Comité Central que se recusaram a ir para a Argélia e foram presos. Mas isso foi no final. Em 1956 Alban Liechti foi o primeiro a recusar ir à Argélia, mas o Partido não o apoiou: ele estava absolutamente sozinhoii.

Os meus dois irmãos estavam diretamente envolvidos nas redes de apoio, em ligação com a Federação de França da FLN. Eles lidavam com o transporte de dinheiro. De vez em quando, dava-lhes algum apoio. Na maioria das vezes, eu cuidava dos transportes em Paris: quando carros cheios de polícias fechavam certos bairros, era necessário colocar pessoas nos cruzamentos para ter certeza de que não havia postos de controlo. Os nossos amigos fizeram-nos sinais permitindo que carros transportando militantes da FLN cruzassem Paris sem impedimentos. Fiz isso várias vezes.

Fizemos “iniciativas” sobre prisões. Nomeadamente, participei de uma tentativa de libertar algumas mulheres. Isso foi em Fresnes. Um grupo de camaradas sobrevoou a prisão com um pequeno avião, o que era proibido, e tirou algumas fotos. Já agora, eles estavam doentes como cães no avião, que teve que realizar acrobacias aéreas. Quanto a mim, à noite estava nos braços de uma camarada encantadora, e acompanhamos a troca da guarda entre a polícia e os CRS ao redor da prisão para saber o seu itinerário, como estavam e quando a guarda foi trocada.

Estávamos bem encostados às paredes. Pequenas colinas permitiam que nos escondêssemos. Éramos alguns casais que se revezavam, cada casal permanecendo lá quatro horas e meia.

Transmitimos a informação para pessoas que tinham pseudónimos e cuja identidade eu desconheço. Eles estavam “num nível mais alto”. Foi bastante bem organizado. As redes de apoio eram uma boa escola. Alguns participaram por motivos “humanistas”, porque ficaram escandalizados com a tortura dos argelinos. Isso é bom e normal. Mas para outros essas redes eram uma boa escola política. Tornaram-se verdadeiros internacionalistas. Adquiriram uma forma de prática política, que é sempre útil. Depois, nas organizações políticas, percebemos que boa parte do núcleo da futura extrema-esquerda teve as suas origens no apoio à revolução argelina. Era uma questão de internacionalismo “prático”, e não de discurso. Viu-se concretamente como uma revolução inspira simpatia, politiza os jovens e torna-os militantes. Esta foi verdadeiramente uma escola de trabalho prático.

A atitude da direção e dos estudantes comunistas em relação à guerra na Argélia seria um dos motivos da oposição que nasceu e explodiu entre eles. A Argélia, juntamente com a Hungria, são os dois elementos da crise; a traição do povo argelino pelo PCF e o apoio dado por este durante a invasão soviética da Hungria, que também foi considerada uma traição, a do povo húngaro. Os militantes “clandestinos” solidários com a Argélia, que eram membros da UEC, desempenhariam um papel muito importante no nascimento de uma “Oposição de Esquerda” ao estalinismo. Essa oposição nasceria a partir de 1960-61 e terminaria com a expulsão de todos eles em 1965. A transição, no entanto, levaria cinco anos. Antes do fim da guerra na Argélia, o caso da OAS [Organisation Armée Secrète] veio a ser um elemento suplementar para nutrir, alimentar e radicalizar uma parte dos Jovens Comunistas, inclusive no “trabalho prático”.

Todos esses elementos vieram a contribuir para a nossa radicalização, mas de forma contraditória. Quando se tratava do exército, em princípio eu estava ligado à tradição leninista, ou seja, de que era necessário entrar no exército e lutar lá denunciando o colonialismo. Admirei aqueles poucos soldados que foram, literalmente, para o outro lado. Para mim, quando estava a começar a desestalinizar-me, o herói era o oficial cadete Maillot. O que ele fez foi como os “amotinados do Mar Negro” com André Marty: “Somos solidários com a revolução do outro lado. Juntamo-nos a eles com os nossos braços, estamos a juntar-nos ao outro lado.” O inimigo era o colonialismo francês. Maillot e Ivetoniii foram verdadeiros heróis: o ato de solidariedade era capital.

Sabendo que o PCF não estava a fazer nada, no exército apoiámos totalmente a insubordinação e a deserção. Isso permitiu a provocação política, um gesto político para sacudir os franceses. Era melhor do que não fazer nada. Como aqueles que partiram para a Argélia não puderam ser educados, muitos tornaram-se racistas, como já referi. Sabemos o que é uma guerra colonial: os nossos amigos são mortos, os jovens soldados são completamente apanhados na máquina. Era melhor que eles não saíssem. Embora leninistas na questão do exército, estávamos assim a favor da insubordinação: era a maneira mais eficaz de levar as pessoas a obter consciência e a participar, por menor que seja, de uma pequena sabotagem do aparato militar francês.

A tortura também foi um elemento importante na nossa escolha. Havia jornais especializados na distribuição de obras proibidas (como La Question de Henri Alleg). Foi o caso de Temoignages et documents, que denunciava todo o trabalho sujo dos franceses na Argélia. Trabalhei muito para esta última publicação. A denúncia da tortura desempenhou um grande papel. Por exemplo, quando o secretário-geral da autarquia de Argel em 1957, Paul Teitgen, afirmou: “A tortura é a nossa maneira de governar”, ele não foi muito mais longe, mas já se tratava mais do que mero “humanismo”. Conseguimos assim ser “obrigados a responder”, como dizemos hoje, pela própria natureza do combate que os franceses levaram a cabo na Argélia. Isso teve um significado político importante.

Depois disso, a OAS também foi uma causa importante de turbulência política, porque ali tratava-se de fascismo. Por um período inteiro, a Argélia esteve muito distante das pessoas, então as pessoas realmente não se importavam e, de qualquer forma, tinha a ver com os “árabes”. A massa da população começou a interessar-se pela Argélia quando dezenas de milhares dos seus filhos estiveram lá e depois contaram sobre a sua guerra quando voltaram. Além disso, houve milhares que não voltaram ou ficaram feridos; a população francesa começou então a fazer perguntas. No início da guerra, além dos intelectuais, a esquerda dormia. Mas com a OAS, ou seja, com o fascismo, o povo de esquerda começou a acordar, houve reações antifascistas. Tornou-se um “fenómeno francês”, com os skinheads, os homens fortes da direita... as pessoas começaram a ter medo. Depois houve os ataques, Delphine Renard... Quanto a mim, o meu bloco foi bombardeado.

A terceira experiência “interessante”: no momento em que a OAS estava a realizar esses ataques, sentíamos que entre os jovens havia algo maior do que apenas a própria guerra na Argélia que estava a acontecer, e a Front universitaire antifasciste (Frente Universitária Antifascista - FUA) foi criada. Conseguimos criar uma verdadeira organização de combate em massa que reuniu milhares de estudantes em Paris e nas províncias. O PCF estava contra nós e nós, comunistas, estávamos à frente da FUA. Em oposição aos estalinistas, conseguimos demonstrar que era possível ter uma reação combativa unitária, não sectária, já que foi a organização que decidiu expulsar os fascistas do Quartier Latin. Todos os dias havia centenas de estudantes que, a pedido da FUA, se reuniam no Quartier Latin com brigadas móveis. Assim que houve uma distribuição de panfletos fascistas, saímos e acabávamos com ela. Sabemos que pessoas como Duprativ, que era a favor da OAS e já morreu, nunca conseguiram entrar no Institut de Geographie... Recentemente, ainda havia uma inscrição nas paredes daquele Instituto: “Duprat não entrará”. Limpámos, realmente, o Quartier Latin, não de forma ultra-esquerdista, mas com a massa de estudantes que tinha sido mobilizada. Havia cristãos, membros do PSU, os desorganizados e nós, a “oposição” comunista.

A liderança do Partido chamou-me, juntamente com alguns outros, para nos dizer para pararmos, que estávamos a comportar-nos como “ultra-esquerdistas”. Esta seria uma boa experiência, pois rapidamente foi-nos dada uma espécie de “almofada democrática” para nos protegermos: 150 intelectuais, com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir à frente do grupo, assinaram um texto quase idêntico ao da FUA. Esta foi a criação da FACUIRA [Front d’action et de coordination des universitaires et intellectuals pour un rassemblement antiraciste]. Então, agora tínhamos essa estrutura anti-OAS guiada por intelectuais, e a organização de estudantes de ensino médio e universitário, a FUA.

Esta foi uma experiência muito rica. Tínhamos o nosso próprio serviço de espionagem: foi assim que adquirimos credibilidade. Conseguimos prender os que bombardearam o Le Figaro, um tipo de operação que a polícia nunca fez. Prendemo-los e interrogámo-los (sem lhes bater) por uma noite inteira num apartamento, até eles confessarem. Encontrámos neles uma lista de 50 oficiais e dezenas de chaves. Depois não sabíamos o que fazer com esses tipos. Entregámo-los à polícia, com os mapas do Figaro que tinham em seu poder. Os polícias ficaram furiosos porque foram os “esquerdistas” que lhes deram esses bombistas. Esses tipos, três da OAS, foram colocados num campo de internamento.

No dia seguinte, o Figaro, muito aborrecido, teve que falar sobre isso. Este foi realmente um evento. Mas o jornal ainda dizia que “talvez” se tratasse dos bombistas do Figaro. Esses tipos passaram cerca de dois ou três anos num campo de “retenção” (havia muito poucos desses campos para fascistas, mas muitos para argelinos).

A OAS irritou boa parte da opinião pública, principalmente depois do atentado ao apartamento de André Malraux, que custou o olho à pequena Delphine Renard. Este foi um ponto de viragem na guerra na Argélia. As pessoas diziam: “É um caos total aqui. Se houver perigo de ataques nas ruas, bem, vamos acabar com isso…”.

E depois houve a manifestação de 17 de outubro de 1961, e os argelinos lançados no Sena. A reação do público foi miserável; o que aconteceu nunca tinha sido visto antes. Mas havia tanto racismo entre o público que todos se contentaram em considerar a repressão vergonhosa. As informações a respeito foram surgindo aos poucos. Hoje sabemos o que aconteceu, mas na época não se sabia muito; fomos constantemente enganados. Para muitas pessoas foi apenas “uma enorme demonstração de árabes imundos que os policiais atacaram”. O público reagiu a essa versão benigna dos factos, e o racismo teve rédea solta aqui. Não foram os franceses que foram atacados e, por definição, os argelinos eram assustadores. Gostamos da mercearia árabe do bairro, aquela que fica aberta a noite toda, mas quando estão juntos na rua metem medo. Então havia, por um lado, medo daquela massa de argelinos e um pouco de arrependimento porque se falava que tinham havido muitas mortes. Isso explica a paralisia da opinião.

Eu vi a cena horrível nos Grands Boulevards. Fui avisado disso, e foi absolutamente horrível: é uma memória que nunca vou esquecer. Além disso, estava a chover, o que deu um aspeto ainda mais sombrio. Não havia carros nas Grands Boulevards, o trânsito estava bloqueado. Eram 23h e o massacre já tinha acontecido. O Boulevard estava inundado, sombrio, negro; nenhum carro, nenhum som: silêncio total. E os montes de argelinos – e não há outra palavra para isso – a cada 50 metros diante das portas. Não se sabia quem estava morto. Havia sangue. Eles não se mexiam, não gritavam, não diziam nada. Montes de argelinos na escuridão, e companhias de CRS, cassetetes na mão, que não batiam mais em ninguém, que andavam de um lado para o outro. O pior foi em frente aos escritórios de L'Humanité, no boulevard Poissonière, com a veneziana de ferro fechada e diante dela uma massa de argelinos, feridos ou mortos, que sangravam e estavam ali, em frente à veneziana fechada: uma imagem como esta é inesquecível.

Hoje há finalmente uma reabilitação da verdade, mas tivemos que esperar por ela quase até ao final do século. Todos os tipos de comités tentaram fazer alguma coisa. Em muitas entrevistas foi perguntado aos comunistas se é verdade que a porta de L’Humanité permaneceu fechada diante dos manifestantes. Eles responderam que sim, mas que não podiam fazer de outra forma, que tinham que garantir a segurança do jornal, etc. Sempre os mesmos argumentos, é terrível.

Tudo isso representa o início da rutura entre o mundo do trabalho e o PCF, o início do declínio deste último. De certo ponto de vista, a formação dos “quadros” de 1968 e da “nova extrema esquerda” com os trotskistas, os maoístas e alguns ecologistas – tudo o que vai além dos partidos tradicionais, enfim, boa parte dos militantes hoje na casa dos cinquenta, foram politizados, radicalizados, revolucionados e desestalinizados pelo seu apoio à Revolução Argelina.

Em 1962 a independência da Argélia foi uma grande alegria; tínhamos trabalhado durante anos para esse fim. Não houve manifestações de alegria em França. Foi difícil... Mas foi extraordinário para todos os militantes da solidariedade. Podíamos olhar-nos no espelho depois de ter contribuído, se não uma pedra, pelo menos um grão para essa independência argelina. O combate foi vitorioso e ficámos absolutamente felizes.

Depois houve debates: a que isso vai dar? Alguns estavam mais confiantes do que outros, mais otimistas. Mas dissemos a nós mesmos: “Pelo menos é isso. O país é independente, a causa pela qual as pessoas foram massacradas. A tortura parou. Qualquer que seja o regime, o objetivo principal foi alcançado, os argelinos têm a sua própria casa”.

Para concluir, gostaria de assinalar que é preciso entender que toda uma geração mantém laços particularmente estreitos com o povo argelino desde aquela época. Se vou à Tunísia, a Marrocos ou à Albânia não é o mesmo do que quando vou à Argélia. Há algo lá que permanece. É por isso que somos muito exigentes se algo não está certo na Argélia. “Eles não merecem isso”, pensamos.


Artigo publicado em Jacques Charby, Les Porteurs d’Espoir. La Découverte, Paris, 2004; e reproduzido em marxists.org (Tradução por Mitchell Abidor). Tradução para português de Mariana Carneiro

i Josette Audin, viúva de Maurice Audin, professor comunista argelino que foi preso por paraquedistas franceses, torturado e executado em segredo.

ii Foi condenado a dois anos de prisão por insubordinação.

iii Maillot era um comunista argelino que foi morto enquanto transportava armas roubadas do exército francês. Iveton também era comunista, guilhotinado após um ato fracassado de sabotagem.

iv Militante de extrema direita, posteriormente cofundador da Frente Nacional. Ele foi morto em circunstâncias misteriosas em 1978.

(...)

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