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Associação alerta a DGS para uma "Pandemia de agendamento de partos"

A Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP) alerta para um agravamento da cultura de agendamento de partos, por causa da pandemia de Covid-19. DGS responde dizendo que não são indicações suas.
Mulher grávida. Fotografia por Marcos de Madariaga/Flickr.
Mulher grávida. Fotografia por Marcos de Madariaga/Flickr.

Em carta enviada à DGD, a Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP) alertou para a existência de relatos cada vez mais frequentes que de grávidas estarem a ser sujeitas a induções de parto sem indicação clínica. Noutras palavras, para a APDMGP, a cultura de agendamento de partos que já se verificava em muitos contextos, agravou-se durante a pandemia de COVID-19.

APDMGP refere a existência "inúmeras instituições de saúde que obrigam as grávidas a realizarem  o "teste do coronavírus às 39 semanas de gestação". Quando o resultado é negativo, a instituição propõe às grávidas "a indução do parto para o dia seguinte", sem que existam razões clínicas que justifiquem a antecipação do parto. Caso o teste seja positivo,  "são encaminhadas para outro hospital". No caso dos hospitais da Guarda, Vila Franca e Évora, as cesarianas “estão a ser agendadas de forma rotineira para as grávidas que testam positivo", informa a associação.

Esta medidas  não são benéficas nem protetoras "para as utentes, recém nascidos e profissionais de saúde", sendo uma prática que "não está isenta de riscos quer para mãe quer para o bebé, não se compreendendo, por isso, que tal procedimento esteja a ser aplicado de forma indiscriminada em tantas instituições de saúde", pode ler-se no comunicado.

"Do ponto de vista científico não há justificação nenhuma para se estar a provocar o parto mais cedo por causa da infeção" pelo coronavírus, afirmou o secretário-geral da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia, Diogo Ayres de Campos, à Lusa. Aliás, ao induzir o parto às 39 semanas "há um risco adicional",  já que torna os "partos mais prolongados, mais dolorosos e têm um risco acrescido em relação ao bebé", nomeadamente baixa oxigenação. Esta situação pode levar ao aumento das cesarianas, num país em que cerca de um terço dos partos ocorrem por cesariana e um dos 10 países da OCDE com taxa de cesarianas mais elevada.

O obstetra acrescenta que o Covid-19 não aparenta afetar muito a gravidez nem o recém nascido, "o que dá alguma tranquilidade", acrescentando que "Nós tentamos sempre evitar induzir o trabalho de parto se não houver um motivo e aqui claramente não é um motivo que o justifique".

A diretora-geral da Saúde Graça Freitas pronunciou-se sobre o caso, recusando a existência de recomendações da DGS nesse sentido para a pandemia, notando que a decisão de indução de parto ou cesariana deve ser articulada entre os clínicos e as mães.

Outra das polémicas relacionadas com o pós-parto e a pandemia, é a orientação da DGS em relação ao leite materno, que em situações de separação mãe-filho (por doença de Covid-19), este deve ser extraído através de bomba e desperdiçado. Sobre este tema, Graça Freitas, na mesma conferência de imprensa acrescentou que, “até à data, tudo indica que poderá ser utilizado, e que os seus benefícios serão superiores aos riscos eventuais de transmissão da infeção, que não está comprovada”. Mas isso não impede de serem  tomadas "algumas medidas, como ser retirado o leite e não dar através da mama ou, se a mãe o der, usar meios de proteção”.

Apesar das palavras da director-geral da DGS, esta norma ainda se mantém. Diogo Ayres de Campos, em entrevista ao Público, diz que "é urgente retirar essa alínea, porque há bebés que não estão a receber o leite e está a deitar-se fora e isso não faz sentido nenhum", pois esta norma está em clara oposição às indicações da Organização Mundial de Saúde, que indica que um recém-nascido pode receber leite materno desde que cumpra as regras sanitárias.

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