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A Organização Armada Secreta francesa e a sua ligação a Portugal

Criada em 11 de fevereiro de 1961 em Madrid, na Espanha franquista, a OAS constituiu o braço armado clandestino e sanguinário dos ultras da "Argélia Francesa". Alguns dos seus membros estabeleceram-se em Portugal durante o Estado Novo e tornaram-se pontas de lança da política colonial portuguesa. Por Mariana Carneiro.
Foto publicada na página de facebook Organisation de l'Armée Secrète.

A Organisation Armée Secrète (OAS) foi uma organização paramilitar clandestina francesa que se opunha à independência da Argélia. A base de apoio da organização de extrema-direita incluía sobretudo os pieds noirsi, mas abrangia ainda militares franceses e os argelinos leais à França. São imputadas à OAS inúmeras ações terroristas tanto na antiga colónia francesa como na França metropolitana.

A criação da OAS

A 16 de setembro de 1959, numa declaração transmitida pela televisão, Charles de Gaulle mencionou, pela primeira vez, o "direito dos argelinos à autodeterminação". Quatro meses mais tarde, o descontentamento dos opositores à independência da Argélia ganhou nova expressão com a destituição do general Jacques Massu e a sua transferência para a França metropolitana. Proeminentes membros do movimento dos pieds noirs, como Pierre Lagaillarde, deputado por Argel e ex-paraquedista, e Joseph Ortiz, fundador, em 1958, da Frente nacional Francesa, instigaram revoltas em Argel. Entre 24 de janeiro a 1 de fevereiro foram levantadas barricadas e registaram-se inúmeros confrontos, que resultaram em várias mortes entre a multidão e as forças policiais. Os eventos ficaram conhecidos como a “Semana das Barricadas”.

Pierre Lagaillarde e Joseph Ortiz, entre outros, foram presos e julgados por um tribunal militar na França metropolitana. Libertados provisoriamente durante o julgamento, fugiram para Madrid. A Espanha franquista também serviu de refúgio para Jean-Jacques Susini, Presidente da Associação de Estudantes da Argélia, o general Raoul Albin Louis Salan e outros militares e civis franceses pertencentes a organizações de extrema-direita.

Os acontecimentos de 11 de dezembro de 1960 foram decisivos para o surgimento da OAS. Durante a viagem de Charles de Gaulle à Argélia, os europeus desencadearam uma série de manifestações violentas, exigindo uma “Argélia Francesa”. Simultaneamente, foram promovidas contra-manifestações em massa com o slogan “Argélia Argelina”. Este terá sido um dia decisivo na História da Argéliaii. A extrema-direita, apercebendo-se de que podia capitalizar o descontentamento face ao governo de Paris e à iminente independência da Argélia, aproveitou a conjuntura para reagrupar as suas hostes e fortalecer-se. Foi neste contexto que surgiu a OAS, fundada em Madrid, a 11 de fevereiro de 1961, e que contou com outras duas ramificações: a OAS Argel e a OAS Metropolitana, bem como os apoios da extrema-direita belga, como retaguarda, no norte (Tíscar: 2021). O general Salan foi nomeado comandante-em-chefe da OAS, com todos os poderes.

Atividade da OAS no contexto da Guerra da Argélia

Segundo estimativas da historiografia francesa, a OAS, que reuniu cerca de mil ativistas, matou pelo menos 2.200 pessoas na Argélia em quase 13 mil explosões, 2.546 ataques individuais e 510 ataques coletivos. Na França continental, o número total de vítimas é estimado em 71 mortos e 394 feridos.

O assassinato, em 31 de março de 1961, de Camille Blanc, autarca de Evian, onde estavam previstas negociações entre o governo e a Frente de Libertação Nacional (FLN), foi atribuído à OAS. No mês seguinte, na noite de 21 para 22 de abril, os generais Salan, Maurice Challe, Edmond Jouhaud e André Zeller tentaram sublevar os militares estacionados na Argélia e os pieds-noirs, num esforço desesperado no sentido de não permitir a desvinculação da Argélia. Mas o golpe militar foi um fracasso.

A organização foi também responsável pelo assassinato, em 31 de maio de 1961, do comissário-chefe de Argel Roger Gavoury. A par dos assassinatos de personalidades, em particular comunistas, a OAS organizou "noites azuis", com centenas de explosões. Roger Degueldre fundou os comandos Delta, que semearam o terror na Argélia e em França a partir de junho de 1961. Em 15 de março de 1962, a OAS matou seis líderes de centros socioeducativos, incluindo o escritor Mouloud Feraoun.

Na sequência da assinatura, a 18 de março de 1962, dos acordos de Evian sobre a independência da Argélia, o general Salan lançou uma "guerra total", marcada por combates sangrentos entre o exército e a OAS no distrito de Bab-el-Oued, em Argel. Em 26 de março, o tiroteio na rue d'Isly provocou 46 a 61 mortos nas fileiras dos europeus. Em março-abril de 1962, a prisão dos seus líderes decapitou a OAS, mas os últimos extremistas redobraram a sua violência. Salan foi condenado à prisão perpétua e posteriormente amnistiado pelo general de Gaulle, juntamente com os outros líderes da OAS, em 1968.

A OAS seguiu uma política de "terra queimada", arrasando várias infraestruturas na Argélia. Os últimos operacionais da organização deixaram a Argélia no início de julho, nas vésperas da independência, no entanto, a OAS ainda protagonizou dois atentados contra o general de Gaulle. O coronel Bastien-Thiry, que instigou o atentado de Petit-Clamart, de 22 de agosto de 1962, foi fuzilado em 11 de março de 1963. Susini, responsável pelo ataque de 28 de agosto de 1964 em Toulon, foi condenado à morte à revelia e indultado na amnistia de 1968.

A vocação mundial da OAS e o seu papel em Portugal

O coronel Antoine Argoudiii, oficial francês especialista em ações de contra-revolução, que se tornaria uma figura proeminente da OAS e, posteriormente, consultor do Exército Português, foi claro na exortação que fez ao general Salan, no sentido da criação “de um organismo superior que se deve ocupar do conjunto dos problemas argelinos, metropolitanos e internacionais”, a sediar-se em Madrid, “que no contexto internacional é a única capital possível”. No apelo de Argoud aos franceses, a vocação mundial da OAS é explícita: “O mundo atual é dominado pela luta entre o comunismo internacional e o Ocidente capitalista. Esta luta, guerra moderna de religiões, reveste um carácter total e irremessível. A guerra da Argélia é um dos episódios essenciais desta luta” (Jesus: 2012).

No início da ação da OAS, não são encontradas grandes referências a Portugal. Ainda assim, José Duarte de Jesus cita Susini, que afirmou que o general Salan “acabou por desistir de Portugal [para efeitos de estabelecimento da sede da OAS] apesar de nos assegurarem o bom acolhimento” (Jesus: 2012).

Após o falhanço do golpe militar em Argel, elementos da OAS dispersaram-se por vários países, entre os quais Portugal (Gorce: 1964). Em 1962, Guérin-Séraciv, oficial do exército da França que combateu na Guerra da Indochina, da Coreia e da Argélia, membro fundador da OAS em território francês, abandonou o comando do 3º Comando da 11ª Semi-Brigada da Tropa de Choque de Paraquedistas, a unidade encarregue dos ‘golpes sujos’ sob as ordens do SDECE, e procurou refúgio em Lisboa. “Os outros depuseram as armas, mas eu não. Depois da OAS, fugi para Portugal para continuar a luta e expandi-la à sua verdadeira escala – ou seja, a escala planetária” (Paris Match, novembro de 1974)v. O membro da OAS conseguiu uma colaboração com a Legião Portuguesa, organizando cursos de sabotagem, espionagem e ações terroristas, e foi ativamente apoiado por Ploncard d’Assac, discípulo de Charles-Marie-Photius Maurrasvi, que manteve uma extensa troca de correspondência com Salazar, sendo autor de uma biografia do ditador portuguêsvii. O historiador suíço, especialista em relações internacionais contemporâneas, Daniele Ganser, indica que Guérin-Sérac deu também instrução às unidades de contra-guerrilha do exército portuguêsviii.

Em 1962, a imprensa francesa, como é o caso do Minute, noticiava que Jacques Soustelleix, então dirigente da OAS, tinha estabelecido o seu quartel militar em Lisboa. O Daily Telegraph dava conta disso mesmo, assinalando que nove membros da OAS foram aí formados e que Soustelle recebeu a visita de Argoud em Portugal (Jesus: 2012). Segundo noticiou o jornal L’Aurore aquando do atentado de 22 de agosto de 1962 contra Charles de Gaulle, que ficou conhecido como atentado de Petit-Clamart, citado por José Duarte de Jesusx, pelo menos dois dos comandos que estiveram envolvidos no ataque foram treinados em Portugal:

“Desde há três meses que, com efeito, nove comandos suicidas da OAS treinam em Portugal. Pelo menos dois desses comandos manifestaram-se ontem à noite. Os seus membros, em geral, criminosos de direito comum condenados à morte ou legionários desertores. Um comando constitui-se, normalmente, de seis homens escolhidos a dedo, três motoristas, dois especialistas em armas automáticas, um especialista em explosivos. Circulam clandestinamente em França, na posse de bilhetes de identidade ou passaportes falsos”.

Ainda que Portugal não tenha tido, de forma alguma, o papel assumido por Espanha no que concerne à formação da OAS e à preparação do golpe militar de abril de 1961 em Argel, a verdade é que vários elementos da OAS foram-se estabelecendo no país e engrossando as fileiras da extrema-direita. Ainda que procurando não pôr definitivamente em causa as relações com a França gaulista, o regime do Estado Novo soube capitalizar estes operacionais, utilizando-os, em diversas ocasiões, e, por vezes, em ligação com os próprios serviços secretos franceses, como pontas de lança da política colonial português.

A criação da OT-OACI

Em outubro de 1926 tinha sido criada, na Suíça, a Ordre e Tradition (OT), que pretendia operar como uma espécie de Internacional Fascista. A organização tinha como objetivo combater “as forças do Mal”, “quer dizer o comunismo internacional, e seus satélites conhecidos e desconhecidos”xi. Os três pontos do programa de ação da OT estavam bem identificados: propaganda, informação e ação armada. Em meados dos anos sessenta, a OT já possuía ramificações em Portugal. Exemplo disso eram as estruturas Jovem Portugal ou a Ordem Nova.

Com o estabelecimento no país de vários elementos que integraram a OAS, foi criada uma estrutura militar paralela à OT, denominada Organização Armada contra o Comunismo Internacional (OACI). Em conjunto com intelectuais da extrema-direita francesa, os ex-OAS passaram a utilizar as siglas OT-OACI. María José Tíscar assinala que terá sido Guérin-Sérac, Guido Giannettini, jornalista italiano que trabalhava para as informações da rede Gladioxii e o antigo oficial das SS refugiado em Espanha, Otto Skorzeny, a avançar com a ideia da criação da OT-OACI. A estrutura tinha três pilares geográficos essenciais - Portugal, Itália e Espanha -, e foi multiplicando ligações com outros grupos de extrema-direita, por forma a ter capacidade para intervir em qualquer lugar do globo terrestre. Na sua estrutura, a OACI reunia ex-militares com experiência em guerras coloniais, agentes de informação e intelectuais com influência em meios jornalísticos e académicos.

Lisboa foi palco, em janeiro e maio de 1967, sob o guarda-chuva da OT-OACI, de reuniões com carácter internacional. O encontro de janeiro de 1967 contou com a presença de elementos vindos de Espanha, França, Suíça, Alemanha Federal, Suécia, Argentina e Paraguai. Meses depois, entre 29 e 31 de maio de 1967, realizou-se uma segunda reunião internacional com Pino Rauti, dirigente da organização de extrema-direita italiana Ordine Nuovo (Ordem Nova), que mais tarde ajudou os operacionais e dirigentes do Exército de Libertação de Portugal (ELP) exilados em Madrid.

Aginter Presse: uma agência de imprensa de “fachada”

A criação da Aginter Presse, com sede no bairro da Lapa, em Lisboa, data de setembro de 1966, ainda que a sua constituição legal só tenha sido consumada a 18 de abril de 1970. Tal como aconteceu com a OT-OACI, a agência de imprensa teve como fundadores membros da OAS. O seu núcleo duro contava ainda com elementos norte-americanos associados à Liga Mundial Anticomunista, como Jay Salby, ex-funcionário da CIA que esteve ligado ao falhado desembarque em Cuba, na Baía dos Porcos (Tíscar: 2021). Daniele Ganser refere ainda a participação de Stefano Delle Chiaie, citando o terrorista de extrema-direita: “Agíamos contra os comunistas, contra a burguesia estabelecida e contra a democracia que nos tinha privado da nossa liberdade. Fomos portanto forçados a recorrer à violência”xiii.

De acordo com María José Tíscarxiv, a “Aginter Presse foi uma das coberturas que organizações europeias de extrema-direita usaram para criar redes de espionagem por conta dos serviços secretos ocidentais. Estabeleceram acordos de colaboração e operações da ‘estratégia de tensão’ para levar ao colapso os alicerces de governos de esquerda em qualquer lugar do mundo”.

“No decurso desse período, estabelecemos contactos sistemáticos com grupos de ideias próximas das nossas que surgiram na Itália, na Bélgica, na Alemanha, em Espanha e em Portugal, na ótica de construir um núcleo de uma verdadeira Liga Ocidental de Luta contra o Marxismo”, explicava o próprio Guérin-Sérac, citado pelo escritor e historiador britânico Stuart Christiexv.

Em 1990, João Paulo Guerra escreveu um artigo para o semanário O Jornal no qual identifica a Aginter Presse como um ramo da “rede clandestina montada no seio da NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e financiada pela CIA, a Gladio, cuja existência foi denunciada no Parlamento italiano por Giullio Andreotti”. O jornalista realça ainda as suas relações com o Grupo Paladino, de Otto Skorzeny, vinculado à Liga Mundial Anticomunista, e com a rede La Rosa Dei Venti - Giunta Executiva Riscossa Sociale Italiana (A Rosa dos Ventos - Conselho Executivo de Salvação Social Italiana), do general de Lorenzo. Neste trabalho, João Paulo Guerra assinala que, de acordo com Frederic Laurent e Nicolle Sutton, autores do livro Dirty Work: The CIA in África, a Aginter Presse esteve envolvida, em fevereiro de 1969, e pela mão de Robert Leroy, no assassinato de Eduardo Mondlane, então presidente da FRELIMO. E deixa também no ar a possibilidade de a Aginter Presse ter estado igualmente associada ao assassinato do general Humberto Delgadoxvi.

Daniele Ganser confirma esta versãoxvii: “’Aginter Press', conclui o relatório italiano sobre a Gladio, 'na realidade, segundo os últimos documentos adquiridos pela investigação criminal, era um centro de informação diretamente ligado à CIA e ao serviço secreto português, especializado em operações de provocação'”. O historiador suíço também fala sobre o assassinato de Humberto Delgado, assinalando que o ‘General sem Medo’ foi assassinado em 1965 por um agente da PIDE “preparado pela Gladio, sob o comando de Rosa Casaco”. Na mesma obra escreve que, “entre as personalidades mais importantes que foram vítimas dos assassinatos orquestrados pela Aginter em Portugal e nas colónias, figuram sem dúvida Humberto Delgado, líder da oposição portuguesa, Amílcar Cabral, uma das figuras emblemáticas da revolução africana, e Eduardo Mondlane, líder e presidente do partido de libertação de Moçambique, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), que foi morto em Fevereiro de 1969”xviii.

O envolvimento da Aginter Press na morte de Mondlane consta de um documento do Servizio Informazione Difesa (SID) citado por Dalila Cabrita Mateus em A PIDE/DGS na Guerra Colonial (1961-1974). O serviço secreto italiano atribui a coautoria do crime à PIDE, a Uria Simango, vice-presidente da FRELIMO; a Jorge Jardim; e à Aginter Pressexix.

Stuart Christiexx, por sua vez, cita um relatório do SDCI - Serviço Diretor e Coordenador de Informação (Conselho da Revolução) português, em que é referido que a Aginter Press previa “Um escritório de espionagem dirigido pela polícia secreta portuguesa e, através dela, a CIA, o BND da Alemanha Ocidental ou ‘Organização Gehlen’, a Dirección General de Seguridad (DGS) espanhola, o BOSS da África do Sul e, mais tarde, o KYP grego; Um centro de recrutamento e treinamento de mercenários e terroristas especializado em sabotagem e assassinatos; Um centro estratégico para operações de doutrinação política neofascista e de direita na África subsaariana, América do Sul e Europa em conjunto com vários regimes subfascistas, figuras de direita conhecidas e grupos neofascistas internacionalmente ativos; Uma organização fascista internacional chamada ‘Ordem e Tradição’ com uma ala paramilitar clandestina chamada OACI, Organisation Armee contre le Communisme International”.

A Aginter Presse encontrou eco em Portugal para a sua voz no programa Voz do Ocidente, emitido pela Emissora Nacional de Rádio Difusão a partir de 1962 e que contava com a locução de Maria da Paz de Barros Santos. Com a entrada para a emissão francesa de Ploncard d’Assac, que se dedicava a ler os seus editoriais, depois reunidos e publicados em forma de brochuras ou pequenos livros, a emissão tornou-se “a antena portuguesa do movimento fascista europeu”xxi. A Aginter encontrou também respaldo noutras emissoras de rádio, bem como nas páginas do jornal Agora, dirigido por José O’Neil, e de A Vanguarda.

A atividade dos ex-operacionais da OAS no xadrez africano

Portugal tinha conseguido assegurar a sua presença nas então colónias africanas, apesar de todas as condenações das Nações Unidas e a pressão exercida pela Organização para a Unidade Africana (OUA). E, para esse efeito, passou a contar também com a atuação dos antigos operacionais da OAS, sob cobertura da Aginter Presse.

Exemplo disso são as operações orquestradas por Moïse Kapenda Tshombé e a PIDE para afastar Joseph-Désiré Mobutu no Congo-Léopoldville, ou a tentativa de derrube dos presidentes do Congo-Brazzaville Alphonse Massamba-Débat e Marien Ngouabi. Os mercenários da OAS também participaram de tentativas de golpe para derrubar Sekou Touré na Guiné-Conacri e na guerra do Biafra, a favor da secessão dos Igbos.

Entre as operações que contaram com o envolvimento de operacionais da OAS destaca-se, por exemplo, a Operação Barbarossa. Concebida alguns meses antes de abril de 1965, teve como objetivo a exfiltração do Ministro da Defesa da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), Alexandre Taty, para que este provocasse um golpe no interior do Governo da República de Angola no Exílio (GRAE), levando ao derrube de Holden Roberto (Jesus: 2012)xxii.

Já em 19 de junho de 1966, teve lugar uma reunião na sede da PIDE em Lisboa, no âmbito da Operação Tshombé, para depor Mobutu “e repor os colaboradores da França, Portugal e Espanha em Kinshasa, que contava com financiamentos multi-nacionais, e apoio dos serviços franceses”. A partir daí, “as operações de desestabilização de governos africanos suceder-se-ão de maneira ininterrupta até 25 de Abril de 1974” (Tíscar: 2021).

A 1 de novembro de 1966, a relação entre o Estado Novo e os operacionais da OAS oficializa-se, com a celebração de um contrato de seis meses com a Aginter Presse, prorrogado um ano mais tarde, por períodos anuais. Os territórios abrangidos pela Operação Zona Leste, criada no âmbito deste contrato, incluíam o Senegal, a Guiné-Conacri, a República Democrática do Congo, a República Popular do Congo, a Zâmbia e a Tanzânia. José Duarte de Jesus afirma que toda a operação, em valores atuais, rondaria um montante total de 1 milhão de euros por anoxxiii e que, segundo um relatório do tribunal civil penal de Milano, a Aginter Presse teria financiamentos de “outros Governos europeus, entre os quais a CIA e a rede Gehlen” (Jesus: 2018). De acordo com a documentação da PIDE e da Defesa Nacional, a Operação Zona Leste findou formalmente a 3 de novembro de 1969 (Jesus: 2012).

Ainda na década de 1960, elementos da OAS estiveram envolvidos na Operação Lúcifer para, mais uma vez, tentar afastar Mobutu, e no Plano COST, com vista a derrubar o governo de Massamba-Débat no Congo-Brazzaville. A participação dos operacionais de extrema-direita na questão da Guerra do Biafra terá sido bastante menos significativa: a Aginter Presse “terá sido, se tanto, um ator discreto nesta operação, particularmente no que toca à gestão de mercenários assumida pelo major Alister Wick, com a ajuda de alguns dos seus elementos da OAS” (Jesus: 2012). Já a Operação Kobe, para assaltar o poder no Congo-Brazzaville foi, de acordo com José Duarte de Jesus, totalmente organizada pela Aginter Pressexxiv.

Do currículo dos comandos da OAS constam também a Operação Tornado, delineada para derrubar Massamba-Débat, por forma a reconduzir ao poder o abade Abbé Fulbert Youlou, e que envolveu a Frente de Resistência e Libertação do Congo-Brazzaville, dirigida pelo antigo chefe da polícia francesa Maurice Bat. Bem como a Operação Chèvre, na Guiné-Conacri.

Findado o contrato com o Estado português, os operacionais da Aginter Presse colocaram-se à disposição de outros países europeus. Em 1970, só permaneciam em Lisboa escassos elementos, que passaram a atuar essencialmente em Itália e em Espanha. Ainda assim, a Aginter Presse manteve alguma estrutura em Portugal criando, a 5 outubro desse ano, uma sociedade, a Banque Photo-Publicité d’Aginter, que tinha como fim declarado a execução de trabalhos fotográficos e topográficos. Os seus titulares eram Jean Denis Reingeard de la Blétiêre, Jean-Joseph Guillou, Yves Guérin-Sérac e António Fernando Franco Malheiro.

Segundo noticiava publicação Le Référentiel, citada por Tíscar, documentos que constavam do arquivo da Aginter Presse faziam menção a duas operações que estariam a ser preparadas pouco antes do 25 de Abril: um rapto num café de Lisboa e um assassinato em Vila Franca de Xira.

A OAS na contrarrevolução portuguesa

No pós-25 de Abril, Guérin-Sérac e outros antigos membros da OAS estabeleceram-se em Espanha, a partir de onde serviram de apoio à contrarrevolução portuguesa, nomeadamente colaborando na formação do Exército Libertação de Portugal (ELP), do qual Guérin-Sérac era diretor de operações, e da Frente de Libertação dos Açores (FLA) e Exército de Libertação dos Açores (ELA). Estas duas últimas organizações contaram especificamente com a participação de Jean Denis Reingeard de la Blétiêre e um seu irmão.

Sobre a atuação do ELP em Portugal, nomeadamente durante o Verão Quente, vale a pena citar excertos de uma das “bíblias” da Aginter Presse, um texto, intitulado “La nostra azione política”. As semelhanças com os procedimentos do ELP parecem incontestáveisxxv:

“Pensamos que a primeira parte da nossa acção política deve ser o favorecimento da instalação do caos em todas as estruturas do regime. A partir daí, devemos reentrar em acção no quadro do exército, da magistratura, da Igreja, para actuar sobre a opinião pública, indicar uma solução, mostrar a ausência e a incapacidade do aparelho legal constituído e aparecer como os únicos que podem fornecer uma solução social política e económica adequada ao momento […] A primeira fase é, portanto, esta: infiltração, informação e pressão dos nossos núcleos vitais do Estado”.

Mais uma vez, Guérin-Sérac teve no ELP um papel de destaque, contribuindo para desenvolver as várias vertentes da ‘estratégia de tensão’ em Portugal. Conforme assumiu Alpoim Galvão numa entrevista a José Duarte de Jesus em 2012, o próprio documento da “Matança da Páscoa” terá sido elaborado em Madrid por responsáveis da Aginter Presse.

María José Tíscar escreveu ainda que, em 1975, “a Aginter Presse em conjunto com o ELP teria recrutado uma centena de exilados cubanos para uma força que pretendia intervir em Portugal”. Na mesma obra, Tíscar acrescenta que os oficiais da Secção de Apoio da Junta de Salvação nacional, “conseguiram obter a identificação de duas embarcações que transportariam armas para descarregar no porto galego de Vigo, onde constava existir já um importante depósito de armamento, com as quais se tencionava preparar uma incursão pelo norte de Portugal no dia 1 de Dezembro de 1975 e que foi anulada por entretanto ter ocorrido o 25 de Novembro”.

Finda a sua atividade em Portugal, os operacionais da OAS mantiveram-se ocupados: colaboraram com os serviços secretos espanhóis, para procurar e eliminar os dirigentes do movimento separatista basco ETA (Ganser: 2005); foram para a Venezuela com o grupo dos serviços secretos franceses liderado por Jacques Foccart; executaram uma série de atentados sangrentos em Itália a fim de desacreditar os comunistas italianos; na Argélia, organizaram uma série de atentados com a assinatura SOA, a fim de comprometer os Soldados da Oposição Argelina; ou escolheram o Chile como nova base para as suas operações.

Na sequência da sua colaboração com o Estado Novo e com as forças contra-revolucionárias do pós 25 de Abril, os operacionais da OAS deixaram um rasto de sangue em Portugal e em vários países africanos, com a cumplicidade de inúmeras personalidades bem conhecidas da praça pública portuguesa.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E OUTRAS FONTES

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Williams, Paul L. (2015). Operation Gladio: The Unholy Alliance Between the Vatican, the CIA, and the Mafia. Prometheus Books. ISBN: 9781616149741.


NOTAS:

iPieds Noirs é um termo utilizado para fazer referência aos cidadãos franceses, e outros de ascendência europeia, que viveram no Norte da África francesa, nomeadamente a Argélia francesa.

iiSobre estes acontecimentos, e a história da OAS, recomendamos a leitura de obras como Voyage au coeur de l’OAS, de Olivier Dard, ou História da OAS na Argélia, de Paul-Marie de Gorce.

iiiAntoine Argoud foi um oficial do Exército francês especializado em contra-insurgência durante a Guerra da Independência da Argélia. A oposição de Argoud à independência argelina da França resultou na sua adesão à OAS. Argoud foi duas vezes julgado e condenado (o primeiro à revelia) por tentar assassinar o presidente francês Charles de Gaulle. Após o segundo julgamento, Argoud foi condenado à prisão perpétua, mas libertado como parte de uma amnistia geral em 1968. Após a sua libertação, passou a viver em Portugal como consultor do Exército Português. Voltou para a França em 1974.

ivYves Guérin-Sérac foi um ativista católico anticomunista francês, ex-oficial do exército da França e veterano da Primeira Guerra da Indochina (1945-54), da Guerra da Coreia (1950-53) e da Guerra da Independência da Argélia (1954-62). Também foi membro da tropa de elite 11ème Demi-Brigade Parachutiste du Choc, a qual trabalhou com a SDECE (agência de inteligência francesa), e foi membro-fundador do grupo terrorista de extrema direita OAS (Organisation armée secrète), engajado na luta pela "Argélia Francesa". Foi fundador e dirigente da OT-OACI (Ordre et Tradition – Organization Armée contre le Communisme International) e da Aginter Presse. Foi identificado, nos anos de 1990, como um dos principais inspiradores da estratégia de tensão italiana e como o principal organizador do atentado da Piazza Fontana em 1969. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Yves_Gu%C3%A9rin-S%C3%A9rac

vCitação retirada da obra de Stuart Christie Stefano Delle Chiaie - Portrait of a ‘black’ terrorist. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/stuart-christie-stefano-delle-chiaie#toc11

viCharles-Marie-Photius Maurras (1868-1952) foi um poeta monárquico francês, jornalista, dirigente e principal fundador do jornal nacionalista e germanófobo Action Française e teórico do nacionalismo integral. Maurras foi condenado a prisão perpétua em Janeiro de 1945. Salazar reconheceu ter estudado as suas ideias, que acabaram por influenciar a sua formação política

viiSobre a relação entre Ploncard d’Assac e Salazar ler o capítulo 3 A “Voz do Ocidente”, páginas 261 a 271, da obra Desvignes, Ana Isabel Sardinha; Dard, Olivier (2019). Salazar em França: admiradores e discípulos (1930-1974). Edições 70. ISBN: 9789724421698.

viiiGanser, Daniele (2005). NATO's Secret Armies: Operation GLADIO and Terrorism in Western Europe. London: Frank Cass. ISBN 0-7146-8500-3. Disponível em: https://files.libcom.org/files/NATOs_secret_armies.pdf

ixJacques Soustelle, enquanto governador-geral da Argélia, ajudou na ascensão de Charles de Gaulle à presidência da V República, mas rompeu com De Gaulle por causa da independência da Argélia, juntando-se à OAS, Viveu no exílio entre 1961 e 1968. Ao regressar a França, retomou a atividade política e académica e foi eleito para a Académie française em 1983.

xJesus, José Duarte de (2012). A Guerra Secreta de Salazar em África. Edições Dom Quixote. ISBN: 9789722049351. Página 67.

xi Tíscar, María José (2021). A extrema-direita como solução extrema do imperialismo: A Aginter Presse em Portugal. Ensaio publicado em Setenta e Quatro. Disponível em: https://setentaequatro.pt/ensaio/extrema-direita-como-solucao-extrema-do-imperialismo-aginter-presse-em-portugal

xii Gladio era o ramo italiano de um exército secreto que tinha sido criado após a Segunda Guerra Mundial pela CIA e o Serviço Secreto Militar Italiano (SIFAR) como parte de uma rede internacional de resistência clandestina dentro dos países da NATO para enfrentar uma potencial ameaça de invasão soviética. Em caso de invasão, os exércitos que ‘stay-behind’ estabeleceriam um movimento de resistência e operariam atrás das linhas inimigas. Esses exércitos foram supervisionados e coordenados por dois centros secretos de guerra não convencional da NATO nomeados o Comité Clandestino Aliado (ACC) e o Comité de Planeamento Clandestino (CPC). Em outubro de 1990, o então presidente Giulio Andreotti foi finalmente forçado a revelar a existência da Gladio. A Itália criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito que reuniu inúmeras provas do envolvimento desta rede em inúmeras manobras típicas da estratégia de tensão, como atentados, assassinatos. Em Operation Gladio: The Unholy Alliance between the Vatican, the CIA, and the Mafia, o jornalista Paul L. Williams argumenta que a Operação Gladio deu origem ao derrube de governos, genocídios em massa, formação de esquadrões da morte, escândalos financeiros em grande escala, a criação dos mujahidin, uma rede internacional de narcóticos e, mais recentemente, a ascensão de Jorge Mario Bergoglio, um clérigo jesuíta com fortes laços com a Operação Condor (uma consequência de Gladio na Argentina) como Papa Francisco I.

xiii Ganser, Daniele. NATO's Secret Armies: Operation GLADIO and Terrorism in Western Europe. London: Frank Cass, 2005. ISBN 0-7146-8500-3.

xiv Tíscar, María José (2021). A extrema-direita como solução extrema do imperialismo: A Aginter Presse em Portugal. Ensaio publicado em Setenta e Quatro. Disponível em: https://setentaequatro.pt/ensaio/extrema-direita-como-solucao-extrema-do-imperialismo-aginter-presse-em-portugal

xv Christie, Stuart (1984). Stefano Delle Chiaie - Portrait of a ‘black’ terrorist. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/stuart-christie-stefano-delle-chiaie#toc11

xvi Guerra, João Paulo (1990). Gládio actuou em Portugal. Artigo publicado no semanário O Jornal, de 16 de Novembro de 1990, e reproduzido no blogue de João Paulo Guerra: https://especiedemocracia.blogspot.com/search?q=gladio

xvii Ganser, Daniele. NATO's Secret Armies: Operation GLADIO and Terrorism in Western Europe. London: Frank Cass, 2005. ISBN 0-7146-8500-3.

xviii Idem.

xix Mateus, Dalila Cabrita (2004). A PIDE/DGS na Guerra Colonial (1961-1974). 1.ª ed.,
Lisboa, Terramar. Páginas 171-173, 375-376

xx Christie, Stuart (1984). Stefano Delle Chiaie - Portrait of a ‘black’ terrorist. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/stuart-christie-stefano-delle-chiaie#toc11

xxi Professora Dr.ª Estrela Serrano, citada em Jesus, José Duarte de (2012). A Guerra Secreta de Salazar em África. Edições Dom Quixote. ISBN: 9789722049351, Página 63.

xxii Jesus, José Duarte de (2012). A Guerra Secreta de Salazar em África. Edições Dom Quixote. ISBN: 9789722049351. Página 166.

xxiii Jesus, José Duarte de (2018). Os ‘espiões’ da Aginterpress. Artigo da Revista Visão nº 45 Fevereiro 2018, dedicada ao tema “As guerras secretas de Portugal em África” – Intervenções em países vizinhos das colónias.

xxiv Idem. Página 151.

xxv Jesus, José Duarte de (2012). A Guerra Secreta de Salazar em África. Edições Dom Quixote. ISBN: 9789722049351. Página 203.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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Neste dossier:

60 anos de independência da Argélia

Decorridos mais de 130 anos de colonização francesa, e após uma longa guerra de libertação, a Argélia conquistou a independência a 5 de julho de 1962. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

A Organização Armada Secreta francesa e a sua ligação a Portugal

Criada em 11 de fevereiro de 1961 em Madrid, na Espanha franquista, a OAS constituiu o braço armado clandestino e sanguinário dos ultras da "Argélia Francesa". Alguns dos seus membros estabeleceram-se em Portugal durante o Estado Novo e tornaram-se pontas de lança da política colonial portuguesa. Por Mariana Carneiro.

Resistências à Guerra da Argélia

Resistências diversas no seu formato, desde a participação em manifestações ao compromisso com os argelinos, da legalidade à ilegalidade, e nas reivindicações apresentadas (pela paz na Argélia ou pelo direito da Argélia à independência). Por Nils Andersson.

Benjamin Stora: "A Guerra da Argélia não eclodiu misteriosamente após décadas de convívio"

Em entrevista, datada de 2019, à revista francesa L’Obs, o historiador Benjamin Stora afirma que não vamos compreender este conflito de oito anos se não olharmos para o século XIX, e aponta que França continua a omitir a história da ocupação e colonização da Argélia.

A guerra de independência da Argélia

No dia 5 de Julho de 2022, a Argélia celebra o 60º aniversário de independência, que obteve após uma longa guerra de libertação contra o colonizador francês, que conquistou a Argélia em 1830, então colónia do império otomano, e com uma decisão histórica do general Charles de Gaulle, o então presidente da França. Por Toufik Hadjadji.

 

Krivine: “Boa parte da extrema-esquerda teve origem no apoio à revolução argelina”

Neste artigo, de 2004, Alain Krivine fala sobre a posição do Partido Comunista Francês em relação à revolução argelina e defende que o apoio a esta causa está na origem da formação dos “quadros” de 1968 e da “nova extrema esquerda”.

Frantz Fanon: “A guerra da Argélia e a libertação dos homens”

A Argélia, ponta de lança do colonialismo ocidental em África, tornou-se rapidamente o vespeiro onde caiu o imperialismo francês e onde se desmoronaram as esperanças insensatas dos opressores ocidentais. Artigo publicado em novembro de 1958 por Franz Fannon.

A FNLA e a independência da Argélia

A Revolução Argelina deve ser celebrada por todos os que lutam pela autodeterminação e soberania dos povos. O grito de rebeldia de 1 de novembro de 1954 foi um grito de todos os explorados. Por Fabetz.

A revolução argelina mudou o mundo para melhor

A Argélia tornou-se uma nação independente a 5 de julho em 1961. A luta argelina pela libertação do imperialismo francês foi absolutamente central para a paisagem política do século XX. Hoje devemos lembrar a sua história e honrar o seu legado. Por Robert Masey.

Argélia. Fuga para a independência

Independência de França só chegou a 5 de julho de 1962. Quatro anos antes, tinha sido criado o Onze da Independência: jogadores de origem argelina que atuavam em França e abdicaram das carreiras para formar a equipa da Frente de Libertação Nacional e defender a Argélia dentro de campos de futebol espalhados pelo mundo. Por Rui Pedro Silva.

Violência banal na Argélia colonial

Trata-se, com esta história de internamento na Argélia durante o período colonial, de deslocar o olhar centrado na história política da França para a da colonização. Por Sylvie Thénault.

Face à guerra da Argélia, artistas insurgentes

Pequenas constelações de artistas lúcidos denunciavam os massacres de civis, as torturas, todos os desastres da guerra colonial. Por Nils Andersson.