Desigualdade

Administradores das grandes empresas ganham 32 vezes mais que os trabalhadores

29 de abril 2024 - 21:23

A campeã da desigualdade é a Jerónimo Martins com um fosso salarial em que o presidente executivo ganha 260 vezes mais do que os trabalhadores.

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Pedro Soares dos Santos, líder da Jerónimo Martins. Foto Tiago Petinga/Lusa
Pedro Soares dos Santos, líder da Jerónimo Martins. Foto Tiago Petinga/Lusa

No ano passado, os presidentes executivos de 14 das grandes empresas nacionais auferiram em média remunerações 32,3 vezes mais elevadas do que os trabalhadores. As contas referem-se às empresas do PSI, o Portuguese Stock Index, que junta as maiores empresas cotadas na Bolsa de Lisboa com mais de 1.000 milhões de euros de capitalização. E de fora ficam a EDP Renováveis, cujo CEO, Miguel Stilwell, é remunerado através da EDP, e a Ibersol que não disponibilizou ainda dados.

A informação é do jornal online Eco que explica que os CEO destas empresas receberam o ano passado em média 1,44 milhões de euros enquanto que aos cerca de 305 mil trabalhadores teria sido destinada uma média de 44.541 euros. Os aumentos do ano passado foram de 4,9% para os trabalhadores e de 4% para os presidentes executivos.

Contudo, o órgão de comunicação social adverte que “estes valores pecam por defeito”. Isto porque a dita “remuneração média dos trabalhadores” foi calculada através da divisão pelo número de trabalhadores do item “custos com pessoal” pelo que não se traduz em salário direto dos trabalhadores. Nos “custos com pessoal” estão incluídas igualmente as verbas transferidas para a Segurança Social e para o pagamento de impostos, bem como vários outros tipos de encargos. Já as remunerações dos CEO são os valores brutos que incluem salário fixo, remunerações variáveis, prémios e contribuições para complementos de reforma. Só que deixam ainda de fora uma componente importante do que aqueles ganham: a remuneração através de ações.

No ranking do fosso remuneratório, a Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, surge destacada. Pedro Soares dos Santos ganhou, em 2023, 4,9 milhões de euros numa empresa que “tem o segundo custo por trabalhador mais baixo do PSI (18.835 euros)”. Isto faz com o rácio da discrepância seja de 260 vezes a favor do gestor, um crescimento relativamente ao ano anterior no qual eram 232 vezes. O jornal online explica a diferença “pela forte presença em países com salários mais reduzidos (Polónia e Colômbia) e o retalho ser um setor com salários médios mais baixos”.

Muito abaixo, surge a Sonae com uma diferença de remunerações de 74,7 vezes, a Mota-Engil com 51,3 vezes, os CTT com 36, a Semapa com 34,8, a Navigator 34 e a EDP com 33,4. Abaixo da média encontram-se o BCP com 30,2, a NOS com 28,9, a Galp com 20,7, a Greenvolt com 15,1, a Altri com 12,2, a REN com 10,1 e a Corticeira Amorim 9.

A maior fatia das remunerações dos CEO dizia respeito às variáveis com 53,7% do total. Estas são calculadas de acordo com os lucros obtidos em anos anteriores. Em muits casos isto implica subidas: Pedro Soares dos Santos aumentou 31,7%, Miguel Stilwell ganhou acima dos dois milhões de euros e Cláudia Azevedo 8,5%. Noutros casos também há descidas como acontece com Miguel Maya do BCP cujos ganhos descem 23,2%, com Manso Neto da Greenvolt (-29,2%), com Filipe Silva da Galp Energia (-27,5%) António Rios de Amorim da Corticeira Amorim (-19,9%), José Soares de Pina da Altri (-16,1%) e Carlos Mota Santos da Mota-Engil (-9,8%).

Muitas destas empresas pagam ainda somas chorudas aos anteriores gestores a título de prémios de desempenho ou indemnizações. Por exemplo, António Mexia já saiu da EDP em 2020 mas o ano passado ainda ganhou 1,8 milhões de euros da empresa, Manso Neto ainda ganhou 600 mil euros da EDP apesar de já estar na Greenvolt.

Notem-se igualmente as remunerações elevadas das comissões executivas destas empresas que aumentaram em média 3%, um total de cerca de 57 milhões de euros. Neste aspeto também há diferenças com a subida de rendimentos destes órgãos a ser maior na Sonae (48%) e com a EDP a dar mais dinheiro aos seus membros mais de dez milhões de euros. Só em quatro delas houve variação negativa: BCP, Galp, Semapa e Greenvolt).

Finalmente, os administradores não executivos destas empresas ganharam, em 2023, 18,2 milhões de euros, um aumento de 21%.