África

2025, o ano em que se enterra definitivamente a Françafrique?

04 de janeiro 2025 - 11:53

Senegal e Costa do Marfim anunciaram o fim da presença militar francesa no país, juntando-se a vários outros países como o Níger, o Burkina Faso, o Mali, o Gabão e o Chade em que o mesmo tem vindo a suceder.

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Diomaye Faye na sua mensagem de Ano Novo ao povo do Senegal.
Diomaye Faye na sua mensagem de Ano Novo ao povo do Senegal.

“Françafrique”. O conceito tinha ganho expressão mediática sobretudo nos anos 1990. Pretendia designar as “relações preferenciais” que França mantinha com as suas colónias francesas, diziam os mais crédulos. Os outros sabiam que era um nome de um projeto neo-colonial feito de ingerências externas e de apoio a ditaduras para conseguir benefícios comerciais.

O ano de 2025 pode vir a enterrar definitivamente este conceito pelo menos na sua componente militar. O novo presidente senegalês, Diomaye Faye, tinha já exigido em novembro que a França retirasse os 350 militares que mantém no país. Agora concretizou o prazo de 2025 ano como o final de uma presença militar que durou décadas. “Instruí o ministro das Forças Armadas a propor uma nova doutrina de cooperação em defesa e segurança, que implicará o fim de qualquer presença militar estrangeira no Senegal a partir de 2025”, declarou no seu recente discurso ao país.

Para o futuro, “todos os amigos do Senegal serão tratados como parceiros estratégicos, no quadro de uma cooperação aberta, diversificada e descomplexada”, vincou.

Igualmente na modalidade de discurso de Ano Novo, Alassane Ouattara, presidente da Costa do Marfim, anunciou o regresso à soberania do país da base militar francesa de Port-Bouët, anteriormente ocupada pelo 43º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais que “será transferida para as Forças Armadas da Costa do Marfim e renomeada como ‘Campo General do Corpo de Exército Ouattara Thomas d'Aquin’ a partir de janeiro de 2025”.

Aqui o tom do discurso é diferente com o presidente a sublinhar que o trabalho dos cerca de 600 militares franceses no terreno deixou de ser preciso porque o trabalho de modernização do exército que faziam estaria “agora completo”.

O Governo de Chade também tratou de romper os acordos de defesa com a França em 28 de novembro passado. Estes remontavam aos anos 1960. O ministro das Relações Exteriores, Abderaman Koulamallah, anunciou horas depois do seu congénere francês ter visitado o país que a França deveria retirar o seu contingente militar do país. Isto apesar de Paris não se ter oposto à tomada de poder por parte de Mahamat Idriss Déby depois da morte do seu pai em 2021. Justificou que “a França é um parceiro essencial mas deve também considerar que o Chade cresceu, amadureceu, e que é um Estado soberano e muito orgulhoso da sua soberania”.

Os países do Sahel dominados por ditaduras militares, Mali, Burkina Faso e Níger, também já tinham expulsado perto de 4.000 soldados franceses do seu território anteriormente, em 2022/2023. Sob estes paira a sombra de um outro neocolonialismo, o russo, e do poder das suas milícias de extrema-direita como o reconfigurado grupo Wagner.

No Gabão, onde havia 370 militares no campo de Gaulle, a presença militar francesa continuará mas será reduzida e voltada para a “formação” com a criação de uma escola de administração militar em julho de 2024, na qual se falou numa “nova parceria” entre os países, à qual se somará uma “academia de proteção do ambiente e dos recursos naturais”. A breve prazo ficarão apenas uma centena de militares franceses neste país.

Fica a faltar uma exceção à regra. Em dezembro passado, o presidente francês, Emmanuel Macron, tratou de visitar aquela que passará a ser a última base militar operacional francesa em África, a do Djibuti. Esta conta com perto de 1.500 soldados e aí o acordo militar com França foi recentemente renovado.

Nas suas declarações, Macron apresenta o que tem acontecido com uma “decisão soberana do seu país”, tomada depois de “vários anos de mudança gradual” para “reconstruir parcerias”. Acrescentou ainda que quer “reinventar” esta base militar como “ponto de projeção” para as “missões” francesas em África. Não especificando o que isto significa.

Recorde-se que neste pequeno país há também bases militares dos EUA, do Reino Unido, da Alemanha, do Japão e da China.

Estima-se que no período pós-independências, nos anos 1960, a França tenha chegado a ter 60.000 soldados espalhados por 90 diferentes zonas militares de África.