Alain Krivine e a vontade de "começar um novo Maio de 68”

19 de março 2022 - 22:40

Nesta entrevista por ocasião dos 50 anos do Maio de 68, o dirigente da esquerda revolucionária francesa e um dos líderes estudantis da altura, falecido esta semana, falava da experiência e do balanço dessa revolta.

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Foto Patrice Leclerc/Phototheque.org

Alain Krivine foi um dos líderes do movimento de maio de 1968 na França. Na época tinha 27 anos e era um dos dirigentes da JCR (Juventude Comunista Revolucionária), organização formada dois anos antes por militantes excluídos do PCF (Partido Comunista Francês) e da União dos Estudantes Comunistas.

A radicalização de uma parte da juventude comunista, em torno de temas como a oposição à guerra da Argélia (ou seja, a oposição ao imperialismo de seu próprio país), a solidariedade à luta do povo vietnamita, e a crítica à burocratização do PCF, foi parte do processo de radicalização da juventude que desembocou em maio de 1968.

Alain Krivine (1941-2022)

12 de março 2022

Ainda como militante do PCF, Krivine tinha-se tornado militante da IV Internacional. A JCR tinha cerca de 300 militantes antes de maio, e teve um rápido crescimento a partir daí.

Pela sua atividade militante, Krivine foi preso em julho de 1968 e libertado alguns meses depois. Em 1969, foi um dos fundadores da Liga Comunista (que unificou os militantes da JCR com os militantes “adultos” da IV Internacional). A LC foi dissolvida em 1973 pelo Estado francês e recriada em 1974, com o nome de Liga Comunista Revolucionária.

A LCR foi por várias décadas uma das principais organizações da IV Internacional (e da extrema-esquerda em geral), e Krivine um dos seus principais dirigentes. Foi candidato a presidente da França por duas vezes (em 1969 e 1974); eleito deputado no Parlamento Europeu em 1999, exerceu seu mandato de 5 anos.

Em 2009, a LCR se autodissolveu para impulsionar a criação do Novo Partido Anticapitalista (NPA).

Krivine publicou uma autobiografia em 2006, à qual deu o título irónico de “Ça te passera avec l’âge”, que podemos traduzir por “Isso vai passar com a idade”. Para ele, “isso” – a convicção revolucionária, a dedicação da vida à militância comunista, o internacionalismo, a solidariedade a toda a humanidade, a confiança na construção de uma sociedade livre de toda exploração e opressão – não passou nunca.

No Congresso da IV Internacional de 2018, Krivine foi convidado a fazer o discurso de abertura, com o tema “50 anos de maio de 1968”. A seguir, apresentamos a entrevista com ele realizada nessa oportunidade. Entrevista realizada por Israel Dutra e João Machado.


Hoje em dia, há um debate não apenas na França, mas em todo o mundo, sobre a relevância e os impactos do Maio Francês na História. Por, fale-nos sobre o seu ponto de vista nesta questão.

Eu acredito que este acontecimento tenha deixado um legado mais do que positivo, uma vez que representa algo tão essencial que é uma enorme explosão social como conhecemos na França e na maioria dos países do mundo. Mesmo que na França e na Itália tenham sido exceções, pela ligação mais ou menos forte entre estudantes e trabalhadores, enquanto em outros lugares o que houve foi essencialmente uma explosão da juventude e dos estudantes. Este acontecimento em primeiro lugar mostrou que uma grande explosão social anticapitalista sempre é possível; em segundo lugar, quando ocorre uma explosão social e um movimento tão grande quanto esse (havia 10 milhões de grevistas com bandeiras vermelhas nas ruas da França), as pessoas se tornam, como dizia Trotsky, cotidianamente irreconhecíveis. Assim, essa revolução cultural, sexual e artística desafiou muitas coisas. Mesmo que muito dela não tenha durado e mesmo que todos os novos movimentos sociais que conhecemos hoje não tenham nascido em 68 (mas depois de 68 e graças a 68). Nós temos a ideia de que uma explosão social ainda é possível. Para mim, hoje, o anticapitalismo está mais forte. Eu creio que o título do artigo escrito pelo redator-chefe do Le Monde à época, semanas antes da eclosão da greve geral, “A França está entediada…”, diz que tudo é possível. Em todo caso, é necessário começar de novo um novo maio de 68, mas em outras condições e que desta vez ocorra em todas as frentes, o que não foi o caso daquela explosão.

Quanto ao início da rebelião, conte-nos um pouco dos fatores que concorreram para que aquele Maio se tornasse um capítulo incontornável do século XX. Como foram os antecedentes imediatos e as primeiras movimentações que culminariam num evento global?

Eu acho que começou com a soma de dois fenómenos diferentes: um fenómeno que dizia respeito à chegada de novos estudantes nas universidades da França e em todo o mundo; e outro fenómeno de questionamento da universidade burguesa, tal como ela existia com  os seus cursos tradicionais, algo que não era mais aceitável pela chegada de dezenas de milhares de novos estudantes – advindos não das camadas populares, mas das camadas médias – às universidades em todo do mundo, que não eram mais reservadas às camadas altas da sociedade. Portanto, um questionamento da universidade burguesa, um questionamento de sua composição. Além disso, houve uma politização enorme dos jovens na França e no mundo inteiro, dos jovens, mas não só dos jovens, por ocasião da guerra do Vietname e pela manifestação em Berlim em fevereiro de 68 junto com o líder socialista alemão – que posteriormente seria baleado – Rudi Dutschke. Tal facto na Alemanha, em fevereiro de 1968, iria nos servir de treino mais à frente quando foi convocada a greve geral, assim como aprendemos palavras de ordem que faziam Che Guevara ou Ho-Chi Minh mais aceitáveis e com mais entrada nas escolas.

Em relação ao impacto global desse acontecimento, os seus artigos sempre destacam que 1968 foi uma unidade de diferentes realidades e uma irrupção que atingiu diferentes países (México, Checoslováquia, Itália, EUA, Brasil, Tunísia, Argentina, etc.). Explique-nos um pouco mais esta sincronia.

Eu creio que houve revoltas da juventude na maior parte dos muitos países existentes na América Latina, nos Estados Unidos, na Checoslováquia e em outros países da Europa, cada um à sua maneira. As duas exceções foram a França e a Itália, onde houve uma forte coligação operário-estudantil. Eu creio que a explicação para essa explosão, especialmente na juventude estudantil, como eu já disse, é a chegada à universidade de novas camadas sociais e o questionamento da Universidade clássica. Há ainda a politização que estava ligada e que aumenta rapidamente com uma tomada de posição rápida e massiva contra a guerra do Vietname. E os dois elementos influenciaram a explosão da juventude no mundo inteiro, na França, como na Itália, na Espanha, ou em Portugal. Uma explosão enorme da juventude em todos estes países, mas mais vinculado ao movimento operário na França e na Itália.

Tratando especialmente da França, qual o papel que cumpriram neste processo o estalinismo e o Partido Comunista?

Eu creio que para o PC (Partido Comunista) e para a CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) foi o começo de uma crise, entretanto, não muito visível à época. Naquele momento, ambos ainda eram muito poderosos. O estalinismo tinha milhares de militantes e muitos cargos parlamentares, dirigiam o principal sindicato do país (CGT). Contudo, em certos setores operários, onde havia uma nova classe operária, a direção estalinista começou a ser questionada, embora este questionamento nunca tenha aparecido de forma massiva em 1968. Esse questionamento apareceria muitos anos mais tarde ou dezenas de anos mais tarde, mas àquela época resumia-se à sua oposição sindical, a quem chamavam de “gauchistes” [esquerdistas]. A atitude da CGT era ambígua, eles não convocaram uma greve geral, porém convocaram uma série de outras greves. Quando o Estado desapareceu por uma semana em que De Gaulle estava na Alemanha, foram os sindicalistas que garantiram a circulação. Na região de Provença, foram as intersindicais que levavam os alimentos aos comerciantes porque não havia mais alimentos. Então os sindicatos tiveram um papel, a depender do país e da região, às vezes de apoio, às vezes de condenação. Mas a direção nacional do Partido Comunista Francês e a direção da CGT ficaram muito aborrecidas com um movimento que não controlavam e que eles não queriam tomar a direção. E quando o problema do poder foi colocado, as pessoas e a classe operária confiavam a Alain Geismar, Jacques Sauvageot e Daniel Cohn-Bendit (que eram os três dirigentes mais conhecidos) para fazer as manifestações, mas não para governar e tomar o poder. E houve uma ofensiva, que foi mal sucedida, em 28 de maio, quando Pierre Mendès France e François Mitterrand se propuseram como candidatos. Houve então uma segunda ofensiva do General de Gaulle convocado a dissolução do parlamento e convocando novas eleições – que aconteceriam em junho e que ele ganharia já que nesse momento o PC aceitou prontamente as eleições. E nós elaborámos uma palavra de ordem que para a época era justa, naquele momento preciso, mas não globalmente, que era “Élections, pièges à cons [Eleições, ratoeiras para tolos]”, já que era uma forma de o Partido Comunista enterrar de forma eleitoral um movimento extraeleitoral.

Em 2018, também se celebram os 80 anos da fundação da IV Internacional. Como conclusão desta nossa conversa, gostaríamos de saber o envolvimento e a agência dos líderes juvenis e estudantis, vinculados ao trotskismo e à JCR, no desenvolvimento de Maio de 68. Fale-nos um pouco disso e da relação dos seus camaradas com a luta da classe operária.

Podemos dizer duas coisas. Em primeiro lugar, a Quarta Internacional ajudou-nos materialmente. Quando houve a greve no setor de combustível, foi a secção alemã, belga, italiana, que nos fornecia gasolina. E nós abastecíamos os carros graças à gasolina provinda dessas secções da Quarta Internacional. Isso pode parecer pouco, mas é uma ajuda enorme. Era preciso até mesmo se esconder para abastecer um carro com gasolina para que não a roubassem. Em segundo lugar, nós criamos, já que havíamos sido expulsos dois anos antes do Partido Comunista e dos Estudantes Comunistas, de uma forma um pouco arbitrária, com o trotskista belga Ernest Mandel, a Juventude Comunista Revolucionária. Ela reunia no início do movimento algo em torno de 600 pessoas, e talvez 900 pessoas ao final. Mas teve um papel decisivo no serviço de ordem. Isso quer dizer que em todas essas manifestações, havia todas as noites uma reunião de milhares de estudantes em Paris, em torno da estátua de Denfert-Rochereau, e lá haviam dois grupos que dirigiam: o de Cohn-Bendit e que dizia para onde a massa deveria ir, que era ele que decidia, e a JCR que estavam em baixo que levavam as pessoas aonde elas queriam ir. Nem um nem o outro eram democráticos, mas as assembleias gerais com milhares de pessoas não eram mais democráticas. Então, a Quarta Internacional e a JCR tiveram um papel importante, apesar do seu tamanho, mas no espaço de alguns dias. Eu dou um exemplo: quando Cohn-Bendit foi excluído, nós todos gritámos, dezenas de milhares, “nós somos todos judeus alemães”, nós nunca teríamos gritado isso antes, se tivéssemos gritado isso dois meses antes nas universidades as pessoas nos tomariam como loucos, porque elas não eram nem judias nem alemãs…


Entrevista de Israel Dutra e João Machado, publicada em junho de 2018 na revista Movimento.