Está aqui

Argélia. Fuga para a independência

Independência de França só chegou a 5 de julho de 1962. Quatro anos antes, tinha sido criado o Onze da Independência: jogadores de origem argelina que atuavam em França e abdicaram das carreiras para formar a equipa da Frente de Libertação Nacional e defender a Argélia dentro de campos de futebol espalhados pelo mundo. Por Rui Pedro Silva.

Descobrir a pólvora em Moscovo

Mohamed Boumezrag viu no Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes em Moscovo, em 1957, uma oportunidade. Com um passado de futebolista que incluía passagens pelo Red Star e pelo Bordéus, o argelino nascido em 1921 apercebeu-se de que os atletas africanos tinham uma palavra a dizer quando competiam com as melhores equipas mundiais.

Condenado ao exílio em 1957, tornou-se o líder da secção da Frente de Libertação Nacional (FLN) da Argélia na Tunísia. A FLN já tinha uma equipa amadora em Tunis mas não podia rivalizar com o talento de uma equipa composta com jogadores de origem argelina que atuavam nos dois principais escalões franceses.

A guerra pela independência subiu de tom na Argélia e Boumezrag decidiu utilizar o futebol como trunfo. Para isso, contou com a ajuda essencial de Mohamad e Khadidja Maouche, um casal que fingiu estar em lua-de-mel para palmilhar as estradas francesas à procura dos melhores talentos para recrutar.

Com um carro desportivo verde, um MG, estiveram 48 horas sem parar. Mohamed era futebolista do Stade de Reims e tinha conseguido uma autorização especial para aproveitar a lua-de-mel, mas o facto de já ter estado preso e de ser controlado pelos serviços secretos franceses fazia com que fosse demasiado perigoso entrar em locais públicos como hotéis ou restaurantes, Como tal, era a mulher Khadidja, com documentos de identificação falsificados, que garantia que não lhe faltava comida.

“E era eu que contactava os jogadores. Ninguém sabia que eu era casada com o Maouche. Falava com eles individualmente e dizia que era uma ordem. Alguns já estavam à espera e perguntavam por que não tínhamos falado com ele antes”, conta em declarações à BBC.

Khadidja recorda também o último jogador com quem falou, Abdelkrim Kerroum. “Estava louco de alegria. Disse-me: “Finalmente! Estão aqui. Perguntavam-me por que não tinham vindo ainda. Eu sou argelino, tenho de fazer alguma coisa’”.

Secretismo na primeira fase

A equipa foi criada oficialmente a 13 de abril de 1958 com o objetivo de fazer mostrar ao mundo que até os jogadores estavam dedicados à causa da independência. Numa primeira fase, foram dez os escolhidos, que depois se juntariam a Mohamed Boumezrag, que faria de jogador e treinador.

O plano estava dividido em dois: os jogadores das equipas do norte de França sairiam do país junto à fronteira com a Bélgica, enquanto os das equipas do sul atravessariam a fronteira com a Itália. Numa segunda fase, seguiriam todos de barco até à Tunísia.

Houve um problema. Rachid Mekhloufi lesionou-se no jogo disputado no dia em que estava agendada a fuga – 12 de abril de 1958 –, passou 36 horas hospitalizado e só conseguiu juntar-se aos colegas dias mais tarde. Apesar de tudo, o plano nunca foi posto em causa.

Pelo meio, a 15 de abril, o L’Équipe titulava que nove futebolistas argelinos tinham desaparecido. Numa altura em que os dois principais escalões do futebol francês tinham 53 federados de origem argelina, dois assumiam especial destaque: Mustapha Zitouni e Rachid Mekhloufi.

Os dois estavam entre os pré-convocados franceses para o Mundial-1958 na Suécia, onde Just Fontaine marcaria 13 golos, mas não tiveram dúvidas no momento de deixar tudo para trás. «Não hesitei», disse Mekhloufi, campeão nacional em 1957 com o Saint-Étienne, perante a possibilidade de estar a abdicar da carreira.

“As pessoas têm objetivos para a carreira: bater recordes, ganhar dinheiro, estar no Mundial… Pensei nisso mas não era nada quando comparado com a independência do meu país”, acrescentou.

Surpresa para a FLN e a pressão francesa

A Frente da Libertação Nacional tinha uma equipa amadora e não fazia ideia do que estava a ser concebido. Nem os franceses, que fizeram todos os possíveis para que o chamado Onze de Independência não fosse reconhecido pela FIFA. Mais do que isso, pairava também a ameaça de exclusão do Mundial a todas as seleções que aceitassem defrontar a equipa argelina.

A pressão serviu de pouco. Durante quatro anos, o Onze da Independência fez um total de 91 jogos e chamou a atenção do mundo para a causa da independência. Percorreram o mundo de Belgrado a Bagdade, passando por Praga, Sófia, Bucareste, Pequim e Hanói.

No Vietname foram recebidos por Ho Chi Minh e em Bagdade, em fevereiro de 1959, a bandeira argelina foi hasteada pela primeira vez, com direito a hino nacional. O episódio é recordado pelo médio iraquiano Edison Eshay, em declarações reproduzidas no site da RSSSF.

“Lembro-me de quando ouvimos que a equipa argelina vinha a Bagdade. Sabíamos que eram profissionais da liga francesa. Lembro-me de nos termos preparado muito para o jogo e de ter sido uma das minhas melhores exibições. Fizemos o melhor possível mas eles eram imparáveis”, disse, acrescentando que foram recebidos pelos iraquianos como heróis, apenas um ano depois da Revolução de 14 de Julho.

“As autoridades argelinas não faziam ideia de que conseguiríamos criar uma equipa competitiva a nível mundial. No início serviu apenas como ato político”, explicou Mekhloufi, recordando vitórias como a goleada à Jugoslávia em Belgrado por 6-1.

Nos 91 jogos, o Onze da Independência, que contou com um total de 33 jogadores ao longo dos quatro anos, venceu 65, empatou 13, perdeu 13, marcou 385 golos e sofreu 127.

O início do fim

Quando a guerra pela independência subiu de tom, deixou de ser possível continuar a organizar jogos pelo mundo. Houve quem tenha querido regressar a França para jogar e quem tenha começado a jogar na Tunísia com o estatuto de amador. Mas, depois da independência, a maior parte regressou à Argélia com o objetivo de desenvolver o futebol e lançar as sementes para o futuro.

“Fomos os primeiros embaixadores da revolução e do povo argelino”, considerou Mohamad Mouache. “A maior parte das pessoas não sabia que havia uma guerra real na Argélia. Falávamos com as pessoas depois dos jogos e no dia a seguir havia entrevistas. Era assim que descobriam. Fomos verdadeiros embaixadores”.

A Argélia entrou para a FIFA a 1 de janeiro de 1964 e 18 anos depois conseguiu o primeiro apuramento para a fase final de um Mundial. O selecionador era… Rachid Mekhloufi.


Publicado a 1 de fevereiro, 2017 em É Desporto.

(...)

Neste dossier:

60 anos de independência da Argélia

Decorridos mais de 130 anos de colonização francesa, e após uma longa guerra de libertação, a Argélia conquistou a independência a 5 de julho de 1962. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

A Organização Armada Secreta francesa e a sua ligação a Portugal

Criada em 11 de fevereiro de 1961 em Madrid, na Espanha franquista, a OAS constituiu o braço armado clandestino e sanguinário dos ultras da "Argélia Francesa". Alguns dos seus membros estabeleceram-se em Portugal durante o Estado Novo e tornaram-se pontas de lança da política colonial portuguesa. Por Mariana Carneiro.

Resistências à Guerra da Argélia

Resistências diversas no seu formato, desde a participação em manifestações ao compromisso com os argelinos, da legalidade à ilegalidade, e nas reivindicações apresentadas (pela paz na Argélia ou pelo direito da Argélia à independência). Por Nils Andersson.

Benjamin Stora: "A Guerra da Argélia não eclodiu misteriosamente após décadas de convívio"

Em entrevista, datada de 2019, à revista francesa L’Obs, o historiador Benjamin Stora afirma que não vamos compreender este conflito de oito anos se não olharmos para o século XIX, e aponta que França continua a omitir a história da ocupação e colonização da Argélia.

A guerra de independência da Argélia

No dia 5 de Julho de 2022, a Argélia celebra o 60º aniversário de independência, que obteve após uma longa guerra de libertação contra o colonizador francês, que conquistou a Argélia em 1830, então colónia do império otomano, e com uma decisão histórica do general Charles de Gaulle, o então presidente da França. Por Toufik Hadjadji.

 

Krivine: “Boa parte da extrema-esquerda teve origem no apoio à revolução argelina”

Neste artigo, de 2004, Alain Krivine fala sobre a posição do Partido Comunista Francês em relação à revolução argelina e defende que o apoio a esta causa está na origem da formação dos “quadros” de 1968 e da “nova extrema esquerda”.

Frantz Fanon: “A guerra da Argélia e a libertação dos homens”

A Argélia, ponta de lança do colonialismo ocidental em África, tornou-se rapidamente o vespeiro onde caiu o imperialismo francês e onde se desmoronaram as esperanças insensatas dos opressores ocidentais. Artigo publicado em novembro de 1958 por Franz Fannon.

A FNLA e a independência da Argélia

A Revolução Argelina deve ser celebrada por todos os que lutam pela autodeterminação e soberania dos povos. O grito de rebeldia de 1 de novembro de 1954 foi um grito de todos os explorados. Por Fabetz.

A revolução argelina mudou o mundo para melhor

A Argélia tornou-se uma nação independente a 5 de julho em 1961. A luta argelina pela libertação do imperialismo francês foi absolutamente central para a paisagem política do século XX. Hoje devemos lembrar a sua história e honrar o seu legado. Por Robert Masey.

Argélia. Fuga para a independência

Independência de França só chegou a 5 de julho de 1962. Quatro anos antes, tinha sido criado o Onze da Independência: jogadores de origem argelina que atuavam em França e abdicaram das carreiras para formar a equipa da Frente de Libertação Nacional e defender a Argélia dentro de campos de futebol espalhados pelo mundo. Por Rui Pedro Silva.

Violência banal na Argélia colonial

Trata-se, com esta história de internamento na Argélia durante o período colonial, de deslocar o olhar centrado na história política da França para a da colonização. Por Sylvie Thénault.

Face à guerra da Argélia, artistas insurgentes

Pequenas constelações de artistas lúcidos denunciavam os massacres de civis, as torturas, todos os desastres da guerra colonial. Por Nils Andersson.