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30% das mulheres sentem ter sido vítimas de abusos no parto, diz estudo

A maioria das mulheres relatou ter sido sujeita a intervenções desnecessárias e não consentidas. As mulheres sujeitas a cesarianas intraparto foram as que relataram experiências mais negativas.
30% das mulheres sentem ter sido vítimas de abusos no parto, diz estudo
Fotografia de Midwifery Today Int Midwife.

Três em cada 10 mulheres inquiridas num estudo da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP) sobre a experiência de parto em Portugal afirmaram ter sido vítima de abusos, desrespeito e discriminação. O exemplo de violência mais recorrente, de acordo com os relatos, são as intervenções não consentidas durante o trabalho de parto.

A APDMGP recolheu ao longo de um ano respostas para o inquérito “Experiências de Parto em Portugal”, focando-se nos dados relativos ao período compreendido entre 2015 e 2019.

Com o objetivo de continuar a dar voz a todas as mulheres que tiveram um parto em Portugal, desta feita, entre 2015 e...

Posted by Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto on Wednesday, 25 November 2020

O objetivo, explicou a associação à agência Lusa, foi o de “conhecer as experiências das mulheres em termos das características do parto e da satisfação pessoal com o mesmo, assim como eventuais situações de abuso ou desrespeito que possam ter sido vivenciadas no seu decorrer”.

No total, receberam 7.555 respostas válidas de mulheres que tiveram um ou mais filhos nesse período. Mais de metade da amostra tem entre 30 e 39 anos, seguida da faixa etária 20/29 anos. Dos 7.555 partos, 69% foram por via vaginal e 31% por cesariana, refere a APDMGP.

As principais conclusões do inquérito apontam que “quanto maior é o sentimento de controle das mulheres sobre a sua experiência de parto, maior a satisfação vivenciada”.

Apesar de a Organização Mundial de Saúde recomendar a liberdade de movimentos num parto normal para facilitar o processo de dilatação do canal vaginal, apenas 52,8% das inquiridas que tiveram um parto vaginal afirmam ter tido liberdade de movimentos.

“As inquiridas com uma cesariana intraparto foram as menos satisfeitas com a sua experiência e manifestaram sentir-se mais condicionadas ao expressar a sua opinião, menos envolvidas nas tomadas de decisão, menos apoiadas pela equipa, menos seguras, menos confiantes”, refere a associação em comunicado.

Segundo o inquérito, “cerca de 50,30% das mulheres que afirmaram já ter experienciado o parto tiveram um parto vaginal sem o recurso a fórceps ou a ventosa”, enquanto 28,50%” disse ter tido recurso a estes mecanismos.

No caso dos partos em contexto hospitalar, os hospitais públicos das grandes cidades foram os escolhidos pela maioria. Entre aquelas que optaram por partos domiciliares, 83,68% referiu que voltaria a escolher a instituição ou equipa que esteve presente no processo.

Cerca de 78% afirmam que o direito ao acompanhamento durante o parto foi, na sua maioria, respeitado. O parceiro (81,80%), o enfermeiro especialista (76,20%) e o obstetra (62,54%) foram as presenças mais assinaladas. Porém, a associação lembra que estes dados dizem respeito a 2015-2019 e que  “atualmente, em Portugal, isto não é uma realidade”.

A maioria das participantes indicou que o seu parto ideal é vaginal, sem dor, iniciado de forma espontânea e assistido por profissionais da sua escolha.

Cerca de 62% afirma que o seu parto não foi induzido, contra 37.6% que afirma que sim, mas “um número importante” diz não ter a certeza se o seu parto foi induzido ou não.

“A par do avanço da pandemia, vivemos uma verdadeira pandemia de abuso, desrespeito e violência contra as mulheres, com um aumento exponencial de violações dos direitos das mulheres, por todo o mundo”, alerta a associação.

Para a APDMGP, “mais do que nunca é importante assegurar que os direitos das mulheres e as recomendações da Organização Mundial da Saúde estão a ser respeitados”, sublinhando que “a violência contra mulheres é a violação mais generalizada dos direitos humanos em todo o mundo”.

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